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23/09/2017
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Wellington Soares

Coisas e outras

Santo Palavrão

Palavrão 3Sempre descobrindo coisas interessantes, os cientistas ingleses. Daí gostar tanto deles. Desta vez chegaram à conclusão, após anos de pesquisa, que falar palavrão faz bem à saúde. Eu já desconfiava disso, pena ninguém ter acreditado em mim. Como não sou doutor nem europeu, as pessoas não levavam a sério (como ainda hoje não levam) o que dizia a respeito de assunto tão delicado. Além disso, zombavam de minha cara, taxando-me de abestado. Agora estou de alma lavada, não só faz bem como é recomendável dizer palavrões. Por um único e simples motivo: “Xingamentos ajudam a lidar com as emoções e tornam mais fácil controlar a dor”, segundo o Dr. Richard Stephens, professor da Universidade de Keele, em Staffordshire, no Reino Unido. E vai mais longe, o eminente pesquisador, ao afirmar que “quanto mais forte a palavra, maior pode ser o efeito de alívio”.

Palavrão 2Para constatar a veracidade de tal descoberta, basta lembrar-se da velha topada de arrancar a unha do dedo. Ou você grita pooorrra com todo o fôlego dos pulmões, dando para ouvir a quilômetros de distância, ou está completamente frito, uma vez que nasce dentro da gente um desespero maior que a dor causada pela maldita pedra. Outra situação inevitável, na qual o palavrão não pode faltar, é quando esquecemos algo, surgindo espontâneo o famoso merda. E o que dizer ao constatarmos que o juiz, em plena decisão de campeonato, prejudicou o nosso time levando-o à derrota: ladrão, filho da puta, boiola, filho da égua, cretino, filho de uma arrombada, descarregando em sua coitada mãe, que não tem responsabilidade nenhuma pelos erros do filho, impropérios dos mais absurdos.

Agora pais e mães, informados dessa novidade científica, devem pensar duas vezes antes de lavar a boca dos filhos com sabão por conta de meros palavrões. Quanto a puxões de orelha ou outra forma de castigo, nem de longe devem ser pensados pelos progenitores, sob o risco de comprometer a saúde dos pimpolhos. Se formos observar, todos dizemos palavrões, até mesmo o papa Francisco que, num ato falho, soltou um sem querer, ao pedir uma solução pacífica para a crise na Ucrânia, em 2014. Em vez de falar “neste caso”, o pontífice leu “neste ‘cazzo’”, gíria italiana usada para designar o órgão sexual masculino. Nas letras de música, os exemplos são abundantes, bastando lembrar estes versos antológicos do Titãs: “Pulgas! /Que habitam minhas rugas /Oncinha pintada /Zebrinha listrada /Coelhinho peludo /Vão se fuder! /Porque aqui /Na face da terra /Só bicho escroto /É que vai ter…”.

Palavrão 1Parafraseando Castro Alves, no que diz respeito ao Dr. Richard Stephens, diria que Oh! Bendito o cientista que semeia palavrões à vontade, e leva o povo a repensar sua educação, pequenas doses de xingamentos ao dia, não só faz bem ao corpo como à alma também. E imaginar que eu, há poucos dias, sofria censura por expressar alguns termos considerados tabus. Dizer até que podia, desde que baixinho ou dentro do banheiro, jamais publicamente. Quantas vezes tive que engoli em seco, frente à barbeiragem de um motorista, palavras “simpáticas” como veado, corno, vai tomar no cu, caralho, filho de rapariga e foda-se. De tudo que presenciei em termos de palavrão, uma cena guardo ainda hoje na memória, envolvendo duas mulheres no centro da cidade. O marido estava numa loja com a amante, quando chega a esposa e flagra os pombinhos fazendo compras. As amabilidades não tardaram muito entre elas: vadia, cachorra, piranha, vagabunda, sem-vergonha e quenga. É dispensável dizer que as pessoas ali presentes torciam para que o circo pegasse fogo, justamente no instante em que a digníssima vira para a outra e sapeca em alto e bom som: “Vai dar o teu priquito pra outro, égua, que este macho já tem dono”. Podem não acreditar, mas naquele episódio tive a certeza que os palavrões não só fazem bem à saúde como são de uma poeticidade sem igual.

