Revestrés

23/09/2017
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Luiz Alberto Mendes

O escritor

Um amigo me procurou. Rapaz novo, seus olhos brilhavam sobre o fundo vermelho. Parecia brilho antes da chama. Havia algo nele, senti. Afirmou que escrevia. Queria orientação acerca de como escrever e publicar um livro.

Descansava. Meus olhos ardiam de tanto escrever. Luzes se quebravam pelos degraus em que eu enxergava o mundo. Seu nome era Andy. Tinha 27 anos. Escrevia poesias, havia parado uma autobiografia. Mais um, pensei. Estava cansado de amigos que queriam escrever mas não possuem força de vontade para tal desiderato. Mas como nada vale, senão no que vale para os outros, dispensei-lhe a atenção que solicitava.

Vivo pedaços quebrados de esperança de encontrar pessoas que escrevam. Nossa experiência é única. Somos clandestinos. Um corpo ardente oculto por saias superpostas. A caça e os caçadores: os olhos da terra. Ninguém sabe o que vivemos e o que nos faz ser o que somos. De fora, é impossível saber. De dentro, como expressar? Hoje o espaço esta conquistado. Somos capazes, as editoras nos aceitam e o público se interessa. Podemos e sabemos, só nos falta dizer.

Lancetei a mente e passei a explicar ao rapaz o que achava necessário para escrever e publicar um livro. Acho que, antes de tudo, é preciso intimidade com os mares interiores. Necessário se faz uma longa e profunda reflexão. O que desejamos é realmente escrever? Depois estudar o já produzido. Bernard Shaw dizia que “escrever ou é fácil ou é impossível”. Enxergamos talento em nossas produções? Será a próxima pergunta. Respostas que só nós podemos nos dar. Se respondidas positivamente, então podemos seguir para a próxima fase. Escrever.

Escrever só se aprende escrevendo. Suor, angústia, ansiedade, dores de cabeça e nos olhos é o melhor e talvez o único método. Muita leitura, não mais como leitor diletante. Prazer de ler é preciso, mas observar o autor é fundamental. Entrar na mente do escritor é fogo que permeia o ar que vamos respirar. Silencioso e furtivo, nosso olhar se desloca pôr entre segredos e mistérios. Engolimos em seco o brilho do encantamento. Somos escritores, agora.

Determinação fecundará nosso cotidiano. Um livro é fruto de anos de tenacidade. Cada uma das trocentas palavras de cada linha ou página deve ser pensada e avaliada criteriosamente. A vontade, essa grandeza atrevida, grita no coração e respiramos forte. Às vezes até a cor das pedras que cobrem o chão tornam-se importantes. Deslizamos em óleos escorregadios, espessos, no fio dos sentidos.

Contei ao jovem que meu primeiro livro, “Memórias de um Sobrevivente”, eu o escrevi, palavra por palavra, três vezes. E ele tem 478 páginas, mas já teve o dobro disso. As palavras pareciam me apalpar, sensíveis. Em cada rescrita, revisei mais de uma vez. Da primeira escrita à publicação, demoraram treze anos. O livro ficou nove anos engavetado, aguardando interesse de publicação. É preciso inocular no coração gigabytes de paciência. Publicar um livro é sonho, pão que alimenta, noite alta e dia frio.

Meu terceiro livro foi duas vezes para a editora, Companhia das Letras, e voltou. Retornou pela terceira vez, dessa vez já aprovado, para estudo de sugestões da editora. Depois houve mais três revisões sistemáticas da editora, as provas e ainda voltou para minha aprovação. Só depois foi filmado e rodado nas prensas. Demorou quatro anos para sair a público, da concepção à livraria. Anos de trabalho duro. Às vezes dá até raiva do livro, o quanto escraviza.

Vivo de dicionários, gramáticas, computadores, canetas, papéis e outras armas negras. Meus olhos queimam no laptop, vermelhos. Estou branco por falta de sol e já me chamaram de louco pela minha obstinação. Mas já publiquei seis livros, estou com dois em duas editoras diferentes, terminando um terceiro e já com um outro em mente.

