“É a cidade que habita os homens ou são eles que moram nela?”, a reflexão é paradigma frequente nos escritos de Torquato Neto. Dá para fazer uma arqueologia do poeta através de seus textos. Começando pela infância, as memórias, a distância – chegando a saga final, nos anos 70, pouco antes de partir, despedindo-se com a palavra (da cidade ou da vida?). Há saudade, angústia, tristeza e melancolia revelada em verso.  

 Walter Benjamin afirmava que as coisas, a realidade, têm uma dimensão universal e outra particular – ao passo que escrevia, como um cronista da cidade, Torquato se inseria como um pequeno átomo que também a compõe, fundindo as duas dimensões do filósofo – a própria figura do flâneur, para usar outra metáfora benjaminiana.  É por isso que seus poemas, cartas e textos têm servido, ao longo do tempo, como fonte para pensar as transformações dos lugares – Por mais que tenha saído de Teresina, a cidade parece que sempre esteve dentro dele, como coração fora do peito.  Não é minha cidade. Não é o meu país. Mas é a minha rua.  

 Comecemos, então, o percurso, pelo poema “A rua”, de 1967. Musicado por Gilberto Gil, virou canção no período pré-tropicalista. É considerada, pelos analistas de sua obra, uma radiografia da infância de Torquato, vivida na Rua São João (antiga Pacatuba), bairro Barrocão, hoje atribuído ao Centro de Teresina. As cirandas, as brincadeiras de criança, as festas e o rio Parnaíba são elementos presentes na composição. Há ainda, nos versos, referência a personagens do bairro como Macapreto e Zé Velhinho, e as moças Das Dores e Luzia, que trabalharam como domésticas em sua casa. A biografia do poeta, escrita por Toninho Vaz (“Pra mim chega”, 2013) revela uma curiosidade: certo dia, surgindo o boato sobre a menina Luzia ter perdido a virgindade, todo o bairro comentava: “Luzia se perdeu”. Do alto da ingenuidade infantil, Torquato perguntou: “Então por que ninguém sai a rua a procurá-la?”. 

 A casa, de número 1042, foi um dos principais cenários das peripécias infantis – Torquato morou ali pelo menos até os 15 anos. Era um menino franzino, branquelo, tinha nariz grande e orelhas de abano – sendo o alvo dos apelidos inventados pelos colegas. Desde cedo mostrou preferência a leitura que aos esportes – no colégio, era mais da turma dos livros que do futebol. A despeito disso, figurava aos fins de semana nas peladas de rua. O comerciante José Adauto foi vizinho de Torquato neste época. “Nós éramos vizinhos de parede mesmo, só um muro nos separava”, diz em depoimento para o documentário “A rua”, produzido por Letícia Gonzaga. “A gente jogava bola aqui na rua São João com Simplício Mendes e Rui Barbosa. Às vezes tinha aquelas brigas de jovem mesmo”, relembra. “Quando ele se sentia mal no jogo, ele pegava a bola, ia pra casa e acabava o futebol. Ele era o dono da bola”.   

 O documentário foi produzido por Letícia Gonzaga como trabalho de conclusão do curso de jornalismo – intrigada com a descrição das cenas no poema, ela procurou saber mais sobre a história do bairro Cajueiro (antigo Barrocão) quase cinquenta anos após a morte do poeta. “Eu moro nesse bairro há 23 anos e sempre escutei histórias da minha vó e vizinhos de que o Torquato Neto morou por aqui”, comenta. “Eu tinha curiosidade de saber qual era a relação dele com o bairro e onde exatamente ele morou”.  

 Os relatos de uma infância traquina colhidos com quem conviveu com ele, contrastam com a figura de menino letrado: aos 11 anos Torquato pediu de presente ao pai uma coleção das obras de Shakespeare, especialmente com a peça Rei Lear. Sua mãe, dona Salomé, surpresa, advertiu que escolhesse uma leitura mais apropriada para sua idade, ao que ele respondeu: “Nada disso, minha mãe, basta ler com atenção que a gente entende tudo”. Depois pediu a obra completa de Machado de Assis – estava determinado a estudar o autor mais profundamente, do alto de seus 14 anos. 

 Mas quando não estava lendo, Torquato se juntava aos amigos com quem dividia a mesma preferência lúdica: descobrir Teresina e o mundo. Segundo seu biógrafo, foi ao lado dos amigos de infância que Torquato desbravou as ruas: “andavam fazendo travessuras, apertando as campainhas das casas para sair correndo até a esquina, numa demonstração de ‘técnica’ e agilidade”, cita o livro de Toninho. Mesmo quando bancava o adulto, Torquato era só menino: “Ele gostava de se fazer de gente grande, demonstrando interesse por música e arte”, diz, no livro, o jornalista José Lopes, locutor da rádio Difusora nos anos 50 – caminho no qual Torquato passava todos os dias a caminho para casa e, frequentemente parava para uma conversa. 

