Revestrés

20/02/2018
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Wellington Soares

Coisas e outras

Sedução

Como tudo começou, nem eu mesma sei. Foi num relance, fração de segundos, meus olhos seduzidos pelo sorriso dela. Um sorriso enigmático e provocador, expresso em plena sala de aula, de forma bem sutil, sutilíssima. Daqueles que nos amolecem todinha por dentro, sem escapatória. Ninguém percebeu, na turma, mas sabia que era pra mim. Essas coisas não precisam ser ditas, a gente sente de longe, e fica paralisada, esperando ter certeza. Pura ingenuidade, pois os sinais haviam sido dados. Voz mansa comigo. Alegria nos encontros.  Cumprimentos afetuosos. Atenção em meu aprendizado, sobretudo. Sem gosto pelos livros, tinha dificuldade em escrever. Depois do convite implícito, já feito algumas vezes, como recusar aulas de redação em seu apartamento? Tudo lá, acredite, transpirava poesia e envolvimento. Invés de regras, no primeiro dia, ouvi textos de Hilda Hilst e Adélia Prado. Maravilhada, deixei-me possuir tanto por belas palavras quanto por mãos tarimbadas na arte do amor. Dali em diante, um mundo novo se descortinou para mim, mais envolvente e prazeroso. A ponto de dizer hoje, ó bendita a que educa, em todos os sentidos, virgens na tessitura das letras e no gozo dos corpos, síntese divina de múltiplos orgasmos. Respondendo essa bendita, no meu caso, pelo singelo nome de Sandra, professora das mais competentes em sua área, a desafiadora língua portuguesa. De seus apetitosos lábios, nunca esquecidos, ouço ainda Porque há desejo em mim, da poeta paulista, sem antes ficar molhadinha.

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.

Antes, o cotidiano era um pensar alturas

Buscando Aquele Outro decantado

Surdo à minha humana ladradura.

Visgo e suor, pois nunca se faziam.

Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo

Tomas-me o corpo. E que descanso me dás

Depois das lidas. Sonhei penhascos

Quando havia o jardim aqui ao lado.

Pensei subidas onde não havia rastros.

Extasiada, fodo contigo

Ao invés de ganir diante do Nada.

Embora difícil de compreensão, achava tudo muito bonito, inda mais exercitado na prática, por nós duas, ela sussurrando no meu ouvido, com voz sensual, cada verso do poema, arrepiando até a alma, corpo inteiro a ponto de pegar fogo. Da outra, a mineira, de Divinópolis, guardo na memória, de cor e salteado, o texto Sedução, declamado por Sandra abraçadinha a mim, coxas e braços entrelaçados uns nos outros:

A poesia me pega com sua roda dentada

me força a escutar imóvel

o seu discurso esdrúxulo.

Me abraça detrás do muro, levanta

a saia pra eu ver, amorosa e doida.

Acontece a má coisa, eu lhe digo,

também sou filho de Deus,

me deixa desesperar.

Ela responde passando

a língua quente em meu pescoço,

fala pau pra me acalmar,

fala pedra, geometria,

se descuida e fica meiga,

aproveito pra me safar.

Eu corro ela corre mais,

eu grito ela grita mais,

sete demônios mais forte.

Me pega a ponta do pé

e vem até na cabeça,

fazendo sulcos profundos.

É de ferro a roda dentada dela.

Foram muitas descobertas com Sandra, entre outras, a percepção da magia existencial e o saudável hábito da leitura. Sem falar também, não posso esquecer, do desabrochar de uma mulher habilidosa no manejo das palavras e carícias. Pena ter durado tão pouco, coisa de meses, até o ingresso no ensino superior, graças à nota máxima na redação

Ser poeta é um destino

 

Há quem diga que a poesia não resolve nada, objeto dos mais inúteis, mas serve, pelo menos, para revolver nossas entranhas, tirando-nos do estéril comodismo e tornando-nos pessoas melhores. Ao ler os textos de Graça Vilhena, poeta teresinense, constatei, maravilhado, essa afirmativa. Por sua causa, hoje sou outro e passei a ver a poesia de modo diferente. Não somente como mero jogo de palavras,  versos estruturados de forma harmoniosa, e sim, em sentido mais amplo, tudo aquilo que comove, sensibiliza e desperta sentimentos.  Encontrável em todas as artes e, sobretudo, nas coisas tidas como desimportantes. Fim de mundo é um belo exemplo disso.

