Revestrés

24/11/2017
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Luana Sena

Amar e escrever à máquina

Love is a losing game

Há um ano dói todo dia.

Desculpa decepcionar você que veio até esse texto esperando uma história com final feliz ou de superação. Não vai rolar. Ao menos, não por hoje. Acho que é preciso esclarecer que a minha escrita vem da dor. E isso não é um problema para mim. Não que eu tenha virado um poço de sofrência. Mas escrever é elaborar, é terapêutico. Foi a forma que eu encontrei de entender melhor as coisas.

No dia 17 de novembro do ano passado eu saí de casa. Não lembro que dia da semana era mas eu tinha virado a noite chorando sozinha naquilo que só depois eu entenderia ser uma das muitas crises de ansiedade que eu tive. Eu completava 30 dias na solidão daquele apartamento, que já nem tinha nada de mim e que, na teoria, eu dividia com um “noivo”.

Eu fui, fui embora sim. Eu estava magoada, desamparada, fragilizada, sozinha numa relação onde eu não era mais nem considerada – minhas opiniões, como eu me sentia a respeito dos fatos e dos acontecimentos era absurdamente irrelevante. Eu era desrespeitada, desmoralizada. Mas nada disso doeu mais do que o momento em que eu constatei o que tava tão na cara: eu não era mais amada.

Aí eu fui, né. Não sabia muito bem pra onde nem porquê, mas eu sentia que alguma coisa eu tinha que fazer. E quando ele voltou pra casa, o meu “noivo”, eu não estava lá e nada mais foi como antes, porque já não era. Depois desse episódio eu fiz uma tentativa estúpida e vergonhosa de retorno. Não tinha mais link, não dava liga. Tava tudo incrivelmente acabado e eu só não sabia o que fazer com todo aquele amor.

Nos dias que se seguiram eu parecia viver uma vida que não era minha. Estava tudo meio fora do lugar e levou muitas semanas até a ficha cair. De cabeça agora eu lembro da vez que nos encontramos pra jantar e decidir sobre nossos rumos e a conversa foi se estendendo e ficando boa – ele só falava dele, mas eu gostava de ouvir – e a gente foi parar sentado na calçada de um bar fechado dividindo os bens – aquela frigideira que ninguém nunca usou, o sofá, a cama de casal – talvez você precise mais dela agora do que eu. Foi tudo muito racional e eu lembro que eu não queria ir embora – às vezes eu sou meio Joel, do Brilho Eterno, tentando me esconder em uma lembrança humilhante – mas eu fui. E nossos carros se encontraram no sinal fechado e não abri o vidro. Eu estava em cacos.

Nesse dia eu cheguei em casa sem respirar.

Essa sensação de quase morte se repetiria tanto, em tantas noites, que foi ficando comum. Era rotina trocar a noite pelo dia, ficar sem comer enquanto abdicava da vontade louca de ir contar a ele uma novidade, de ir pedir uma ajuda. E agora, o que fazer do meu amor? Eu me perguntava como era possível dessincronizar assim tão de repente, mesmo sabendo que não foi de repente. O fim do ano passado foi o pior e melhor fim de ano da minha vida. Eu me sentia em estilhaços, mas calorosamente acolhida e amada pelos meus amigos, que não deixaram eu ficar com a memória de um reveillón na fossa.

No dia 1º de janeiro, a primeira mensagem que li no celular foi dele: “Feliz ano novo, Lu”. Foi o começo da última conversa, as últimas palavras sem nenhum propósito. Eu fui absolutamente cruel e praguejei coisas desnecessárias. A vida seguia para ele mais depressa que pra mim e eu tava muito magoada pra entender que eu não tinha o que fazer quanto a isso. Era hora de cuidar de mim.

O ano só foi começar de fato em março, quando fui a Fortaleza fazer um concurso, caminhar na praia, me distanciar. Acabei voltando com o telefonema de um trabalho: eu tinha passado numa seleção que fiz numa manhã meio dopada, depois de exagerar na dose de remédios pra dormir. Aquela vaga acabou me botando de volta nos trilhos, foi a chance que eu tive de tentar trazer a vida pro lugar e eu agarrei com o restinho de coragem que havia me restado.