Nos meus olhos ardia a paixão pela arte de escrever. Estava entusiasmado, o livro mastigava minhas horas. Mostrara a resistência do coração como uma lâmpada acesa sob pesado céu cinzento. O jovem me olhava assim perplexo. Seus olhos me perguntavam: “tudo isso?” Eu lhe dera como presente a luta, espessa como mel mais saboroso, e ele se apavorara. Chegara todo pássaro e asas; saia podado, rastejando, inseto. Ele conhecia o valor, mas não queria saber do preço.

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Luiz Mendes

04/01/2017

Pensando

Ultimamente tenho lido bastante sobre as perspectivas do homem contemporâneo. A linha de raciocínio que seguem alguns dos pensadores contemporâneos, mais ilustres e respeitados, tem me deixado perplexo. O que eles constatam, e depois concluem, chega a ser estarrecedor. Mas foram também suas esperanças que me levaram a escrever agora. Acompanhem-me.

O sociólogo Max Weber e filósofos como Walter Benjamim, Adorno, Horkheimer e, particularmente, Herbert Marcuse (ideólogo da geração dos anos 60), foram unânimes ao afirmar seu pessimismo com relação ao homem contemporâneo e seu futuro. Dizem que há uma ordem econômica inexorável. Assim capitalista, legalista, fascista, burocrática, super poderosa que determina a vida das pessoas que nascem dentro desse mecanismo, e com força irresistível. O filme “Matrix” tem essa visão. Weber afirma que estão “determinando o destino do homem até que a ultima tonelada de carvão fóssil seja consumida”.

Falam em pessoas sem alma, sem coração, “especialistas sem espírito, sensualistas sem coração”. Quase zumbis, nulidades que julgam haver atingido um nível de desenvolvimento jamais sonhado pela espécie humana. Afirmam, categoricamente, esses pensadores, que o homem moderno, com sujeito (ser vivente capaz de resposta, julgamento e ação sobre o mundo), desapareceu, ironicamente,  “num cárcere de ferro”. Atacam o que chamam de pseudodemocracia, porque cognominam o povo de “homens-massa” e acham absurdo serem, eles pensadores, governados pela ignóbil massa majoritária. Isso os revolta.

Marcuse, membro do famoso Grupo de Frankfurt e um dos precursores da chamada Nova Esquerda, é mais radical ainda. Afirma que Marx e Freud se tornaram obsoletos. Que não há mais lutas de classes e que os conflitos e contradições psicológicos foram abolidos pelo Estado de administração total. As massas, segundo ele, não têm ego e nem id, suas almas carecem de uma tensão interior, assim como de dinamismo. Suas ideias, suas necessidades e até seus dramas e tragédias “não são deles mesmos”. Suas vidas interiores são inteiramente administradas (vide novelas, programas jornalísticos e policiais) para produzirem exatamente, apenas e unicamente, os desejos e ansiedades que os sistemas de governo podem satisfazer.

Caso nos dermos ao trabalho de pesquisar as técnicas de marketing, merchandise ou publicidade subliminar, ensinadas nas escolas de propaganda, poderemos constatar. Herbert Marcuse diz ainda que “o povo se auto-realiza em seu conforto; encontra sua alma em seus automóveis, seus aparelhos de som, suas casa, suas cozinhas super pesquisadas”. Ele e os demais pensadores citados julgam, e que muito me espanta, que a modernidade é constituída por máquinas, das quais o homem moderno não passa de uma reprodução mecânica. O mais difícil de engolir é que eles proclamam que nenhuma mudança é possível. Porque, esse povo que se pretende mudar, nem vivo está para ser mudado.

O mais incrível ainda é que o único caminho que eles enxergam é uma pesquisa, que eles classificam como de vanguarda, com aqueles que o sistema chama de proscritos, “fora” da sociedade contemporânea. Os perseguidos; os inempregáveis; marginais; prostitutas; mendigos, moradores de rua, grupos que vivem isolados em guetos e prisões. Eles os consideram não tocados pelo “beijo da modernidade”, porque não se ajustaram às peças da engrenagem social.

