Revestrés

28/07/2017
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Luana Sena

Amar e escrever à máquina

Por que quero ser amiga do meu (ex) orientador

A primeira vez que eu vi Paulo Fernando foi incrível.

Mentira. Eu não me lembro da primeira vez que o vi. Lembro de ser um rosto familiar, sempre por ali, no circuito, amigo dos meus amigos mas que, no entanto, não era meu amigo.

Pode não ter sido a primeira, mas foi a mais marcante, talvez, a vez em que ficamos cara a cara na minha entrevista de seleção do mestrado. Ele me olhava rindo e surpreso: “Como assim você não gosta de ler e quer vir pro nosso programa?”, me perguntava num misto de desprezo e compaixão. Eu nunca pude me explicar sobre isso, mas coloco agora que, acima de qualquer imagem durona que tentou me passar, sua provocação era mais atraente que assustadora.

A segunda aula do segundo dia no mestrado era dele. Teorias da Comunicação, quatro horas daquele homem que espalmava a mão uma na outra como quem quer estalar o nosso pensamento e repetia “percebe?” o tempo todo. Eu não entendia nada do que ele falava, exceto quando refletia sobre a vida, e tocava em pontos tão caros à minha pobre existência humana. Em dois anos foram dezenas de moleskines que hoje guardo com afeto e aos quais recorro para lembrar aquela frase, dita naquele dia, quando citava aquele filme ou ensaiava cantar um trecho daquela canção. Jamais foi chato, nem por um minuto, ir para uma aula do professor Paulo Fernando – pelo contrário, era dormir por cima dos textos na véspera, lendo pela milésima vez, pela necessidade de participar, minimamente, das discussões daquele cara. Eu precisava entender o que ele dizia.

Também fui parar no grupo de pesquisa que ele comanda – Jornalismo e Discurso, o JORDIS – e me encantava ainda mais o modo prazeroso e empolgado com o qual falava das pesquisas ali desenvolvidas. Era impressionante a capacidade dele de aproveitar qualquer resquício das asneiras que a gente falava, só pra fazer a gente se sentir útil naquele debate (hoje eu percebo). Era atencioso e humilde, fazia provocações e perguntava o tempo todo dizendo: “pode falar o que você tá pensando, preciso entender o que se passa na tua cabeça pra te ajudar”.  Nessas noites de sexta, depois de uma semana cansada, a gente se esforçava pra acertar os conceitos valendo um quilo de picanha – ele prometia e pagava. Talvez foi a essa altura que eu pensei em querer ser, minimamente, um dia, pelo menos um tiquinho do que ele era.

Um dos primeiros e-mails que a gente trocou, foi ao final daquela disciplina de Teoria, quando a turma toda levou bomba nos artigos – eu, no auge da minha arrogância, escrevi essa mensagem surpresa com a minha nota, um 7,3. “Você devia estar dando pulos de alegria que a sua nota foi uma das maiores”, ele respondeu. O sete era o novo dez, e meu professor me ensinava ali a ver o mundo por outra perspectiva.

É preciso lembrar da sua fama e o quanto ela nunca me afetou. “Orientanda do PF? Boa sorte”, diziam alguns. “Ele me reprovou”, “ele é muito cri cri”, ele isso, ele aquilo. Todo mundo tinha uma história impactante pra contar sobre meu orientador. “A verdade é que é mais fácil pras pessoas culparem os outros do que assumirem suas mediocridades”, ele me disse certa vez e eu anotei como muitas das frases e reflexões. Ele nem sabia, mas às vezes eu registrava até um papo informal – que eram raros, não pense você que ele é assim propriamente fácil. Foi muito difícil quebrar esse distanciamento imposto, professor e aluno. Foram meses pra ele me dar moral no whatsapp – e vez ou outra eu ainda levo umas patadas. Foram quase três anos, muito chororô e madrugadas de aflição conjunta até chegar aqui.

Eu sonhava com esse dia em que, após defender a dissertação, a gente seria amigos. Eu queria, a toda força, arrumar um espaço na vida e no coração da pessoa que existia atrás do professor turrão. Exigente? Sim. Duro na bronca? Com certeza. Mas Paulo Fernando é talvez uma das pessoas mais doces e prestativas que eu conheço – maior que sua inteligência, só seu coração, eu disse certa vez enquanto falava para uma plateia de alunos que estava ali para vê-lo, mas ele, generoso como sempre, dividiu o momento com a gente, seus meros orientandos.