Não me perguntem de onde, no meio de tudo isso, eu tirei força pra terminar o meu mestrado. No fim do ano, em meio a depressão, separação, mudança, eu havia prorrogado o prazo mas agora era chegada a hora de voltar a escrever. Ajudou pensar na importância do que tinha que ser feito, e mesmo com todas as fragilidades, os perrengues, a vontade de morrer que eu tinha todo santo dia, eu fui lá e fiz. Minha terapeuta se emociona sempre que recapitulamos essa fase.

Ali pelo fim do primeiro semestre eu estava radiante. Era o meu melhor momento. Eu me sentia linda, leve, no auge. Eu tinha dois empregos onde eu era querida e valorizada. Arrumei um crush inteligente com quem era gostoso conversar – ele esteve comigo na véspera e no dia da defesa. Ai eu dei uma festa cujo slogan dizia tudo sobre o meu momento: “volte a brilhar”. Fazia muito sentido celebrar tudo aquilo naquele instante, que pena que foi tão efêmero.

Em um ano cabe tanta coisa, inclusive ser feliz. Eu me ocupei a maior parte do tempo, conheci pessoas novas e driblei coisas que me faziam mal, mesmo que isso tenha significado me afastar de gente que eu gostava verdadeiramente. Eu precisava parar de sofrer. Faz um ano e até hoje eu esbarro na rua com gente que pergunta “mas por que?”, e eu não sei dizer. Lembro do desespero que eu tinha de saber exatamente quando o amor acabou. Eu queria também poder respirar aliviada e estar pronta pra seguir em frente com convicção – porque até então, apesar deu ter ido embora (e me arrependo de não ter feito isso antes) simbolicamente ele já tinha ido. Ele já tinha ido há muito tempo.

Às vezes eu consigo sentir de novo o cheiro que tinha a nossa casa. Diariamente eu tropeço na ausência de alguma coisa que eu tinha e deixei pra trás – parece tudo fragmento de um passado tão distante que é quase uma outra vida. Quando a gente vai embora e bate a porta é tudo imensamente triste – é um mar de planos incompletos, de sonhos interrompidos, de expectativas arruinadas e eu nem sei dizer o que é que dói mais – talvez a soma disso tudo. Leva um tempo pra se saber só e ser feliz de novo – ajuda não se cobrar tanto para que passe rápido. Vão ter dias melhores, outros piores, mas vai levar o tempo que for preciso. E, em qualquer lugar do mundo, quando você fechar os olhos e não conseguir mais ver aquele rosto, vai ser bom, mas vai doer. Vai doer sim.

A vida é oca como a touca de um bebê sem cabeça

querida Camila,

já reparou que quando a gente acorda, todo dia, a gente tem a possibilidade de começar tudo de novo, de levantar tudo do zero, de, sei lá, ser outra pessoa se a gente quiser. É como se toda noite fosse réveillon – só que me parece que a gente amanhece sempre de ressaca, sobretudo na segunda-feira.

eu tava me lembrando dos dias que passamos só existindo. que bom que a gente sabe guiar um carro, que bom que inventaram o fast food, e que sorte a nossa existir carro (que não é nosso) e dinheiro (que até pode ser) ao mesmo tempo juntos para ir no fast food. você sabe o que eu vi na rua dia desses? um drive thru na farmácia. pra mim foi um tiro no peito, foi o fundo do poço – não estamos mais nem disfarçando o quanto somos uma sociedade doente, que acha que comprimidos podem nos levar em frente. é aspirina na janela, baby.

a gente vai morrer de qualquer jeito, não tem muito o que pirar. mas entre chegar e partir tem um intervalo de paisagens e encontros bonitos, que as vezes a gente quer ver, noutras nem tanto – e nem todas são belas, também. da tempo de recomeçar, tem espaço pra ser o que a gente quiser mesmo que não se tenha pretensão de ser nada.

estou mesmo cada vez mais convencida de que tudo o que a gente pode fazer é mudar a maneira como recebemos e sentimos as coisas. o outro, ah, o outro, camila… ele não tá a nosso alcance. ele é aquela imagem do horizonte distante que parece ao mesmo tempo tão perto. é estranho e até injusto que a gente precise tanto dele pra se definir – é sempre tão melhor as coisas que podemos controlar. os sentimentos, as crises, a dúvida, a angústia. queria poder não dar margem a imprecisão. “que eu seja leve”, pedi a uma pedra mágica que segue sendo peso de papel.

eu sei que te dói a quantidade de gente mal e você olhando do alto da sua própria dor de existir e pensando que queria salvar todo mundo. eu te vejo num bote baqueado e vc querendo resgatar a tripulação do titanic, mas não dá, veja você, as vezes demonstrar amor é também tentar se salvar – não se esqueça que as aeromoças botam as máscaras primeiro nelas.

o Caetano estava na tv dizendo que não somos tão estranhos ao futuro quanto pensamos. o futuro não é totalmente desconhecido, é uma série de possibilidades, de coisas que a gente intui – é preciso se ouvir, no entanto, no meio de tanto barulho por nada. no último sábado meu pai me disse pra ter paciência, que às vezes algo muito grande está bem perto de acontecer. eu achei que ele estava falando da vida, no campo das coisas reais e concretas. era sobre o sorteio da loteria.