Saliceu 2017

Depois do Salipi, em 2003, outras feiras literárias surgiram no Piauí, tanto na capital como no interior do estado. Fato extremamente animador do ponto de vista cultural e na formação de leitores, haja vista o pouco hábito de leitura entre nossa população. Se no Brasil a média não ultrapassa quatro livros por ano, abaixo de países vizinhos, imagine em solo piauiense, onde faltam bibliotecas e livrarias. Sem falar também de gestores indiferentes e da inexistência de políticas públicas nesse sentido. Não fossem alguns professores de índole quixotesca, vencendo moinhos de vento, a situação estaria uma lástima, sem os jovens terem acesso ao livro – verdadeiro passaporte para o futuro das novas gerações. Em Teresina, outro evento que desponta nessa área, precisamente no bairro mais populoso da cidade, é o Salão do Livro do Dirceu, previsto para acontecer entre os dias 20 e 22 deste mês.

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Dentre os convidados da 2ª edição, Ano Clóvis Moura, poeta e sociólogo amarantino que dá nome ao campus da Uespi no bairro, local de realização do Saliceu, destaca-se o nome da Ana Miranda, escritora cearense consagrada nacionalmente a partir do lançamento, em 1989, do romance O Boca do inferno, reconstituição histórica da Bahia do século XVII com seus polêmicos representantes literários: Gregório de Matos e Pe. Antônio Vieira. Nessa sua obsessão em evocar vozes de outros séculos, no campo das letras, temos ainda A última quimera (Augusto dos Anjos), Dias & Dias (Gonçalves Dias) e Semíramis (José de Alencar). Em entrevista a jornal carioca, Ana Miranda esclarece esse paradoxo: “Mas minha identificação maior não é com personagens, e sim com o modo de narrar, de construir o livro. Os únicos personagens em que me vejo são os que eu mesma desenho, e todos eles. Desde Gregório de Matos até Semíramis ou Iriana, todos são pedaços de mim.”

Os outros três palestrantes nacionais, provenientes do Maranhão, já são bastante conhecidos do nosso público: o poeta Salgado Maranhão, filho de Caxias radicado no Rio de Janeiro, “uma das vozes mais originais de sua geração”, segundo Luiz Fernando Valente, professor da Brown University, que “representa um elo importante na evolução do que identificamos como a linha apolínea na moderna poesia brasileira. Herdeiro de Drummond, Cabral e Faustino, sua elegante obra poética continua e renova o melhor da produção poética brasileira das seis últimas décadas”; e a dupla formada por Celso Borges, poeta e letrista, e Beto Ehongue, DJ e compositor, que apresenta um trabalho poético da melhor qualidade, marcado pela irreverência e crítica política – “A posição da poesia é oposição”, performance aplaudida em São Luís e outras capitais do país, experimentações verbais e sonoras em torno da palavra.

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A prata da casa vem representada por um timaço de profissionais, escolhido a dedo, que deixará o público simplesmente impactado com suas falas. A começar por Cineas Santos, professor e escritor, ao abordar “O Piauí na poesia de Dobal”, autor dos mais queridos de nossa literatura; Joselita Izabel, com “A mulher levanta a saia”, sobre a vida e a obra de Hilda Hilst, escritora malvista pelos textos eróticos; Feliciano Bezerra, com “A escritura de Torquato Neto”, uma visão multifacetada do artista predestinado a desafinar o coro dos contentes; Cícero Filho, cineasta maranhense, com o seu inquietante “Ai! Que Vida”, 10 anos de uma comédia política recordista de público e  atual como nunca; Adriano Lobão, destrinchando “A luta com as palavras na redação do Enem”, fantasma que tira o sono de vestibulandos e concurseiros; e, entre outros, Nelson Nery Costa e Socorro Magalhães, ambos membros da APL, explicitando o legado e os desafios da Casa de Lucídio Freitas. O lançamento do evento ocorre amanhã (13), na Uespi do Dirceu, com palestra pra lá de instigante de Nathan Sousa: “A poesia brasileira do século XXI”, ele que é a grande revelação da nova safra da poética piauiense. Nunca esquecer que um país, tirada magistral de Monteiro Lobato, se faz com homens e livros. Ou não?