Paulo Fernando me cobrou até o último minuto – até a véspera da defesa, enquanto eu tentava abstrair o peso daquilo tudo e ele dizia: “Tem uma pessoa cruzando o país pra comentar o seu trabalho”. As pernas tremiam, eu estava em pânico. Ele batia e assoprava, como um pai que consola pela queda mas não deixa de falar: “eu avisei”.  “Agora vá dormir que você já fez o suficiente”, me ligou para dizer.

Meu professor me ensinou que a insegurança é fundamental pra gente se preparar bem – mas que, em excesso, pode te prejudicar, e que é preciso equilíbrio o tempo todo entre autoconfiança e dedicação. Me ensinou que a gente só aprende na dor – mas que nem tudo precisa ser tão Maria do Bairro assim. Me deu a chave da sua sala pra que eu pudesse escrever quando fiquei desabrigada (o meu processo de desterritorialização foi vivido na prática), abriu as portas e os ouvidos pra me ouvir e corria pra pegar lenços quando eu usava o espaço da orientação para chorar. A gente falava da vida, do sentido, da linguagem, do peso da palavra, dos sentimentos humanos e às vezes, até, dos rumos da pesquisa.

Com Paulo Fernando aprendi que o que acaba são os prazos. Não as pesquisas, nem os planos, nem os sonhos. Talvez ele nem saiba, mas eu aprendia mais com o que ele é do que com o que me dizia. Sempre um filme para me indicar, sempre um livro para oferecer, a piada pronta pra fazer. Desde o dia que o vi dando seu espetáculo na sala de aula, eu jamais consegui ser a mesma. Que homão da porra, que showman, meu deus deixa esse professor me reprovar mas por favor, faça com que sejamos amigos um dia – eu rezava.

O mestrado acabou, as orientações passaram e ficou um buraco, uma saudade. Foram dois anos dele pegando na minha mão e me ajudando a enxergar, e isso explica porque ainda é pra ele que eu corro quando alguma coisa aperta. Na semana passada eu fui ousada e enviei: “Posso passar na sua sala pra bater um papo?”. “Venha”, respondeu prontamente. “Tô ocupado, mas pra você sempre tenho um tempinho”.

Sem nome mas com endereço

Eu sei muito pouco de você.

Não sei o quanto calça, nem quem era o melhor amigo na infância. Nunca perguntei o nome da sua mãe, nem o que fazia em 98 quando o Brasil perdeu a copa. Não sei seu rg, nem cpf, nem ao menos seu nome completo, e dia desses reparei: não saberia dar seu endereço ao taxista, caso precisasse trair o uber. Logo aquele caminho que, de olhos fechados, eu sei chegar à noite, quando tudo se aquieta e a gente vai se esconder.

Não sei seu tipo sanguíneo, nem a banda favorita. Não faço ideia se prefere açúcar a adoçante. Não sei quanto tem no banco (sei que odeia bancos) nem se curte viajar, nem sei detalhes daquela cicatriz no braço. Não conheço nenhuma das pessoas a quem chama de amigo.

Mas as coisas poucas que eu sei me são enormes.

Sei exatamente quando quer esconder o riso e quando o libera de verdade. Sei contado os sinais que se espalham discretamente pelo teu pescoço. Conheço a parte do passado que escolheu pra me contar, sei dos planos que arriscou dividir comigo. O lance todo com a barba e o modo como aumenta a temperatura quando encosta em mim. Sei dos problemas com o sono, o nome da professora preferida (eu podia descobrir tua senha de email com essa pista, né não?) e sei que sonha em ser grande – mesmo tendo a consciência de que ser ou ter é só uma questão do lugar que escolhemos para observar.

Que coisa bonita e louca é a intimidade: eu sei a tua marca de cueca mas não sei que campainha tocar no interfone do teu condomínio. Onde é que você mora? Mora de verdade, não os locais pelos quais passeia e que assistem você existir – um quarto de dormir, um teto que te abriga, são só espaços desprovidos de sentido se a gente não faz deles nossa casa. Quero saber onde você faz morada, em pensamento, alma e coração.