Jeito felino

Há um mês a Pudim chegou lá em casa e agora colecionamos arranhões pelo corpo todo – apesar de doloridos, interpreto como marquinhas de amor.

Ela era uma bolinha de pelo que miava choramingando acuada. Se escondia de qualquer movimento e barulho. Tinha, talvez, duas semanas, quando a pegamos. Não tomava o leite, recusou a caminha, ignorou a caixa de areia. Deu zero bola para o brinquedinho que trazia um falso peixe em uma corda e nos custou 10 reais no pet shop.

Elegeu, ela mesma, o espaço entre o sofá e a parede como seu esconderijo – só parou de dormir ali quando descobriu as maravilhas de um ar condicionado. Levou dois dias para que as mães de primeira viagem descobrissem que ela precisava de uma mamadeira. Mamava igual um bebê no colo. Foi ficando manhosa e comilona. Algum tempo depois, Pupu, para os íntimos, passou a comer ração de filhote, que amaciamos com água morna e carinho. Começou finalmente a brincar com a cordinha do tal peixe.

Depois nossa Pupu, sorrateiramente, seguiu a explorar os demais cômodos. Descobriu que o mundo ia além da sala. Meu quarto passou a ser um parque de diversões. Sobe e desce caixas, brinca com cadarços (é absolutamente louca por sapatos), se enrosca no edredom, fone de ouvido, carregador, entra e sai debaixo do criado-mudo e caminha entre os travesseiros. É minha companheira de seriados, embora deteste não ser o centro das atenções. É comum ela subir em cima do notebook, socar a tela do celular com a patinha, morder livros e fazer tudo o que puder para retaliar o inimigo – nunca está disposta a dividir minha atenção com ninguém. Ela roda, roda e escolhe o lugar mais improvável para deitar-se: entre minha visão e o livro que tenho nas mãos, indiferente ao fato de que está atrapalhando algo e fazendo aquela cara de blasé.

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     Tô nem aí pro teu netflix, humana.

É lindo quando acorda e caminha pela casa se espreguiçando, numa espécie de ginástica matinal felina. É a gata mais curiosa que eu conheço, fica a um triz de cair dentro da minha xícara de café todas as manhãs (um dia ela o derrubou no meu pijama novim). Passou a explorar o quarto da mamãe, com quem escolhe dormir agora quase sempre, persegue agarrando o pé, pendura-se na calça jeans, esconde-se atrás da porta para dar pequenos sustos com pulinhos. É a fase mais fofa e brincalhona. Ah, ela já curte o peixe. Na verdade, ela já o destruiu.

Fico olhando pra Pupu e pensando em quanto tempo perdi sem entender porque o mundo se rendeu aos gatos. Quanto tempo passei subestimando essas fofuras e repetindo argumentos vazios da turma contra-gatos, sabe-se deus por qual razão. Pudim é independente, amorosa e inteligente. Eu achava que a tínhamos salvado de morrer na rua, mas ela explica tudo com o olhar, aquelas duas bolotas azuis dizendo: “que sorte essa família teve quando a adotei”.

Por que quero ser amiga do meu (ex) orientador

A primeira vez que eu vi Paulo Fernando foi incrível.

Mentira. Eu não me lembro da primeira vez que o vi. Lembro de ser um rosto familiar, sempre por ali, no circuito, amigo dos meus amigos mas que, no entanto, não era meu amigo.

Pode não ter sido a primeira, mas foi a mais marcante, talvez, a vez em que ficamos cara a cara na minha entrevista de seleção do mestrado. Ele me olhava rindo e surpreso: “Como assim você não gosta de ler e quer vir pro nosso programa?”, me perguntava num misto de desprezo e compaixão. Eu nunca pude me explicar sobre isso, mas coloco agora que, acima de qualquer imagem durona que tentou me passar, sua provocação era mais atraente que assustadora.