 É também desta época o atrevimento do menino na ocasião da inauguração da ponte sobre o rio Poti. Antes mesmo de qualquer autoridade, foi ele o primeiro a pisar na construção, driblando o prefeito e o padre tão logo cortaram a faixa vermelha. A façanha, ele mesmo fazia questão de relatar, depois, aos amigos: “Fui o primeiro a atravessar a ponte. Antes de mim, só o vento!”.  

 São provavelmente estas recordações que inspiram o poeta mais de duas décadas depois, quando escreve “A rua”. Para Edwar Castelo Branco, pesquisador que usa os poemas torquateanos como instrumento para pensar historicamente a cidade, “A rua” é um dos poemas em que o autor tematizou mais explicitamente a cidade de Teresina, “procurando arrancar sob os escombros de uma capital moderna a bucólica cidade de sua infância”, diz no artigo “A cidade que me guarda: um estudo histórico sobre ‘Tristeresina’, a cidade subjetiva de Torquato Neto”. ”É possível perceber com repetida clareza uma posição reativa em relação ao tempo”, analisa o historiador.  ”É como se o poeta, ao projetar a memória da antiga nomenclatura das ruas (“ê São João, ê Pacatuba, ê rua do Barrocão”), pudesse restaurar a sua cidade perdida”.  

 Apesar da importância histórica de “A rua” como marco da memória afetiva do poeta com a cidade, Edwar observa, em entrevista à Revestrés, que vem de antes disso as marcas de uma cidade subjetiva nos escritos de Torquato – é por volta de 1962, em seus poemas iniciais, que aparecem traços da família, das tradições culturais e do cotidiano que, apesar de saudoso, parecia lhe afrontar. “Panorama visto da ponte”, “Bilhetinho sem maiores consequências”, “Cidadão Comum” e “A explicação do fato” – este último um longo poema escrito em três partes – são os principais textos deste período, segundo o pesquisador. Nestes escritos, anteriores à fase tropicalista, o poeta já anuncia a sua profunda dificuldade de territorialização.

“Pessoalmente acho que essa cidade subjetiva aparece em inúmeros textos dele”, afirma o pesquisador, para quem a poesia de Torquato Neto é caótica e tortuosa. “Alegre e saudável em alguns – como no “lindo pendão” dos olhos da Carolina “que a saúde irradia”, em Geleia Geral”, aponta. “Triste e introspectiva em outros – como em ‘Tristeresina'”.  

 Considerado um objeto-poema, “Tristeresina” integra os escritos de “Vir ver ou vir”, uma abordagem filosófica e poética de “O terror da Vermelha”, o filme super-8 que o poeta planejava fazer em 1972. Sua volta à Teresina nessa época, proporcionou o reencontro com velhos amigos da infância, que editavam um jornal alternativo chamado Gramma – mais uma vez a relação intrínseca com os cenários da cidade: jogados à grama verde dos arredores da Igreja São Benedito, o grupo discutia as ideias de pauta. Ao menos foi assim que eles contaram a história depois, ignorando qualquer semelhança com a publicação cubana homônima, porta-voz da revolução de Fidel Castro.  

A criação, que além dos escritos gerou um ensaio fotográfico, se insere na fronteira entre as artes plásticas e a poesia, Torquato deixa transparecer quase que explicitamente a influência da obra de Hélio Oiticica e também dos poetas-processo de quem se aproximara. O poeta contrapõe seu próprio corpo a um painel subdividido onde se lê as expressões RESINA e SINA – em segundo plano, chama atenção a inúmera repetição da palavra TRISTE. Para Edwar, o jogo de palavras com resina (sangue), sina (destino) e tristeza é a síntese da sua cidade particular. “Em Tristeresina ele anuncia, com seu próprio corpo, o apagamento do brilho, o fechamento do ciclo”.  

No período apontado pelos estudiosos de sua obra como pós-tropicalista, Torquato estava sem trabalhar em jornal, entrando e saindo de internações (às vezes voluntárias) em hospitais psiquiátricos e manifestando-se em textos poéticos que não obedeciam a nenhuma ordem ou coerência estética – diários em forma de carta, rascunhos, rabiscos, desenhos, prosa ou poesia, nos registros que ficaram não exigem uma definição de gênero para que observemos a riqueza. É desta época escritos como “Andarandei” e “Um dia desses eu me caso com você”, aparentemente feitos para serem musicados – versos que, além de tudo, servem como fontes biográficas dos caminhos do poeta pelas ruas da cidade. 

Quando escreveu “Três da madrugada”, que ganhou melodia por Carlos Pinto e emocionante interpretação de Gal Costa, é possível que o poeta vagasse por uma cidade (ou uma vida?) a qual não sentia pertencer mais. Pelo menos é o que acreditam aqueles que arriscam interpretar seus versos e sensações. Se “A rua” é um retrato do passado e das memórias de Teresina com a alegria da infância, os trechos melancólicos deste outro poema, por sua vez, são imagens do momento que vivia no Rio de Janeiro, na Tijuca, na despedida: “a cidade abandonada e essa rua não tem mais nada de mim”. 

Publicada na Revestrés#33 (novembro/17), especial Torquato Neto.