Compartilhamos madrugadas, cachaça, torta de limão, pão de alho, pizza e batatinha – pra que maior intimidade que beber no mesmo copo de cerveja? Um morde, o outro respira ofegante enquanto as mãos se encontram e se prendem como se o corpo estivesse prestes a se lançar de um precipício. Gosto do teu olhar estrangeiro (lembra o livro?), que me faz olhar para as coisas que são minhas com mais apreço e admiração, e menos desdém. Me apeguei a forma como nos apegamos: “pode ser que sejamos igual método qualitativo e quantitativo”, você me disse, igual a um cientista político, tentando explicar que é possível completar-se em meio a tanta diferença.

Pode ser que a gente seja tudo isso, ou pode ser que nada.

Que mal há em dividir uma vida ou uma noite? No fim, que diferença isso faz se algumas coisas são verdades só na hora em que são ditas e depois, puff: já foi. É o tempo de um storie, é o segundo de uma foto, é o brilho de uma noite de São João.

Pode ser eterno, e acabar agora.
Pode ser efêmero e durar pra sempre.

E isso é tudo do muito pouco que eu sei.

Life is a cabaret

A Leandra Leal fez um filme sobre o amor. Não importa o que você ouviu falar por aí sobre Divinas Divas – é um filme de gênero, bandeira LGBTI, de travesti, etc. O filme é, em essência, um recorte sobre o amor, sobre amar o que se é, o que se quer ser, e o que se pretende fazer.

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Leandra fez um filme sobre arte – mas se a arte vem de dentro, tem um pouco de loucura e dor, é redundante dizer que é um filme sobre amor e arte. É sobre amor, e pronto. E ele está ali desde a ideia de revisitar o passado – a roupinha de vedete que ganhou ainda bebê, a primeira vez que subiu no palco de um teatro, a amizade com as drags, o passado do Rival. É interessantíssimo descobrir sobre a história de alguém que nos conta com paixão. “Teatro é uma missão”, relembra a fala do avô, enquanto desenha pra gente, sem nenhum pingo de ressentimento, a dor e delícia de carregar essa herança.

Cada uma das divas dava um filme totalmente a parte. Fico pensando na dificuldade de escolher aquelas, entre tantas, histórias. Porque montar um filme, lógico, é algo que exige a eterna angústia de fazer escolhas e saber abrir mão. Gosto como a diretora se coloca sutilmente no enredo – nós não a vemos, mas é a fala dela que conduz a narrativa. “Pelo olhar das divas, meu passado ganhava um brilho que eu não conhecia”, diz em off. E é pelo olhar de Leandra que a gente conhece o brilho das divas. “Elas nunca foram estranhas para mim”. Essa sensação de completa intimidade, é claro, nos é passada com maestria: 15 minutos de filme e Rogéria, Valéria, Jane, Camille, Fujika, Eloína, Marquesa e Brigitte já nos são amigas daquelas que a gente faz no banheiro da balada numa noite incrível.

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Essas oito maravilhosas, juntas, formaram um grupo que testemunhou o auge da Cinelândia nos anos 1970 – o teatro Rival, do avô de Leandra, foi o primeiro palco a abrir espaço para homens vestidos de mulheres apresentarem seus espetáculos. O documentário, lançado este ano, acompanha o reencontro do grupo para uma apresentação especial, em 2014. É a estreia de Leandra como diretora.

“A arte é divina demais para ser normal”, diz Camille K em um dos depoimentos. Acho que essa coisa da arte existir porque a vida não é suficiente fica mesmo muito clara nos relatos de todas as divas, bem como na insistência de Leandra em fazer o filme acontecer (foram 10 anos entre produção, pesquisa e crowdfunding), nas histórias tão diversas quanto intensas de amores. E tem pra todos os gostos: Camille namorando um garotão, Fujika viúva saudosa e Jane Di Castro fazendo bodas de ouro com o boy que conheceu na plateia de um dos shows, em 1967 – a declaração dele é uma das cenas mais emocionantes de todo o filme. Tem ainda Rogéria descrevendo a diferença entre amor e tesão, em um ponto altíssimo: “Pra que ter apenas um se eu posso ter vários?”. Aprende com a rainha, meuamô.

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Eloína dos Leopardos: sustenta esse baurete, mana

Teresina teve uma sessão comentada do filme, com a presença, além de Leandra, da diva Jane Di Castro – memória viva, ali, da tela pra poltrona nos contando – e cantando – ao vivo sobre o dia em que abriu o camburão e livrou todas as amigas de levar cana. Leandra no sincerão dizendo que tá ferrada pra pagar o filme, mas venderia o carro e a casa pela trilha sonora. A grandeza dela em reconhecer no cinema a possibilidade de expandir seus próprios limites – e, por tabela, expandir os nossos,  mesmo explicando que toda obra é o retrato do limite do autor em certo tempo.