 

Dentro das casas

humildemente

o dia se dissolve

no bico das chaleiras

cadeiras obedientes

ensaiam danças

nas calçadas

e a moça espalha

sobre um bordado

uma possível felicidade.

 

Em sua poética, gosto sobremaneira do caráter lírico, de tom contido, sem exageros e os clichês de praxe, o eu quase abolido do texto, expressando-se não a si mesma, mas preocupada com o outro, nós leitores, a quem convida humildemente, dando-nos a mão como velha amiga, a entrar no reino mágico e instigante das palavras. Sem falar também da concepção poética, não fruto da tal de inspiração, apenas objeto a ser talhado como se fosse uma pedra, um trabalho como outro qualquer. Que tal ler Lição de poesia?

                                        

uma rolha de cortiça serve

para boiar lembranças

de um amor de festa

caixas de fósforo molhadas

são também silêncios

para não acordar os candeeiros

 

e baganas espalhadas nas calçadas

é só pisá-las

para que os outros pensem

que se apaga estrelas

 

Ao contrário de muitos poetas, a escrita de Graça Vilhena é concisa e simples, suas inquietações ditas com economia vocabular e de forma compreensiva. Nada de prolixidade nem rebuscamento da linguagem que infestam até hoje, infelizmente, grande parte da poesia nacional, distanciando o leitor comum desse fascinante gênero literário. Daí produzir, cada vez mais, poemas e versos curtos, o muito expresso num tantinho de palavras, direta e objetivamente, a exemplode Recado.

 

Não velarei teu sono

E nem serei o aguador

De tuas palavras vidrosas.

Creio nos galos

Cantando até à grimpa

E nos cachorros

Viralatindo as madrugadas.

A noite não é silenciosa.

 

Bom constatar que não existem temas proibidos em sua obra, cabendo de tudo e algo mais, inclusive o amor físico, desprovido de moralismos e pudores, tendo assimilado direitinho a sábia lição do mestre Octavio Paz sobre erotismo e poesia: “o primeiro é uma metáfora da sexualidade, a segunda, uma erotização da linguagem”, como observamos em Desejo.

 

Teus olhos queimam meu corpo

quero ser arada

pelas tuas mãos

quero gemer ser pisada ser ferida

pelo teu beijo de semente

depois o descanso

teu suor moreno

chovendo sobre mim.

 

Graça Vilhena é poeta das melhores, daquelas que dá gosto ler, não às pressas, mas aos poucos, saboreando cada palavra e texto. Obra poética relativamente pequena, de dois livros apenas, contudo imensa do ponto de vista estético: Em todo canto (1997) e Pedra de cantaria(2013). Acredite, ela faz parte do seleto grupo de poetas que nos deixa, como diria Carlos Drummond, comovido pro diabo. Não à toa ser um dos autores homenageados, junto com Alice Ruiz e Itamar Assumpção, da Balada Literária deste ano, evento cultural dos mais importantes do Brasil, nascido há 12 anos em São Paulo e realizado, atualmente, em três outras capitais: Salvador, Teresina e Cuiabá.

Peidar sem medo

Ninguém quis acreditar, dado o barulho feito, mas era a pura verdade: um peido havia explodido na sala, justo no momento em que todos assistiam, com a máxima atenção, ao programa preferido da família. A indignação foi geral, a começar pela mãe que, dedo em riste, apontou em direção ao filho caçula, Jivago, autor da façanha e um rebelde por natureza.

– Não ensinamos bons modos a você?

– Sim.

– Por que então esse despropósito?

– Li que faz bem à saúde.

– Como assim?

– Tanto de quem solta quanto de quem cheira.

– Quem disse tamanha eguagem?

– Cientistas britânicos, da Universidade de Exeter.

– Era só o que faltava!

– Dizem que previne contra várias doenças.

– Por exemplo?

– Câncer, AVC, ataque cardíaco, artrite e demência.

– Lorota das grandes.

– Não, pois fruto de muitos anos de pesquisa.

Calado até então, o pai resolveu entrar na conversa também, logo ele que, no começo, achava não passar de brincadeira do guri, pego no flagra ao soltar um pum.

– Viu onde, filho, tal informação?

– Na internet.

– Que tem de especial esses gases?

– Sulfato de hidrogênio, que preservam as mitocôndrias.

– E daí?