A segunda aula do segundo dia no mestrado era dele. Teorias da Comunicação, quatro horas daquele homem que espalmava a mão uma na outra como quem quer estalar o nosso pensamento e repetia “percebe?” o tempo todo. Eu não entendia nada do que ele falava, exceto quando refletia sobre a vida, e tocava em pontos tão caros à minha pobre existência humana. Em dois anos foram dezenas de moleskines que hoje guardo com afeto e aos quais recorro para lembrar aquela frase, dita naquele dia, quando citava aquele filme ou ensaiava cantar um trecho daquela canção. Jamais foi chato, nem por um minuto, ir para uma aula do professor Paulo Fernando – pelo contrário, era dormir por cima dos textos na véspera, lendo pela milésima vez, pela necessidade de participar, minimamente, das discussões daquele cara. Eu precisava entender o que ele dizia.

Também fui parar no grupo de pesquisa que ele comanda – Jornalismo e Discurso, o JORDIS – e me encantava ainda mais o modo prazeroso e empolgado com o qual falava das pesquisas ali desenvolvidas. Era impressionante a capacidade dele de aproveitar qualquer resquício das asneiras que a gente falava, só pra fazer a gente se sentir útil naquele debate (hoje eu percebo). Era atencioso e humilde, fazia provocações e perguntava o tempo todo dizendo: “pode falar o que você tá pensando, preciso entender o que se passa na tua cabeça pra te ajudar”.  Nessas noites de sexta, depois de uma semana cansada, a gente se esforçava pra acertar os conceitos valendo um quilo de picanha – ele prometia e pagava. Talvez foi a essa altura que eu pensei em querer ser, minimamente, um dia, pelo menos um tiquinho do que ele era.

Um dos primeiros e-mails que a gente trocou, foi ao final daquela disciplina de Teoria, quando a turma toda levou bomba nos artigos – eu, no auge da minha arrogância, escrevi essa mensagem surpresa com a minha nota, um 7,3. “Você devia estar dando pulos de alegria que a sua nota foi uma das maiores”, ele respondeu. O sete era o novo dez, e meu professor me ensinava ali a ver o mundo por outra perspectiva.

É preciso lembrar da sua fama e o quanto ela nunca me afetou. “Orientanda do PF? Boa sorte”, diziam alguns. “Ele me reprovou”, “ele é muito cri cri”, ele isso, ele aquilo. Todo mundo tinha uma história impactante pra contar sobre meu orientador. “A verdade é que é mais fácil pras pessoas culparem os outros do que assumirem suas mediocridades”, ele me disse certa vez e eu anotei como muitas das frases e reflexões. Ele nem sabia, mas às vezes eu registrava até um papo informal – que eram raros, não pense você que ele é assim propriamente fácil. Foi muito difícil quebrar esse distanciamento imposto, professor e aluno. Foram meses pra ele me dar moral no whatsapp – e vez ou outra eu ainda levo umas patadas. Foram quase três anos, muito chororô e madrugadas de aflição conjunta até chegar aqui.

Eu sonhava com esse dia em que, após defender a dissertação, a gente seria amigos. Eu queria, a toda força, arrumar um espaço na vida e no coração da pessoa que existia atrás do professor turrão. Exigente? Sim. Duro na bronca? Com certeza. Mas Paulo Fernando é talvez uma das pessoas mais doces e prestativas que eu conheço – maior que sua inteligência, só seu coração, eu disse certa vez enquanto falava para uma plateia de alunos que estava ali para vê-lo, mas ele, generoso como sempre, dividiu o momento com a gente, seus meros orientandos.

Paulo Fernando me cobrou até o último minuto – até a véspera da defesa, enquanto eu tentava abstrair o peso daquilo tudo e ele dizia: “Tem uma pessoa cruzando o país pra comentar o seu trabalho”. As pernas tremiam, eu estava em pânico. Ele batia e assoprava, como um pai que consola pela queda mas não deixa de falar: “eu avisei”.  “Agora vá dormir que você já fez o suficiente”, me ligou para dizer.