Madeleine Stowe

Esta semana me veio à cabeça um poema antológico de Vinícius de Moraes, escritor carioca que se notabilizou por celebrar o amor, temática universal e presente em todos os tempos. Quando menos espero, estou eu recitando alguns versos de A mulher que passa, texto no qual o “Poeta da Paixão” expressa todo deslumbramento e desejo à bela garota que cruza o seu caminho: “Oh! Como és linda, mulher que passas / Que me sacias e suplicias / Dentro das noites, dentro dos dias!”. No meu caso, a declaração de interesse foi motivada, no que dá no mesmo, por uma atriz norte-americana que costumo ver nos filmes hollywoodianos. O nome dela é Madeleine Stowe, filha de pai britânico e mãe costa-riquenha que, ao aparecer na tela, acorda em mim uma súplica mais que urgente: “Meu Deus, eu quero a mulher que passa.”

Fiquei encantado por essa deusa, pela primeira vez e em definitivo, ao vê-la no papel de Cora, heroína do O último dos moicanos, filme baseado no romance homônimo de James Fenimore e dirigido pelo tarimbado Randolph Scott. A história trata da guerra entre ingleses e franceses, nos anos de 1756 a 1763, pela posse das terras localizadas na costa leste dos Estados Unidos. Filha do coronel inglês Munro, encarregado pela defesa do forte William Henry, Cora é perseguida e ameaçada de morte pelo cruel Magua, um dos chefes guerreiros da tribo Yuron, aliado dos franceses. Sob um fundo musical comovedor, nossa bela e irresistível mocinha é salva por Nathaniel Hawkeye (Daniel Day Lewis), destemido jovem americano criado por uma família de índios moicanos. Já naquela película, brotavam convictamente os versos de Vinícius: “Como te adoro, mulher que passas / Que vens e passas, que me sacias / Dentro das noites, dentro dos dias!”.

Madeleine Stowe

 

A rendição total à beleza de Madeleine Stowe se deu quando a vi encarnando a sensual Mireya, do filme Vingança, dirigido por Tony Scott e lançado em 1990. Casada com um poderoso negociante mexicano, com idade para ser seu pai, a jovial e atraente Mireya acaba se apaixonando pelo ex-piloto Michael Cochran, amigo do chefão Tiburon Mendez (o “Tibby”) a quem resolve visitar após a merecida aposentadoria, depois de 12 anos de serviços prestados à marinha estadunidense. Flagrados na cama, tanto Mireya quanto Cochran provam da implacável ira do traído esposo. Ela é levada para um puteiro e disponibilizada a todos os homens; ele, leva uma surra tremenda dos capangas do “Tibby”, escapando milagrosamente por pouco. A cena na qual Mireya, dentro do carro, senta nas pernas do sortudo Cochran, que mal consegue dirigir, é digna dos apelos mais sinceros e voluptuosos por Madeleine Stowe: “Meu Deus, eu quero a mulher que passa! / Eu quero-a agora, sem mais demora / A minha amada mulher que passa!”.

De sua extensa filmografia, ainda vi dois outros filmes muito interessantes: Blink – Num piscar de olhos(1994), no qual interpreta uma violinista que ficou cega aos oito anos após ser agredida pela mãe; e A filha do general, em que vive uma advogada tentando desvendar um misterioso crime acontecido numa base militar. Além de ser bonita, Madeleine é daquelas mulheres que transpira uma sensualidade inquietante e urgente. Daí sempre associá-la a mulher festejada por Vinícius de Moraes, o poeta que não teve receio nem despudor em cantar o gênero feminino, combinando sentimento e carnalidade. Ver Madeleine Stowe atuando sempre relembra em mim o cancioneiro amoroso desse saudoso poeta: “Teus sentimentos são poesia / Teus sofrimentos, melancolia. / Teus pelos leves são relva boa / Fresca e macia. / Teus belos braços são cisnes mansos / Longe das vozes da ventania”.

