Otávio era modelo. Na flor da juventude e jeito de galã foi ao Teatro Rival, no centro do Rio de Janeiro. Viu Jane di Castro no palco e apaixonou-se perdidamente. Naquela mesma noite, esperou a artista sair do teatro. Ela, muito jovem, teve receio de apresentar-se Luiz, seu nome de registro. Nunca mais se separaram e acabam de completar 50 anos de casados. O depoimento de Otávio sobre Jane, o amor de toda a sua vida, é dos trechos mais emocionantes de “Divinas Divas”, documentário que conta parte da história da primeira geração de artistas travestis no Brasil, filme de estreia da atriz Leandra Leal como diretora.

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Jane di Castro: “Nós fomos cobaia de tudo, inclusive de hormônios e das primeiras cirurgias”.

Um dos primeiros palcos a receber as artistas travestis foi o Teatro Rival, dirigido por Américo Leal, avô de Leandra, entre os anos 60 e 70. “As divas fazem parte do meu mundo e eu do delas. Elas nunca foram estranhas para mim”, diz a diretora no filme, onde aparece em pequenos offs ou na câmera que perscruta os bastidores do teatro, parte das vezes por trás das cortinas, certamente como a pequena Leandra fazia. “O filme não é sobre gênero, nem sobre travestis. É sobre arte, sobre oito artistas que admiro”, afirma a diretora no bate-papo após a sessão ocorrida no Cinemas Teresina, no último mês de junho. Acompanhada por algumas das atrizes, Leandra tem percorrido diversas cidades brasileiras. Na capital do Piauí veio com Jane di Castro, que ainda brindou o público cantando La Vie em Rose (Édith Piaf) à capela. “Quem vai nos ver não encontra homens vestidos de mulher ou caricaturas de mulher. Encontra artistas”, diz Jane.

“Divinas Divas” era o nome do espetáculo de teatro que Jane di Castro vinha produzindo com as amigas que reinaram anos antes no teatro Rival, de Américo. Desde que viu esse espetáculo, Leandra quis fazer o filme. Entre as primeiras conversas, a dificuldade de levantar recursos, as filmagens e montagem, foram quase dez anos. “O tempo beneficiou o documentário, porque todos nós, artistas e equipe, fomos aumentando ainda mais a intimidade”, diz Leandra para Revestrés. “Na montagem demoramos mais de dois anos, porque eu precisava me distanciar, deixar o filme emergir”.

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Leandra Leal: “O filme não é sobre travestis. É sobre oito artistas que admiro”.

Entre a exuberância que as artistas apresentam e a reflexão sobre as dificuldades que enfrentaram, Leandra avalia: “Quando elas começaram era muito mais difícil, mas acho que hoje a intolerância é maior. O Brasil é o país que mais mata travestis”. Jane contrapõe: “Os mais novos reclamam, mas hoje vivemos no paraíso. Nós fomos cobaia de tudo, inclusive de hormônios e das primeiras cirurgias”. Mas nem tudo melhorou, de fato. Além da intolerância, Jane acha que o artista travesti já teve mais espaço. “Nós tínhamos muito trabalho, substituímos as vedetes! Hoje, pela falta de oportunidade, a prostituição virou uma oferta”, acredita.

Uma das dificuldades do filme diz respeito a arquivo de imagens. Muitas fotos que aparecem foram garimpadas em Paris e Nova York. “Nós não temos um registro da história LGBT no Brasil”, constata a diretora. “Nossa sorte é que elas, por volta dos 70 anos, estão na ativa”. Uma solução foi produzir um show com as divas. Elas tiveram que voltar ao ensaios regulares, muitas vezes sem a paciência e o encantamento dos primeiros tempos. Algumas reclamam do salto, da maquiagem, do horário exaustivo, querem voltar para casa – tudo isso deixa o filme ainda mais bonito, por revelar as divinas, para além do brilho, tão humanas.

Entre elas, Marquesa era a única que havia voltado a vestir roupas masculinas, ficando quase irreconhecível entre as fotos e as imagens atuais. É dela também, parte das histórias mais marcantes, como quando conta, sem mágoas, que a mãe a internou esperando que se curasse. É ela quem aparece de vestido amarelo no cartaz do filme que não viu pronto. Marquesa faleceu em 2015, aos 71 anos. Jane diz que não julga a amiga por ter abandonado o visual feminino, mas confessa à Revestrés: “Eu preferia morrer a ter que voltar a me vestir de homem. Não gosto de cueca, gravata, sapato masculino, eu gosto é de batom! Eu demorei muito pra chegar aqui” – abre os braços, chamando atenção para a roupa, o tamanho dos seios – “A gente não podia nada: nem se vestir de mulher, nem usar a roupa que queria, nem dar entrevista dizendo isso”.

As mais de 400 horas de filmagens se transformaram em 1h50 de filme, certamente difíceis de editar, pelas histórias que afloram e pela força do elenco. Além de Jane di Castro, estão lá Rogéria, Divina Valéria, Camille K., Brigitte de Búzios, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos e Marquesa. “Dá pra fazer o Divinas Divas 2,3,4, né Leandra?”, provoca Jane.

Entre as cenas, muito do que não foi planejado e a direção sensível permitiu. Fujika de Halliday fala de seu marido falecido e põe uma música para Leandra ouvir. É “Abandono”, na voz de Eliana Pittman. Tivesse sido a gravação de Roberto Carlos, o alto custo do direito autoral impediria seu uso. Fujika canta junto com o disco: “Se voltar não me censure, eu não pude suportar, nada entendo de abandono, só de amor e de esperar”, e chama a atenção de Leandra: “olha como isso é lindo!”. Gravada quase por acaso, a cena é mantida na íntegra no filme.

E o que esperar de “Divinas Divas”? Vem de Jane a resposta: “Que as pessoas nunca mais olhem para uma travesti ou uma transexual do mesmo jeito”.