Revestrés

23/09/2017
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Victória Holanda

Fica, vai ter post!

Ohad Naharin ou It’s a long way

Contém spoilers

Eram 18h30 do último feriado quando vi uma postagem nas redes sociais anunciando a estreia de “Gaga – o amor pela dança”, documentário de Tomer Heymann sobre o coreógrafo israelense Ohad Naharin. Eu tinha 50 minutos para chegar ao cinema, já que o filme ficaria em cartaz em Teresina somente uma semana e apenas nas sessões de 19h20. Pulei da cama e dirigi até o cinema. Nas poltronas: 6 pessoas contando comigo.

Ohad Naharin é daqueles artistas que nos faz lembrar porquê que a gente dança. Um personagem: contatos, no mínimo, inusitados com Martha Graham e Maurice Béjart; caso amoroso com Mari Kajwara, que largou seu posto de primeira-bailarina à frente dos trabalhos do coreógrafo americano Alvin Ailey para casar com um desconhecido que tentava a vida em Nova York; aulas de balé ao lado de Rudolf Nureyev nas quais Naharin caiu de paraquedas e polêmicas à frente da Batsheva Dance Company, Ohad Naharin é soco no estômago, acalento no coração, é abraço na alma, é uma luzinha vermelha piscando.

É lembrar que dançar é entrega de si, é receber a entrega do outro, é resistir a essa entrega, é gostar de se entregar. É derreter na pele um calor, uma chama acesa, uma palpitação. É vontade de rasgar o peito todinho, de se esfregar no chão, de flutuar no ar. É suspeitar que um contato horizontal, pode ser mesmo muito vertical. É necessidade de extravasar e, mesmo assim, investigar seu íntimo lá no fundo pequeno sozinho. É chorar e sorrir com a certeza que fez a escolha certa.

 

É Caetano, It’s a long way. It’s a long, long, long, long way.

 

“E se não tivesse o amor

E se não tivesse essa dor

E se não tivesse o sofrer

E se não tivesse o chorar…”

 

(…) Nós não íamos dançar.

Nos sabermos sós sem estarmos sós

5 anos – quando eu era criança, frequentei uma creche a dois quarteirões de casa por alguns meses. Não queria que ninguém me levasse pelo braço: sabia que eu mesma poderia trilhar aquela jornada, carregar meus próprios livrinhos e minha lancheira do Batman herdada do meu irmão. A Edinês, funcionária lá de casa, ficava me observando do portão até ter certeza que eu tinha entrado e que não seria raptada. Então, todas as manhãs, eu seguia sem olhar para trás.

12 anos – eu era vizinha de dois colegas da minha turma na escola e, às vezes, pegava carona. Uma tarde em que teria atividade extra, minha mãe me mandou ir com eles. Por algum motivo entre desobedecer a uma ordem e se sentir independente, resolvi que iria de ônibus, sozinha. Peguei o caminho oposto e, antes que eu chegasse, ela me viu da janela, me deu um grito e me mandou subir. Eu ainda a desobedeceria muitas vezes e, na maior parte delas, eu estaria errada.

18 anos – dos quatro vestibulares que fiz nessa época, um deles era para o Rio de Janeiro. Decidi ficar. Não foi a primeira, mas com certeza não foi a última vez que decidi ficar ao invés de ir. Desde então e, por alguma razão que não a reconheço, tenho decidido ficar mais. Será que a coragem de estar sozinha foi embora sem mim?

24 anos – Estar sozinha deixou de ser escolha e virou condição. Se eu quiser pegar a estrada ou um avião, ninguém vai me gritar do 4º andar e me mandar voltar. Se eu quiser fazer uma tatuagem, está tudo bem, contanto que eu pague a internet, faça supermercado e bote gasolina. Se eu quiser jantar cerveja, quem se importa? O fato é que nunca foi tão bom, tão difícil e tão solitário estar só.

Eólico, sopro e tornado

Era uma noite chuvosa de domingo quando fui assistir Eólico no Sobrado. Era também o último dia desta temporada. Lá fora, no bar, alguns amigos compartilhavam conversas e cafés. Lá dentro, algumas outras pessoas se acomodavam nas cadeiras de praia. Ninguém parecia se lembrar da chuva, principalmente os que assistiriam à performance – um projeto independente que propõe criações em dança e é idealizado por Samuel Alvis e Ireno Júnior.

Assisti à versão eólico solo (existe a versão eólico des-dobrado) com Samuel Alvis. Dá pra dizer que Eólico é muita coisa, mas quero dizer apenas que é daqueles trabalhos gostosos de assistir. É daqueles que dá vontade de dançar, daqueles que dá vontade de voar, daqueles que dá vontade de se deixar levar feito pena, daqueles que dá vontade de enfrentar junto, que nem quando a gente está na estrada, viajando de carro, e coloca a mão pra fora pra sentir o peso que o vento tem.