Troco jamais

Teresina - Foto

De Teresina gosto, praticamente, de tudo. Até mesmo, se duvidarem, dos defeitos. Porque amor é sentimento estranho e inexplicável. Ou é por inteiro, com doces e salgados, ou não interessa pela metade. Tenho pra mim que essa relação, mal resolvida e intensa, é o meu destino: amar sem conta, inclusive de forma doentia, essa cidade que me pariu e embala ainda hoje. Seu passado e presente que se confundem com a minha própria existência, mais de meio século, por meio de uma memória fragmentada, verdadeiro entrelaçar de emoções e lembranças que perduram infinitamente. Na Clodoaldo Freitas, os brinquedos do Avião, nosso Papai Noel, recebidos com tanta alegria por todos os guris. O prazer de ser aplaudido, na inauguração do Karnak, ao cantar num coral sob a batuta do maestro Reginaldo Carvalho. O momento inesquecível das Diretas Já, no bairro do Marquês, com Ulisses, Brizola e Lula desfraldando a bandeira da democracia, luta memorável pelo fim da ditadura civil-militar.  O desespero de milhares de torcedores, ante a falsa notícia do desabamento de arquibancadas, na inauguração do estádio Albertão. A incrível memória do Cavaleiro da Esperança, aos 80 e tantos anos, discorrendo sobre sua Coluna pelo Piauí, em palestra realizada na Ufpi, estudantada atenta na exposição de Luís Carlos Prestes, lenda do comunismo brasileiro. A sensação inesquecível, nas Casas Pernambucanas, de andar numa escada rolante, na Praça Rio Branco, medo danado de prender o pé naquela geringonça. Os banhos memoráveis, em manhãs ensolaradas, nas coroas do Parnaíba, nosso Velho Monge – “as barbas brancas alongando e ao longe / o mugido dos bois da minha terra.” As peladas no campinho do Bariri, com o mestre Pato Preto orientando e revelando novos craques pro nosso futebol. O ginásio Verdão lotado de gente, em show inesquecível do RPM, com Paulo Ricardo soltando a voz em Louras geladas e Olhar 43, com milhares de fãs em êxtase. A perda da virgindade na Paissandu, rezando para não pegar uma doença da vida, revoltado por não acontecer com a namorada. O gostoso pão de queijo do  Seu Cornélio, nos intervalos das aulas, em conversa animada com os amigos, ali na P2. As novenas na Vila Operária, dias de terça-feira, levado por dona Raimunda, sob a condição de ganhar um picolé Amazonas. O surgimento dos shoppings na zona Leste, Riverside e Teresina, com nossa capital adquirindo aspecto de metrópole, mundão de gente maravilhado com as acrobacias da Esquadrilha da Fumaça e os saltos mortais de paraquedistas. As manifestações estudantis na Praça Pedro II, entoando a canção de Vandré, hino dos universitários contra a tirania e a falta de liberdade no país: “Vem, vamos embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer”. O fascínio pelos circos, nas figuras do palhaço e malabarista, instalados na Praça da Bandeira, coração dando pulos de alegria. A faixa protestando contra a fome do povo, em ato de coragem e rebeldia, diante do sensível olhar do papa João Paulo II, em 1980, diante de mais de 100 mil pessoas: “Santo Padre, o povo passa fome”. As boas gargalhadas dadas em função, nos cines Rex e Royal, das engraçadas traquinagens do Carlitos, o gênio do cinema mudo – nosso eterno Charles Chaplin. Os sucos deliciosos do Abrahão, na zona Norte, acalmando nossa fome diária e outras angústias. A feirinha da Sulica e do Zé Elias, na Praça Saraiva, onde encontrávamos a rapaziada da cultura e ouvíamos música de qualidade. Os namoricos dentro de carro, em avenidas e ruas, antes dos motéis e da violência que tomou conta da cidade. Para recarregar as baterias, depois das baladas noturnas das sextas-feiras, nada melhor que um café reforçado no Mercado da Piçarra: panelada, sarapatel, carneiro ao molho, buchada, galinha caipira, caldo de carne, bolo frito, beiju com ovo e um bom cuscuz acompanhado de carne de sol. O Salão do Livro de Teresina, realizado anualmente em junho, despertando o gosto pela leitura desde cedo na garotada. O espetáculo e tanto do coral de mil vozes, protagonizado por crianças humildes, nas escadarias da igreja de São Benedito. Enfim, como diria o poeta itabirano, o meu amor por Teresina faísca na medula, agora em seus 165 anos, e para sempre, enquanto respirar. Daí viver repetindo, constantemente, os versos antológicos da dupla Aurélio Melo e Zé Rodrigues: “Apenas olho minha Teresina/ Como quem delira na beira do cais/ Ai, troca, quem troca, destroca/ Minha Teresina não troco jamais”.