Sociólogos e psicólogos, como Erich Fromm e Konrad Lorenz, expressam suas últimas esperanças na rebelião do ser humano contra a desumanização que nos é imposta pela cultura e modernidade social. Percebem essa esperança nas neuroses que aparecem nos habitantes das grandes cidades. As toxicomanias; doenças mentais; psicopatias, psicoses, sociopatias, loucuras e criminalidades diversas. Acreditam que esses sintomas demonstram que o homem ainda luta contra sua desumanização. Consideram que os tidos como “normais”, “sãos”, assim o são porque a voz do ser humano neles morreu.

Não é muito louco o que eles dizem? Se fosse dito por qualquer outro grupo de pessoas, nem receberia atenção. Mas afirmado, assim tão categoricamente, por tais cabeças pensantes, tidos e havidos como o supra sumo da inteligência da segunda metade do século passado, é para se pensar, ou não?

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Luiz Mendes

21/12/2016.

 

Realização

Há alguns anos, li uma poesia que me impressionou deveras. De alguma forma, sua mensagem falou por dentro das duras paredes que me cercavam. A alma, larga, avançou como um raio de prata. Dizia que passamos pelas ruas e não enxergávamos uma gota de orvalho que escorregava por uma folha de amoreira.

Queria dizer que vivíamos qual tivéssemos um tapa-olhos, como o dos cavalos, que nos impedia de olhar para os lados. Seguimos apressados, olhando para frente, sem nos determos para contemplar as possíveis belezas que nos franqueiam. Deste modo perdemos grande parte da vida. Se tivéssemos observado aquela gota, perceberíamos que o sol, ao tocá-la delicadamente, prismava suas cores qual um diamante natural.

Aquilo me ensinou que devemos estar atentos a tudo que nos cerca. Claro, perdemos parte do que acontece pela limitação de nossos sentidos, mas, ainda assim, perceberemos uma boa parcela. A riqueza e a motivação de nossas vidas só tem a ver com o tamanho de nossa percepção do que nos cerca.

Em tudo há belezas a serem descobertas. Qual a gota observada na folha, tudo tem algo de belo a ser colhido. Depende de nossa disposição de encontrar. As cores ganham uma intensidade jamais vista. Delicadas, as coisas se revestem de uma vitalidade inusitada. Dará a todas as coisas o complemento de beleza que faltava. E assim, a vida será verdadeiramente agradável aos nossos sentidos, agora enriquecidos. O que pode haver de belo ou de significativo a ser observado em uma prisão, além de grades, muralhas, guardas armados e presos? Mesmo assim, é preciso procurar, para sobreviver à ignorância circundante. Até uma aranha pode ser bela em seu movimento existencial.

Em outra oportunidade, escutei uma historinha que, como a anterior, definiu-se como profunda lição de vida. Um mestre de Zen Budismo estava reunido com um de seus discípulos na sala de chá. O aluno perguntava, insistentemente:

– O que é Zen, o que é Zen, Mestre?

O professor, silencioso, apanhou o bule de chá, cercado de todo ritual que consiste aquela atitude para o oriental. E, com a alma ali presente, serviu o afoito rapaz, na quantia exata que a tradição recomendava. Voltou com o bule e colocou sobre a mesa, virado para o sol, com enorme suavidade. Completado o ato, sentou-se calado.

O discípulo continuou perguntando, sem se dar conta que a pergunta já estava respondida. O mestre guardou-se em seu silêncio de jade. Zen é perfeccionismo. Fazer o que tem que ser feito com o máximo de perfeição que se é capaz. Não importa o que. Varrer uma sala, por exemplo. É uma realização em si, varrê-la corretamente. Durante um tempo, fiz faxina em uma galeria enorme da prisão. Era preciso varrer e passar o pano molhado no corredor de mais ou menos 60 x 15 metros. No começo foi difícil. Mas, conforme fui desenvolvendo a técnica de fazer rápido e bem feito, juntava até platéia de guardas e presos para me ver fazer o meu trabalho. A sincronia e o ritmo eram determinantes. Tudo tem um significado em si. Nos toca procurar e encontrar.

Este é o segredo da motivação de viver. Não existe uma motivação em especial, viver em si é o motivo. Todo ato, todo pensamento traz em si significado de existência daquele instante crucial. O ontem já passou, o amanhã acontecerá, com ou sem cada um de nós. O que existe de verdade é o agora, vibrante de oportunidades. Não é ainda realização. É satisfação. Há uma satisfação pessoal em fazer bem feito.