– Elas respondem pela produção de energia das nossas células.

– Só?

– Além de regular as inflamações presentes nelas.

– Feliz com essa notícia, não é mesmo?

– Claro, sempre gostei de peidar.

– Sabemos disso.

– Mas viviam reclamando de mim.

Nessa hora as duas irmãs, citadas indiretamente, não se contiveram e, em tom irônico, alfinetaram o bróder.

– Também pudera!

– Não entendi.

– Você mata qualquer um.

– Dá pra ser mais explicitas.

– Seus peidos parecem carniça.

– Quanto mais fedorentos, saibam disso, mais saudáveis são.

– Credo!

– Não sou eu que digo, queridinhas, mas cientistas renomados.

– Sei não, sei lá.

– Tem mais uma coisa que vocês precisam saber.

– Diga lá.

– As flatulências melhoram a relação entre os casais.

– Não é o contrário, não?

– Logo, tratem de curtir os puns dos namorados e vice-versa.

– Nojeira!

Ansiosa para voltar ao programa, a mãe pede silêncio a todos, quando é surpreendida mais uma vez pelo garotão, com sorriso de deboche estampado no rosto.

– Mais uma coisita, além do já dito.

– Seja breve.

– Não esqueçam que sou um revolucionário.

– Que tem isso a ver com peido?

– Minha missão é libertar o que está preso.

Sitiado

 

O tempo chuvoso despertou em mim, aconchegado na rede do quarto, uma vontade danada de ler um bom livro, talvez pra celebrar o início do inverno no Piauí e espantar, por alguns meses apenas, o calorzão danado que faz em Teresina, quando saltou da biblioteca, num passe de mágica, o romance Sitiado, de Edmar Oliveira, psiquiatra e conterrâneo radicado no Rio de Janeiro, que apresenta, em 210 páginas, a bem urdida história, entrelaçando fatos reais e ficcionais, da passagem da Coluna Prestes por estas bandas, sobretudo, o cerco feito à nossa capital nos idos de 1925, entre o natal e o ano novo, ninguém podendo sair ou entrar na cidade, com tropas legalistas de um lado, fiéis a Artur Bernardes e Matias Olímpio, presidente do Brasil e governador do Estado respectivamente, e do outro os revoltosos, sob comando dos revolucionários Miguel Costa/ Luís Carlos Prestes/Juarez Távora, todos prontos a iniciar uma batalha sangrenta, deixando inúmeros mortos de ambos os lados, na única capital do país a vivenciar tão perigosa situação, embora não seja isso, a meu ver, o aspecto mais crucial da trama, escrita em linguagem simples e envolvente, e sim, acredite, as personagens comuns que despontam ao longo da narrativa, a exemplo do ingênuo soldado Teodoro, fissurado em cordel de cavalaria, escutadas da avó, especialmente as aventuras do imperador Carlos Magno e seus Doze Pares de França, através das quais descobriu em sonho, certa noite, estar lutando do lado errado e, igual a Ferrabrás, se converte à fé de Oliveiros pela força inspiradora de Roldão, encarnado agora na figura do Cavaleiro da Esperança, tornando-se um rebelado fervoroso dali em diante, a ponto de abandonar a mulher, Ceiça, a quem incumbe de batizar o filho, caso não volte, de Luís Carlos; outra que se destaca no enredo é Bernardino da Mata, popularmente conhecido por Lenine do Maranhão, lavrador misto de socialista e espírita e vegetariano que, tendo suas terras confiscadas pelo governo, adere à Coluna a fim de dar cabo das injustiças dos latifundiários de Codó, levando consigo uns cabras destemidos que, depois de lutar em várias partes do Nordeste, abandona os revoltosos e retorna à terra natal onde, de cabelo e barba crescidos, vira um místico, sebastianista “que acreditava na volta de ‘el rei’ para libertar seu povo”, arrastando uma cruz e construindo grandes asas, com penas de aves, para alçar voos pro infinito; Seu Geraldo, quitandeiro esperto e esquisito, simpatizante dos revoltosos, é personagem das mais interessantes da obra, pois homem culto que já lera, numa época que imperava o analfabetismo, mais de cinco livros, o que não evitou de ser dedurado pelo próprio irmão, Zé Mário, miliciano integralista dos camisas verdes, para enorme desgosto dele que, no final, escapole em busca do amor de Donana,  a Ana Cecília, mulher empreendedora e independente, fina nos costumes e capaz de entabular conversa agradável sobre Dumas, Victor Hugo, Balzac e Flaubert, escritores de sua preferência; gostei muito também de duas outras figuraças do enredo: Abdon, mascate libanês e aprendiz de mágico, adere à Coluna por causa de dívidas, morto na cruel batalha de Propriá; e João do Fato, magarefe matador de bodes, nunca aceitando ser chamado João Fuçura, meio amalucado que, vestido de terno de linho claro, faz discursos nas ruas profetizando a tomada do governo por Prestes, apesar do fim da Coluna nas matas da Bolívia, objetivando restituir a monarquia sob a tutela de Dom Pedro, numa aliança esdrúxula com os comunistas de Moscou; e, quando dei pelo tempo, concluída a leitura do instigante livro, o dia acordava anunciando um domingo ensolarado, eu grávido da certeza, agora confirmada, depois de já ter lido Terra do Fogo, sua estreia no texto de matriz ficcional, narrativa de fundo histórico sobre as queimadas criminosas em Teresina, em plena ditadura Vargas, que Edmar Oliveira, com seu Sitiado, desponta como romancista dos mais talentosos da contemporânea literatura piauiense, quiçá, também da literatura em língua portuguesa.