EÓLICO - SAMUEL ALVÍS, foto- Adriano Abreu (1)

Foto: Adriano Abreu

Eólico tem peso. É motor que acelera e desacelera; freia bruscamente, freia lentamente, que repete, que desiste, que persevera, se derrete e se reconstrói – dinâmicas que são de movimento, de dança, de vida. Eólico é também aquele sussurro bom ao pé do ouvido, que dá ventinho na barriga, é variação de Dom Quixote abanando a vontade de fazer, é brisa que refresca a nuca, que faz balançar a saia. É sopro, furacão e tornado. Quantos km/h?

Eólico é que aquilo que tá no corpo porque tá na gente. Tá na gente porque tá no corpo. É sopro que teima, fôlego que acaba, suspiro que se cansa, todos obstinados a transformar, mas se esvaziam. Não sem antes mudar alguns poucos papeizinhos pelo espaço cheio deles: trabalho de formiguinha. São hélices que podem espalhar sonhos e desejos, mas juntas, em movimento e atravessadas colidem, definem pausas, esgotam-se. E depois, começa tudo de novo numa trajetória circular interminável.

Montaria

Ontem eu assisti Montaria. Na estreia, há alguns meses, vários amigos disseram que adoraram. Pensei: “que pena que perdi, deve ser bom mesmo”. Mas ontem eu percebi que não era sobre ser bom ou não, ser bonito ou não, ser bem executado ou não.

Eu conheci o Dackson Mikael há alguns anos. Nós éramos estudantes da Escola Estadual de Dança Lenir Argento. Talentoso, divertido, eu já sentia que ele era uma pessoa intensa. Anos depois, passamos na mesma audição para o Balé da Cidade de Teresina. Espontâneo, eu adorava rir das brincadeiras daquelas tardes. Em seguida, vi surgir a Chandelly Kidman: exuberante, versátil, ativista.

Eu sabia de todas essas qualidades e sabia também que iria encontrá-las em Montaria – elas estavam lá. Mas, o que eu não sabia que veria foi surpreendente. Em meio ao transe daquele ser, eu me peguei chorando, emocionada com o que aquilo alcançou em mim: era empatia.

montaria

 

Revolta, agressividade, vileza, hostilidade, rancor. Eu nunca sequer reparei em qualquer traço dessas características no Dackson – na maior parte do tempo doce – mas de maneira honesta, elas estavam lá, compreensivelmente presentes no corpo de quem sofreu preconceito, na pele de quem se arrisca a acompanhar a Marcha para Jesus montada ou corre o perigo de se machucar em uma de suas performances acrobáticas.

Montaria é corpo animalesco, bicho feroz acuado sofrendo. É questionamento dos padrões estéticos impostos. É descoberta de si. É enfrentamento contra o preconceito. É coragem de se redescobrir e se entregar extremamente. É a dignidade de expressar seu lado mais obscuro, porém com a serenidade de sabê-lo inerente ao ser-humano.

*Montaria foi contemplado no Prêmio Funarte Klauss Vianna de Dança 2014 e teve direção e colaboração de Elielson Pacheco e Adriano Abreu

O dia em que tudo ficou mais cinza

Eu estava prestes a sair do trabalho. O relógio marcava 13:34 e eu acessei a TV Senado. Encerrada a votação que se fazia no dia 31 de agosto, ouvi fogos de artifício na região. Da janela, o céu parecia azul, o sol tinindo. Mas quando cruzei a porta externa do prédio foi que eu enxerguei melhor: estava tudo mais cinza.

Foi o dia em que os adolescentes secundaristas tomando sorvete na esquina estavam mais cinzas, foi o dia em que a cor dos carros no trânsito parecia mais cinza, foi o dia em que os trabalhadores fardados da obra estavam mais cinzas, foi o dia em que eu não enxerguei verde ou vermelho no semáforo – estava cinza. Minha visão era de cachorro: estava tudo preto e branco, em tons de cinza.

Passei do cruzamento onde pararia para almoçar, estava tudo tão cinza. O ciclista parecia pedalar devagar, o pedestre caminhava em câmera lenta, os carros passavam a 20 km/h. Era um filme de stop motion. As nuvens estavam cinzas, o céu estava cinza, os pássaros voavam cinzentos.

No meu prédio, os gatos miavam, mas não como de costume. Não eram listrados, não eram amarelinhos, todos miavam mais, e cinzas. As plantas mal se mexiam com o vento, cristalizadas. Não eram verdes nem amareladas, estavam mais secas, estavam cinzas.

E tudo se tornou mais cinza, o que tinha cor ficou pálido, ficou cinza. O que era preto ficou cinza, o que era branco ficou cinza, o que era colorido ficou cinza. Não que tudo antes fosse multicolor e límpido, mas foi o dia em que tudo ficou mais cinza. Ao meu redor, mas também em todos os lugares. No centro e na cidade, em casa e na rua. São muitos tons de cinza, uma cartela inteira de cores cinzentas, tomando conta de tudo.

Era uma quarta-feira de cinzas.

“E no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar”

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