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1 “Vocês tem uma história tão bonita. Devia respeitar”.

Todo mundo tem um passado. Mas a gente há de convir que nem sempre é fácil fazer as pazes com esse passado, certo? Respeito é uma via de mão dupla – você dá, você recebe. Você colhe, você planta. Como tudo na vida, para quem acredita na lei do retorno. Eu tinha muito respeito e admiração pela minha história. Mas quando isso deixou de fazer sentido pro outro, e quando tantas mágoas vieram em forma de atitudes, eu tive que abrir mão também desse zelo que aparentemente só eu tinha. Dessa coisa do intocável. Preservar uma história para que? Cultivar essa memória pra sofrer? Respeito é atitude, não é falácia. Uma história construída a dois não faz sentido ser respeitada só por um.

2  “Vocês sempre foram tão amigos”.

É isso aí: fomos. Do verbo “não somos mais”. Eu fui amiga, eu fui namorada, eu fui noiva – não me interessa voltar algumas casas, por inúmeras razões. Amizade pra mim é dedicação. É escolha. É se importar. Eu conto nos dedos (de uma mão só), a quantidade de amigos – amigos mesmo – que eu sei que posso contar nos momentos mais improváveis da minha vida. De novembro para cá eu tenho colecionado muitos momentos assim, viu. Só ficou quem mereceu. Quem segurou a barra comigo. Quem conseguiu abrir mão de algo que julgava importante pra se dedicar ao outro, do jeito que pode, do modo que conseguiu, do jeito que eu faço e acho que mereço. Se você reparar, há uma pressão social velada para que você – principalmente mulher – aceite todas as decepções que vem no bolo do fim de uma relação em nome “do bem estar coletivo”, da “boa convivência” – ou seja, em nome de manter uma aparência. Não, muito obrigada. Não estou disposta.

3 “Mas não houve traição”.

Defina traição no seu dicionário. Você já viu aquele vídeo da Jout Jout explicando um relacionamento aberto? Ela fala que o conceito de traição é estabelecido entre o casal. Por exemplo, para ela e Caio beijar na boca de outra pessoa não era considerado traição – mas assistir Netflix de conchinha com outra pessoa era traição em alto grau. É bem isso. Não precisa ter beijo, ter sexo, ter uma amante para que configure traição. Alguém traiu nosso plano de vida em comum. Traiu minha confiança, traiu meu sentimento (“Destroi os planos que um dia eu fiz pra mim”, etc). Tem um livro que uma amiga me deu, “A coragem de ser imperfeito”, que foi um choque, uma revelação para mim. Uma parte que fala de um tipo de traição silenciosa e perigosa, que pode desencadear um processo de loucura: a traição do descompromisso. Toda vez que você decidir ignorar um problema na relação para lhe poupar de algum transtorno, além de egoísta, pode estar certo de que você está sendo um traidor.

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4 “Tá tudo muito recente, uma hora tudo isso passa”.

Olha, pode ser. Eu não garantiria. Até porque, não sei prever por quanto tempo essa mágoa que se instalou vai ficar. Você acha que não sei que tudo é efêmero? Você viu por quantas noites eu chorei ou estava aqui quando vi meu chão desabar e a vida perder completamente o sentido? Se tem uma pessoa interessada em que o tempo passe e cure tudo, pode estar certa de que  essa pessoa sou eu. Mas enquanto não posso acelerar o relógio, o jeito é juntar meus caquinhos e ir vivendo para ver o que que tem mais adiante.

5 “Esse comportamento só demonstra sua imaturidade”.

Desculpa, mas eu só sei sentir. Eu sinto tudo. Tô nesse processo de parar de sentimentalizar, mas é uma coisa muito difícil de se fazer. Eu sinto fome, eu sinto pena, eu sinto amor, eu sinto raiva, eu sinto medo, eu sinto vergonha, eu sinto gratidão, eu sinto ódio e admiração. Muitas vezes o meu jeito de lidar com essa quantidade absurda de sentimentos que me atravessa pode ser torto e por isso ser confundido com imaturidade. Eu não me importo, assumo isso. Sou uma criança, não entendo nada.

6 “Você devia perdoar. Rancor não faz bem a ninguém”.

Primeira coisa: a gente perdoa quem pede perdão. A premissa básica do perdão é o arrependimento. É a franqueza. E por isso é tão difícil, você tem que estar disposto a assumir sua fragilidade. Segundo, eu não sei se é o caso de perdoar. Acho que ninguém tem obrigação de ficar com ninguém para sempre. Mas temos, sim, obrigação de ser francos. Obrigação de abrir o jogo, de dizer a verdade, de deixar que o outro siga a vida sem carregar uma culpa, procurando os motivos, as razões, as respostas. Não espere que o outro perceba os seus sinais, não seja essa pessoa. É a desonestidade com os sentimentos que fica muito difícil de perdoar. No mais, Arnaldo Antunes responde por mim: a dor é minha, a dor é de quem tem.

7 “Você é ingrata, veja o tanto que ele te ajudou a crescer”.

É verdade. Ajudou muito, seria injusto negar. Sobretudo depois do fim. É como minha psicóloga diz: talvez eu não merecesse passar por tudo que passei, mas talvez tenha sido necessário. Eu nunca estive tão certa de que sou mais forte agora. Tem uma música do Caetano, chamada “Eu não me arrependo de você”. Eu escuto repetidamente. “Vi você crescer. Fiz você crescer. Vi cê me fazer crescer também pra além de mim”. Até aí, tô contigo, Caê. Adoro a perspectiva otimista dos rompimentos. “Vejo essas novas pessoas que nós engendramos em nós”. Migo, me ajuda a te ajudar. Aí cê me arrebenta porque eu não faço a menor ideia de quem é essa pessoa com quem dividi anos da minha vida. Sinto saudade de alguém, alguém que não existe mais. Essa nova pessoa eu não sei quem é. Pra ser honesta, eu não tenho nem certeza de quem sou. Porém, estou plenamente convencida de que, seja lá quem me tornei, hoje sou alguém melhor.