Ricaços num país de pobres

Embora não quisesse acreditar, a realidade era aquela estampada nos jornais. Dura e crua, indigesta mesmo: seis brasileiros mais ricos concentram a mesma riqueza que os 100 milhões de brasileiros mais pobres. As vísceras se revoltam no estômago. Perturbados, os olhos correm a vista pela matéria sucessivas vezes. Fica difícil acalmar o juízo, a indignação grita um sonoro e espontâneo palavrão – calhordas. Como entender que tão poucos, seis apenas, detenham tanto num Brasil de muitos que vivem à míngua? A sensação de que o fosso social só aumenta não é nada confortável, sobretudo, quando nossa elite se mostra cada dia mais egoísta e indiferente ao sofrimento da quase metade da população nacional, incluindo os atuais 12 milhões de desempregados. Mesmo se dizendo cristãos ou evangélicos, são incapazes de dividir, surdos à lição do Senhor, pães e peixes entre os demais irmãos, a exemplo do que fez Jesus Cristo.

Nas igrejas que frequentam, eles costumam repetir mecanicamente, esboçando gesto de sentida emoção, o trecho bíblico sobre a multiplicação de alimentos: “E, tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a relva, tomando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou. Depois, tendo partido os pães, deu-os aos discípulos, e estes, às multidões.” Questionados a respeito de tamanha riqueza, respondem sempre que é fruto de muito trabalho, jamais da esperteza e da exploração de seus semelhantes. Se os outros não conseguem ter uma vida melhor, ainda debocham, que haja paciência, longe da culpa ser deles, que passem a acordar mais cedo e batalhem sem trégua. Cínicos, ainda gozam por cima: “Deus ajuda a quem cedo madruga”.

Quanto aos 100 milhões de brasileiros, correspondente à riqueza total dos seis, que se contentem em sobreviver com as migalhas, dividindo solidariamente o que sobrou do farto banquete da burguesia econômica. Caso alguns se rebelem, ou tentem tomar à força, que sejam presos e trancafiados, mantidos apartados do convívio social. Assim, tomam consciência, desde cedo, do seu verdadeiro lugar dentro da sociedade excludente. Daí a importância do Estado no sentido de construir mais presídios e contratar mais agentes da lei. Afinal, como pensam  esses bilionários, os conflitos de classe devem ser resolvidos com severa intervenção policial. Contanto, que a bendita propriedade de suas riquezas permaneça inalterada e, de preferências, em “boas, poucas e sábias mãos”.

No fundo, os de cima sentem-se como os “escolhidos” da vontade divina, achando a concentração de renda e a exclusão social realidades mais do que naturais. Entretanto, aceitam de bom grado a ideia de um “céu” igualitário e fraterno, onde todos sejam irmãos e, sentados à mesa juntos, saboreiem os mesmos pães e peixes. De preferência lá em riba, é claro, porque aqui, no Brasil, a história é diferente, com a ganância impregnando suas medíocres almas. Cazuza já profetizava sabiamente, antes de partir, a sentença implacável: “a burguesia fede, enquanto houver burguesia não vai haver poesia”.

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