Há um ano dói todo dia.

Desculpa decepcionar você que veio até esse texto esperando uma história com final feliz ou de superação. Não vai rolar. Ao menos, não por hoje. Acho que é preciso esclarecer que a minha escrita vem da dor. E isso não é um problema para mim. Não que eu tenha virado um poço de sofrência. Mas escrever é elaborar, é terapêutico. Foi a forma que eu encontrei de entender melhor as coisas.

No dia 17 de novembro do ano passado eu saí de casa. Não lembro que dia da semana era mas eu tinha virado a noite chorando sozinha naquilo que só depois eu entenderia ser uma das muitas crises de ansiedade que eu tive. Eu completava 30 dias na solidão daquele apartamento, que já nem tinha nada de mim e que, na teoria, eu dividia com um “noivo”.

Eu fui, fui embora sim. Eu estava magoada, desamparada, fragilizada, sozinha numa relação onde eu não era mais nem considerada – minhas opiniões, como eu me sentia a respeito dos fatos e dos acontecimentos era absurdamente irrelevante. Eu era desrespeitada, desmoralizada. Mas nada disso doeu mais do que o momento em que eu constatei o que tava tão na cara: eu não era mais amada.

Aí eu fui, né. Não sabia muito bem pra onde nem porquê, mas eu sentia que alguma coisa eu tinha que fazer. E quando ele voltou pra casa, o meu “noivo”, eu não estava lá e nada mais foi como antes, porque já não era. Depois desse episódio eu fiz uma tentativa estúpida e vergonhosa de retorno. Não tinha mais link, não dava liga. Tava tudo incrivelmente acabado e eu só não sabia o que fazer com todo aquele amor.

Nos dias que se seguiram eu parecia viver uma vida que não era minha. Estava tudo meio fora do lugar e levou muitas semanas até a ficha cair. De cabeça agora eu lembro da vez que nos encontramos pra jantar e decidir sobre nossos rumos e a conversa foi se estendendo e ficando boa – ele só falava dele, mas eu gostava de ouvir – e a gente foi parar sentado na calçada de um bar fechado dividindo os bens – aquela frigideira que ninguém nunca usou, o sofá, a cama de casal – talvez você precise mais dela agora do que eu. Foi tudo muito racional e eu lembro que eu não queria ir embora – às vezes eu sou meio Joel, do Brilho Eterno, tentando me esconder em uma lembrança humilhante – mas eu fui. E nossos carros se encontraram no sinal fechado e não abri o vidro. Eu estava em cacos.

Nesse dia eu cheguei em casa sem respirar.

Essa sensação de quase morte se repetiria tanto, em tantas noites, que foi ficando comum. Era rotina trocar a noite pelo dia, ficar sem comer enquanto abdicava da vontade louca de ir contar a ele uma novidade, de ir pedir uma ajuda. E agora, o que fazer do meu amor? Eu me perguntava como era possível dessincronizar assim tão de repente, mesmo sabendo que não foi de repente. O fim do ano passado foi o pior e melhor fim de ano da minha vida. Eu me sentia em estilhaços, mas calorosamente acolhida e amada pelos meus amigos, que não deixaram eu ficar com a memória de um reveillón na fossa.

No dia 1º de janeiro, a primeira mensagem que li no celular foi dele: “Feliz ano novo, Lu”. Foi o começo da última conversa, as últimas palavras sem nenhum propósito. Eu fui absolutamente cruel e praguejei coisas desnecessárias. A vida seguia para ele mais depressa que pra mim e eu tava muito magoada pra entender que eu não tinha o que fazer quanto a isso. Era hora de cuidar de mim.

O ano só foi começar de fato em março, quando fui a Fortaleza fazer um concurso, caminhar na praia, me distanciar. Acabei voltando com o telefonema de um trabalho: eu tinha passado numa seleção que fiz numa manhã meio dopada, depois de exagerar na dose de remédios pra dormir. Aquela vaga acabou me botando de volta nos trilhos, foi a chance que eu tive de tentar trazer a vida pro lugar e eu agarrei com o restinho de coragem que havia me restado.

Não me perguntem de onde, no meio de tudo isso, eu tirei força pra terminar o meu mestrado. No fim do ano, em meio a depressão, separação, mudança, eu havia prorrogado o prazo mas agora era chegada a hora de voltar a escrever. Ajudou pensar na importância do que tinha que ser feito, e mesmo com todas as fragilidades, os perrengues, a vontade de morrer que eu tinha todo santo dia, eu fui lá e fiz. Minha terapeuta se emociona sempre que recapitulamos essa fase.

Ali pelo fim do primeiro semestre eu estava radiante. Era o meu melhor momento. Eu me sentia linda, leve, no auge. Eu tinha dois empregos onde eu era querida e valorizada. Arrumei um crush inteligente com quem era gostoso conversar – ele esteve comigo na véspera e no dia da defesa. Ai eu dei uma festa cujo slogan dizia tudo sobre o meu momento: “volte a brilhar”. Fazia muito sentido celebrar tudo aquilo naquele instante, que pena que foi tão efêmero.

Em um ano cabe tanta coisa, inclusive ser feliz. Eu me ocupei a maior parte do tempo, conheci pessoas novas e driblei coisas que me faziam mal, mesmo que isso tenha significado me afastar de gente que eu gostava verdadeiramente. Eu precisava parar de sofrer. Faz um ano e até hoje eu esbarro na rua com gente que pergunta “mas por que?”, e eu não sei dizer. Lembro do desespero que eu tinha de saber exatamente quando o amor acabou. Eu queria também poder respirar aliviada e estar pronta pra seguir em frente com convicção – porque até então, apesar deu ter ido embora (e me arrependo de não ter feito isso antes) simbolicamente ele já tinha ido. Ele já tinha ido há muito tempo.

Às vezes eu consigo sentir de novo o cheiro que tinha a nossa casa. Diariamente eu tropeço na ausência de alguma coisa que eu tinha e deixei pra trás – parece tudo fragmento de um passado tão distante que é quase uma outra vida. Quando a gente vai embora e bate a porta é tudo imensamente triste – é um mar de planos incompletos, de sonhos interrompidos, de expectativas arruinadas e eu nem sei dizer o que é que dói mais – talvez a soma disso tudo. Leva um tempo pra se saber só e ser feliz de novo – ajuda não se cobrar tanto para que passe rápido. Vão ter dias melhores, outros piores, mas vai levar o tempo que for preciso. E, em qualquer lugar do mundo, quando você fechar os olhos e não conseguir mais ver aquele rosto, vai ser bom, mas vai doer. Vai doer sim.