Para mim Divinas Divas é uma colagem de múltiplas histórias de amor. Ele é uma constante em tudo: nas amizades cheias de tretas, na resistência, na vaidade, na música, na intimidade. A bicha horrorosa que se chamava “bonitinha”. A diferença taxada como loucura. As noites de boate, o preconceito, a prostituição. Os anos 70, o teatro, a boemia, o Rio. Eu tô aqui dando um google com saudade da Marquesa como uma amiga querida que partiu antes da hora. Parabéns, Leandra: seu amor me pegou.

 

 

Oh, meu nobre viajante!

Promessa dada tem que ser promessa cumprida. Voltei a Marmelada um anos após conhecer aquela comunidade cuja história contei pra Revestrés. Você pode ler aqui, mas relembrando rapidinho: um pequeno grupo de pessoas no interior de Gilbués, sul do Piauí, que festeja o divino espírito santo há quase 200 anos da maneira mais genuína e linda que eu já vi de praticar a fé. Eles não tinham energia elétrica até 2015. E quando chegou, lutaram para retirar os postes que impediam a passagem do mastro levantado. Tá tudo cheio de simbologia. É tudo divino, maravilhoso.

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meu rancho, embaixo de um pé de fava <3

Dona Ilene me recebeu com a mesma festa. Uma preta linda do abraço apertado, a guardiã da chave da igreja. A gaitada dela continua do jeitinho que eu me lembrava. O beiju grosso no fogão a lenha. O café passado pra tomar sem pressa. Tudo segue da maneira como eu guardei a Marmelada no meu coração.

Este ano, mente aberta e alma leve, reparei em novos personagens. É claro que afinei as amizades antigas: que felicidade dona Olenor boa de saúde. O vei Chico chega tava outra pessoa, o semblante só de alegria. Ela, na missa de sábado, parecia uma princesa. A saia rodada verde, um sapato de veludo cor de rosa. O padre falando: “Eu não me guio em quem eu sou: eu me guio na fé de dona Olenor”. Eu também, seu padre.

IMG_1169A burra de seu José de Quintino morreu – ele disse que ela foi picada por uma cobra, ou algo do tipo, e caminhou léguas pra chegar em sua casa e morrer em paz. Ele ainda lembra o último olhar. Arrumou um pé de pano, segue andando com rapé no bolso. Foi ele que disse que a “Para tudo” (a cachaça que é sucesso nas esmolas), na verdade, é “conserva tudo”. 94 anos e toma todo dia. Ouça a voz da sabedoria.

Vanjinha, dona Ninica, Isabel, Jaciara, Raimundo Batista (o sineiro que de tanto tocar o sino da igreja ficou corcunda), Maximiano. Este último tava com olho machucado – foi colher alguma coisa no mato, um galho desgovernado o acertou em cheio. Lembrei da história de Lampião, o alertei – um ômão da porra desse não pode perder a visão. Tava vermelho e baixo, ele não foi ao médico. Mas não há dúvida de que se apegou com o divino.

Conheci este ano seu irmão, o Tinhô. É ele que faz o tambor que Maximiano toca há anos – é feito de aroeira e couro de viado (outro animal não funciona, sob o risco de comprometer a sonoridade do instrumento). A maneira como Tinhô narra sua história é emocionante. Cada frase é uma poesia, ele sabe direitinho observar a linha que cruza toda a sua vida. “Deus me algemou a família”. É uma verdade. Aos 16 anos assumiu o comando da casa, cuidou da mãe e todos os irmãos. Depois casou e teve um filho especial, que só acalmava com ele. Os filhos cresceram, ficou viúvo, hoje cuida dos netos que moram com ele. Seu Tinhô é pai em poesia e essência.

Prometeu tentar fazer o meu tambor – o divino que vai dizer se sou digna de tê-lo. Se ele julgar que sim, deixarei claro que o tambor estará comigo mas será sempre da comunidade. A única vez que ele os comercializou foi para ajudar o tratamento do filho doente. Ainda apareceu político desviando essa renda. Agora tá mais difícil fazer, com a caça proibida e a madeira em extinção. E eles tem uma consciência total disso, por esta razão não se comprometeu.