Em tese, está tudo esta em nossas mãos. É preciso apenas estar atento ao que nos cerca e buscar fazer tudo completamente envolvidos no que fazemos para que nos realizemos em nossas existências.

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Luiz Mendes

14/12/2016.

Relacionamentos

Nada do que vivi era falso porque sempre me levou a constantes aprendizados. Por eu haver ficado mais de 30 anos preso, se pode pensar que nada sei sobre relacionamento humano. Enganam-se profundamente. Na prisão também somos humanos e, como não poderia deixar de ser, nos relacionamos. E a questão do relacionamento na prisão é delicadíssima; a vida depende, muitas vezes, das relações que conquistamos. Vivi grandes emoções com pessoas incríveis que estavam presas. Amei, fui amado e, mesmo preso, tive meus momentos felizes. A fluidez e a liquidez do atual relacionamento humano tem sido o meu maior problema.

Acredito, sinceramente, que vivemos a protagonizar o que não somos porque não temos coragem e nem habilidade para viver o que somos de verdade. O mundo de relações é complicado. Entendo um pouco porque Platão não queria poetas em sua República. Assim como cabelos brancos pode disfarçar os canalhas, a poesia pode mascarar a verdade. Mais da metade dos pais, a estatística mostra, são alcoólatras. Ser pai ou mãe não torna o homem ou a mulher diferente do que é. Família não é o que se representa para os outros e sim o que se vive no dia a dia. E esta, praticamente, tal como é idealizada, não existe mais. A não ser nos anseios e na mente das pessoas. Há muito o lar deixou de ser o melhor lugar do mundo para a criação e desenvolvimento de gente. Se é que um dia chegou a ser.

Hoje é a televisão e o vídeo quem educam nossos filhos. Lá estão eles: olhos redondos de curiosidade, alegria pela surpresa de cada novo conhecimento e prazer na exploração de seu espaço/tempo. Somos transformados em seres sociais. Politicamente corretos, normopatas, como querem os psicanalistas. Delineamos espaços e ali fazemos nosso tempo. Nos limitamos e nos voltamos cada vez mais para o individualismo prático, sem ideologias. Compartimentamos sonhos, calculamos prazeres, ficamos incoerentes na base de nosso pensar e, principalmente, não temos mais curiosidade. Nos ensinaram a temer surpresas.

Para mim fica tudo muito claro. Reingressei recente ao meio social, atento a tudo para fazer o mais certo possível. Muito jovem, atirei-me à devoção daqueles que amei. Depois fui aprendendo que relacionamento é esforço contínuo e que é de fragilidades que se constroem fortalezas. Sei que todos somos profundamente carentes de afeto, consideração e respeito. As minhas carências sempre foram infinitas. Às vezes ultrapassavam minha capacidade de suportar. Mas sentir a importância que tinha para aqueles que me amavam, era luz que lavava a alma de brilho e calor. Enquanto conseguia essa importância, nada mais importava, nem a dor ou a morte. Mas nada é como é para sempre, tudo foi se transformando independente de minha vontade. A vida é uma grande ultrapassagem. Esta é uma lição das mais difíceis que ainda estou tentando assimilar.

Tudo fica mais difícil ainda porque esta tudo diante de nossos olhos. Enxergamos e sentimos, mas não verbalizamos, nem para nós mesmos. O pragmatismo ocidental vem usando métodos pavlovianos há décadas para nos convencer que o caminho é a acumulação econômica a qualquer preço. Através métodos sofisticados, usam o conhecimento acumulado acerca da psique humana para estimulara o consumo.

O que pensar? Relacionamentos, assumimos, fazem parte da vida produtiva que todos queremos. Há quem julgue em contrário. Gostaria de conhecer seus argumentos; devem ser bem interessantes. A partir de assumir que é fundamental o relacionamento para o desenvolvimento sadio da pessoa humana, é preciso assumir também que não sabemos quase nada sobre isso. Nos relacionamos mal e porcamente. Somos, na verdade, medrosos, mentirosos e nem um pouco amorosos. Tratamos os outros como somos tratados, não acrescentamos nada. Ninguém diz tudo o que faz e nem faz tudo o que diz. Conversamos desconversando de modo a estarmos ausentes, porque nada importa além de nós mesmos e nossos problemas. Nós temos problemas; os outros, bem, não importa.