Meu professor me ensinou que a insegurança é fundamental pra gente se preparar bem – mas que, em excesso, pode te prejudicar, e que é preciso equilíbrio o tempo todo entre autoconfiança e dedicação. Me ensinou que a gente só aprende na dor – mas que nem tudo precisa ser tão Maria do Bairro assim. Me deu a chave da sua sala pra que eu pudesse escrever quando fiquei desabrigada (o meu processo de desterritorialização foi vivido na prática), abriu as portas e os ouvidos pra me ouvir e corria pra pegar lenços quando eu usava o espaço da orientação para chorar. A gente falava da vida, do sentido, da linguagem, do peso da palavra, dos sentimentos humanos e às vezes, até, dos rumos da pesquisa.

Com Paulo Fernando aprendi que o que acaba são os prazos. Não as pesquisas, nem os planos, nem os sonhos. Talvez ele nem saiba, mas eu aprendia mais com o que ele é do que com o que me dizia. Sempre um filme para me indicar, sempre um livro para oferecer, a piada pronta pra fazer. Desde o dia que o vi dando seu espetáculo na sala de aula, eu jamais consegui ser a mesma. Que homão da porra, que showman, meu deus deixa esse professor me reprovar mas por favor, faça com que sejamos amigos um dia – eu rezava.

O mestrado acabou, as orientações passaram e ficou um buraco, uma saudade. Foram dois anos dele pegando na minha mão e me ajudando a enxergar, e isso explica porque ainda é pra ele que eu corro quando alguma coisa aperta. Na semana passada eu fui ousada e enviei: “Posso passar na sua sala pra bater um papo?”. “Venha”, respondeu prontamente. “Tô ocupado, mas pra você sempre tenho um tempinho”.

Sem nome mas com endereço

Eu sei muito pouco de você.

Não sei o quanto calça, nem quem era o melhor amigo na infância. Nunca perguntei o nome da sua mãe, nem o que fazia em 98 quando o Brasil perdeu a copa. Não sei seu rg, nem cpf, nem ao menos seu nome completo, e dia desses reparei: não saberia dar seu endereço ao taxista, caso precisasse trair o uber. Logo aquele caminho que, de olhos fechados, eu sei chegar à noite, quando tudo se aquieta e a gente vai se esconder.

Não sei seu tipo sanguíneo, nem a banda favorita. Não faço ideia se prefere açúcar a adoçante. Não sei quanto tem no banco (sei que odeia bancos) nem se curte viajar, nem sei detalhes daquela cicatriz no braço. Não conheço nenhuma das pessoas a quem chama de amigo.

Mas as coisas poucas que eu sei me são enormes.

Sei exatamente quando quer esconder o riso e quando o libera de verdade. Sei contado os sinais que se espalham discretamente pelo teu pescoço. Conheço a parte do passado que escolheu pra me contar, sei dos planos que arriscou dividir comigo. O lance todo com a barba e o modo como aumenta a temperatura quando encosta em mim. Sei dos problemas com o sono, o nome da professora preferida (eu podia descobrir tua senha de email com essa pista, né não?) e sei que sonha em ser grande – mesmo tendo a consciência de que ser ou ter é só uma questão do lugar que escolhemos para observar.

Que coisa bonita e louca é a intimidade: eu sei a tua marca de cueca mas não sei que campainha tocar no interfone do teu condomínio. Onde é que você mora? Mora de verdade, não os locais pelos quais passeia e que assistem você existir – um quarto de dormir, um teto que te abriga, são só espaços desprovidos de sentido se a gente não faz deles nossa casa. Quero saber onde você faz morada, em pensamento, alma e coração.

Compartilhamos madrugadas, cachaça, torta de limão, pão de alho, pizza e batatinha – pra que maior intimidade que beber no mesmo copo de cerveja? Um morde, o outro respira ofegante enquanto as mãos se encontram e se prendem como se o corpo estivesse prestes a se lançar de um precipício. Gosto do teu olhar estrangeiro (lembra o livro?), que me faz olhar para as coisas que são minhas com mais apreço e admiração, e menos desdém. Me apeguei a forma como nos apegamos: “pode ser que sejamos igual método qualitativo e quantitativo”, você me disse, igual a um cientista político, tentando explicar que é possível completar-se em meio a tanta diferença.

Pode ser que a gente seja tudo isso, ou pode ser que nada.

Que mal há em dividir uma vida ou uma noite? No fim, que diferença isso faz se algumas coisas são verdades só na hora em que são ditas e depois, puff: já foi. É o tempo de um storie, é o segundo de uma foto, é o brilho de uma noite de São João.

Pode ser eterno, e acabar agora.
Pode ser efêmero e durar pra sempre.

E isso é tudo do muito pouco que eu sei.

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