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Dona Ilene construiu um banheiro – o cômodo agora está rente a nosso alojamento, imponente, todo pintado de branco. É o único espaço da casa de pau a pique com parede branca. A gente nota a alegria da dona em ostentar aquilo que até bem pouco tempo parecia inalcançável. Usei um dia, só pra agradá-la. Ela mesma concluiu: “já reparei que você gosta mesmo é de tomar banho no banheiro com teto de estrelas”.

No dia das esmolas – o famoso domingo de pentecostes – colei no alferes, o seu Orlando de Ninica. Vestindo a indumentária que a ocasião exige, é extremamente respeitado por todos ali: é ele quem escolhe o roteiro a ser percorrido, direciona os capitães, recolhe as doações. Depois das cantigas pro dividino e para o padroeiro da casa, é a hora do samba – particularmente, meu momento preferido. Acho que eu sou foliã de raiz – desculpa, Marmelada. Eu tinha que ter essa falha. Mas tenho o cuidado de não ser afoita demais sob o risco de ser considerada apenas pelega. É possível passear entre os dois, migrar rapidamente do sagrado pro profano. Tanto é que os melhores cantadores são exímios foliões.IMG_1124

É na hora do samba que surge a cachaça . Alguém (geralmente, o dono da casa), surge com a “Para tudo” e oferece ao alferes. Ele a impõe no alto, todos vibram, cantam, dançam, gritam, batem palma. Mas só bebe aquele a quem o alferes oferecer. É ele quem tem o poder de decidir quem vai beber, o quanto vai beber e a ordem – em geral, capitães recebem a dose primeiro. Preciso dizer que foi uma honra quando, após oferecer-me a dose da cachaça pela primeira vez, Orlando me botou sempre na roda – até, na última casa, da última esmola, eu chegar a ser a primeira pessoa – depois dele – a beber. Isso pra mim foi a maior honra.

Este ano reparei poucos bichinhos pagando promessa na Marmelada – sinal de um superávit na saúde dos animais da região. Dois cavalos e um cachorrinho seguiam com a gente a caminhada de um dia inteiro (12 casas), que sobe os grotões, atravessa rio ressequido, cruza literalmente o caminho das pedras e passa pelo cemitério, parando somente para o almoço. Encerra tudo na igreja, com uma procissão belíssima – todo mundo de velinha na mão, aqueles pontinhos de luz no meio da escuridão.

Voltei com uma sacola carregada de catinga de porco, coroa de frade, alecrim e canelinha – toda cura para todo o mal parece estar aqui comigo agora. Isso sem falar em presentes como favo de mel, caneta de pena, o chaveirinho do divino e a binga (ou artifício, nome que eu gosto mais). Aprendi a fazer fogo, a atirar com um bodoque, a aceitar tudo de bom e ruim que a vida pode me dar.

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família que me adotou na Marmelada <3

Na Marmelada, quando a gente agradece qualquer coisa (tipo, “obrigada, dona Ilene, pelo almoço!”), eles não dizem “por nada” nem tampouco “não há de que”. Eles sabem que há motivo sim para agradecer, porque tudo é custoso, tudo é trabalho, é suor – mas se a pessoa estiver comendo uma pêta e esta ser a única comida que ela tem, ela vai te oferecer, e quando você disser “obrigada!” ela vai apertar sua mão com força, talvez até te puxe pra um abraço, e vai dizer: “merece”.

E, depois disso, moço, você vai entender que é esse o tal sentido da fé.

Deus é uma mulher

Primeiramente (fora, Temer!), eu fui ao cinema sozinha e recomendo demais. Uma experiência antropológica, reveladora e surpreendente, desde o momento em que você se pega pedindo duas poltronas pra moça do caixa, por pura força do hábito, até encarar o olhar das pessoas (cadê a companhia dela?) e perceber que, mesmo em pares ou turmas, elas estão tão sozinhas ou mais que você.

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Em segundo lugar, eu vou falar aqui do filme A cabana, considerado um horror pela crítica, mas que mexeu muito comigo e, apesar do clichezão, vale muito pela mensagem. Tem spoiler, mana, toma teu rumo se tu ainda não viu ou, se não se importa, segue o enterro.

Vamos esquecer aqui o teor religioso e a carga melodramática do filme, ok? O filme é isso, também, mas não é só isso. Como uma fala que ouvi da Octavia Spencer, atriz lindíssima, com cara de mãe da gente, que interpreta deus, em uma entrevista: “As pessoas que tiveram uma reação negativa a um filme sobre deus talvez sejam as que realmente precisem vê-lo”. Concordo muito.