Não tenho uma solução. Apenas posso afirmar por experiência, que o amor não é o principal elemento no sucesso das relações. Ele não se basta e carece de bases seguras para vicejar. Acredito, sinceramente, que a plataforma mais segura para desenvolver sentimentos e, portanto relações, é o respeito.

Composto por Luiz Alberto Mendes em 03/07/2006.

 

Vidas perdidas

Numa dessas tardes em que o sol, cansado de pintar os telhados de amarelo, se infiltrava por entre os edifícios, esparramando sua luminosidade pelas calçadas, eu costurava o tempo com assobios ao vento. Subia uma rua do bairro de Pinheiros, ao encontro de dois cineastas que queriam comprar os direitos de filmagens de meu primeiro livro. Estava cheio de grilos quanto ao contrato, mas cheio de esperanças e até feliz.

De repente, não mais que de repente, como diria o poeta, fui parado pelo choque. A vida, sempre atrasada para encontros vazios, chegava atropelando pela violência da grande metrópole. Cheiro de pólvora queimava as narinas adocicadamente. No chão um jovem de cerca de 20 anos, baleado. O sangue escorria por baixo de seu corpo. Policiais o rodeavam de armas embaladas nas mãos, qual fosse possível reação da vítima, talvez já morta.

Pessoas aglomeravam em torno, de olhar ansiosos. Não entendo bem essa necessidade de ver a desgraça alheia. Mas há algo que atrai fortemente e, mesmo eu que critico, sinto esse magnetismo. Em caso de aglomerações, tenho que lutar dentro de mim para não ir olhar o que aconteceu, curioso também. Às vezes cedo, paro, observo e escuto tudo o que se pode saber, como no caso em questão. O comentário é que ali, jazente, estava um bandido. Ocorrera um assalto. A polícia intervira. Tiroteio e aquele jovem ali restava mortalmente ferido. Alguns diziam que deviam matá-lo de uma vez. Ninguém lhe tinha compaixão por estar morrendo ali, jogado a sangrar na calçada.

Fiquei olhando, ouvindo e fui acometido por profunda compaixão. Todos ali me sabiam a vítimas. Vítimas da violência, essa praga a flagelar a humanidade. O jovem que sofria, mesmo ali inconsciente no chão, aguardava o SAMU. Os policiais, em sua triste profissão de proteger, prender, ou matar; salivando, excitados pelo sangue escorrendo ali na rua. O povo, sedento de emoções violentas por conta da rotina esmagadora de suas vidas, olhava de olhos arregalados. Eu continuei ali pregado ao chão, murcho, vazio, sem conseguir me afastar daquela desgraça toda.

Às vezes, a liberdade, após tantos anos na prisão, é o mesmo que uma pessoa que sabe que vai morrer. A vida assume uma gravidade que pulsa envolta em escuro e fumaça. Tudo fica elástico como sustenidos e plástico como bemóis. Duras lembranças de cruéis passados ficam como ventos desorientados a voar borboletas.

Ao tempo em que os nós da ignorância, são aos poucos desatados, o sofrimento humano fica próximo, cada vez mais próximo. As cores, de tão vivas, explodem na cara como relâmpagos e dominam os olhos a ponto de não conseguir fechá-los. Toda palavra trava na garganta. Às vezes, como nesse encontro com a morte na rua, sou apenas um homem que quer chorar, sem explicações.

Sempre desejei viver na ponta da existência. Busquei desenvolver um sentir central das coisas e, nessas ocasiões, ruídos inaudíveis me remetiam ao impensável. Continuei andando, agora mais solidamente, perdendo-me entre vitrines e carros que quase me atropelavam. Como é dolorido tudo isso! Tudo deixa de acontecer lá fora e parece que é dentro de mim que acontece! Sobreviverá o jovem ferido: já não estará morto? A multidão, conseguirá ultrapassar a curiosidade mórbida e chegar à sensibilidade? E eu, quando deixarei de pensar, imaginar e passarei a viver? E, o que isso importa diante daquele corpo estendido no chão?

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Luiz Mendes

22/10/2016.

 

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