(foto: Portal R10)

O Garoto do Estácio

A morte pisou feio na bola ao levar o querido Luiz Melodia na última sexta-feira. Se a intenção era silenciá-lo de vez, aos 66 anos, perdeu seu tempo e viagem. Como bom negro gato, ele apenas trocou seu espaço de shows: a terra pelo céu. Sem falar que dispõe ainda, segundo a crendice popular, de seis outras vidas. E o que é melhor, ao invés do esquecimento, será lembrado a cada dia – para tristeza da indesejada das gentes – por seus milhares de fãs e admiradores. Quem mandou mexer logo com ele, o travesso menino do Estácio, Morro de São Carlos, de talento artístico sem igual e presença carismática em palco? Agora é que cantaremos pra valer, letras na ponta da língua, suas músicas que tocam fundo nossa alma, a começar por Pérola negra: “Tente passar pelo que estou passando / Tente apagar este teu novo engano / Tente me amar pois estou te amando / Baby, te amo, nem sei se te amo”.

Sádica como ela só, de sentir prazer com o sofrimento alheio, não darei esse gostinho à dita cuja, preferindo falar de momentos felizes envolvendo Melodia a ficar pelos cantos remoendo tristezas. Dos inúmeros shows que fez aqui, ele que não cansava de vir a Teresina, relembro alguns de forma especial. Comecemos pelo que foi apresentado na Praça Pedro II, dentro da programação em homenagem a Torquato Neto, no qual cantou divinamente bem, além de expressar gratidão ao nosso Anjo Torto pela força recebida no início da carreira, destacando seu talento aos leitores do Última Hora, jornal carioca prestigiado na década de 1970, onde assinava a coluna Geleia Geral. Difícil não acompanhá-lo quando ele soltava a bela voz: “O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço / Trago, não traço, faço, não caço / O amor da morena maldita do Largo do Estácio”.

Melodia - Foto

 

Outro show marcante aconteceu em 2010, no encerramento do Salão do Livro do Piauí, com o 4 de Setembro lotado, ele na voz e Renato Piau no violão, levando o público ao delírio num acústico da melhor qualidade. Era tamanha a sintonia que, nas pausas feitas de propósito, a cantoria prosseguia em forma de coro afinadíssimo. Sem grana na época, o espetáculo somente foi possível graças a providencial intervenção do violinista piauiense, seu parceiro de longas datas, que tendo direito a show por cachê módico, possibilitou a concretização de um acalentado sonho dos organizadores do Salipi. Felizes da vida, levantamos depois, na Confraria Uchôa, um brinde ao nosso convidado tão ilustre, sem esquecer de cantarolar, em agradecimento, um trecho de Juventude transviada: “Lava roupa todo dia, que agonia / Na quebrada da soleira, que chovia / Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada / Uma mulher não deve vacilar”.

Ano passado, no Seis e Meia, ele não só cantou maravilhosamente, como fez uma pungente declaração de amor aos piauienses. Tanto verbal quanto em cada música interpretada. Sentindo-se em casa, entre amigos próximos, chegou a tirar a blusa para ficar bem à vontade – inspiradíssimo como nunca. Uma despedida discreta e sem alarde? Em retribuição, cantávamos suas músicas com paixão e alegria, deixando claro que o sentimento era recíproco e verdadeiro. Difícil foi Melodia finalizar o show diante dos inúmeros bis que gritávamos, ele atendendo solícito, talvez pressentindo, quem sabe, que ali ocorria nosso último encontro em vida. Mas bonito mesmo, cá entre nós, era ouvi-lo cantar Magrelinha,  Codinome beija-florDores de amores e Fadas, ainda mais com a gente fazendo a segunda voz.

 

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