Deus é uma mulher, mas também se apresenta em forma de homem carpinteiro, e menina, jardineirinha, sensível e doce. Mas pra mim fica muito forte a força do deus mulher. Da deusa. Não sei se por um momento pessoal de encarar o ser mulher de outros modos, de lidar com outras angústias. Repare que é um filme inspirado num livro escrito por um homem, dirigido por homem, protagonizado por homem. Mas quem brilha para mim o tempo todo são as mulheres. Tem uma cena belíssima, depois que a Missy desaparece (a filhinha do Mack e da Nan) e ele fica desesperado. Mantém a compostura por ser “homem”, mas depois, quando ninguém está vendo, ele desaba no colo de quem? Da Nan, sua esposa. É tão lindo ela consolando ele, dizendo que ele não tem culpa e sendo forte. Mais forte do que todo mundo ali junto. Quando ele sai, depois de revelar toda a fragilidade, ela, que estava segurando a onda, desmorona.

Depois disso a história corre em anos, e vemos uma família quase desestruturada pelo trauma. A filha mais velha tem sequelas emocionais, o pai nunca mais foi o mesmo, o filho perde a confiança. Quem está lá segurando as pontas? Isto mesmo, Nan, a mãe e esposa. É ela que leva a menina atrás de um terapeuta, faz as compras, dirige, enquanto o marido, que nunca acreditou em deus, tá lá, arrasadinho, olhando só para a própria dor.

Para completar, tem a deusona mara. O papa, ou Elouisa, que mora numa casa de campo belíssima, parecendo aqueles bosques de sonho de criança. Ela cozinha, canta, tem a fala afetuosa e passa muita calma só com o olhar. Está sempre bem vestida, cabelo arrumado e sobrancelha feita. Adoro a cena em que ela tá na varanda de óculos escuro, tomando um sol, e o Mack chega com a sua revolta e deboche: “e deus tem tempo para tomar sol?”. Ela rebate: “Se você soubesse o quanto eu estou fazendo só aqui, parada, neste minuto”.

É muito isso, sabe. Todas as mulheres maravilhosas que eu conheço são também um pouco deus. Porque elas fazem tudo isso e muito mais, mas não por isso – porque elas tem que lidar diariamente com essa descrença dos homens. Acaba sendo duas batalhas, sabe. E é muito cansativo, mas a gente tá de boa. A gente é superior. Desculpa man, mas a gente tá num outro patamar da escala evolutiva.

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Preste atenção como o menino carpinteiro (que parece o Criolo, só que magro) é muito menos persuasivo que a Sininho vestida com roupas da Farm (desculpa, gente, sou péssima com nomes de personagens). Mas o discurso dele tem muito mais poder, tem uma certa broderagem ali entre Mack e ele. Só que, quem é que acaba levando Mack pro jardim onde, para mim, se passa a mensagem e o acontecimento principal do filme? Isso mesmo, a Sininho hippie. Que fica brilhando de um lado pro outro – o que achei irritante – mas não deixa de ser fofa.

O jardim é super metafórico – precisamos arrancar a erva daninha para fazer brotar o bem, etc. Mas o que achei mais bonito, e que acho que também emociona Mack, é perceber que, enquanto ele se revoltava, desacreditava, e teimava, eles (os deuses, ou o deus em suas várias versões), nunca pararam de trabalhar por ele: “amanhã teremos uma celebração super importante”. Eles tinham fé. E estava lá o caixão todo de madeira fina, as flores e lágrimas colhidas, etc. Tudo arrumado com muito carinho e atenção, enquanto Mack se reclamava e sofria imerso na sua própria arrogância.

“Quando tudo que consegue ver é a sua dor, você me perde de vista”, diz ele mesmo, deus. Nossa, como isso é certo. Quis abraçar o papa nessa hora, e o Mack e todo mundo, porque me identifiquei horrores. Qual a nossa base pra dizer o que é bom ou ruim? Alguma vez você já se enganou? Você é seu próprio juíz? Não me lembro agora se quem traz esses questionamentos é a Sininho (a criatividade) ou a Sabedoria (que no filme é a Alice Braga). Seja quem for, obrigada. Serviu muito pra mim.

Gosto de pensar que sou também aquele jardim: belo, encantado, mas uma tremenda confusão. Não procuro coerência em mim, mas procuro, sim, deus em tudo. E é bom senti-lo, todo dia, na minha constante evolução.

 

 

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