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24/11/2017
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Isis Baião

O Terapeuta da Imperatriz

O Terapeuta da Imperatriz está em absoluto estado de perplexidade, evoluindo para o desespero. Há alguns meses que os clientes vêm, paulatinamente, dispensando os seus indispensáveis serviços. Ele nunca tinha pensado na vida sem clientes e, ainda que o tivesse feito, não imaginaria como resultado uma tal catástrofe no seu psiquismo. É como se só os clientes tivessem a insulina para a sua diabete, só eles doassem sangue para desarmar a sua hemofilia. Acontece que o Terapeuta da Imperatriz não é diabético, tampouco hemofílico e sabe que os clientes não se apoderaram do ar que ele respira. Mas sente um sufoco insuportável.

Quando o primeiro cliente se despede, ele até sente um alívio. Trata-se de um chato, fixado numa ejaculação precoce que o atormenta desde a juventude e agora, ultrapassados os 60 anos, adquiriu uma outra fixação: a impotência. Esta última, veio com a falência, que determinou a resolução de deixar a terapia.

Uma semana depois, um outro cliente encerra as contas. Uma cliente, aliás. Esta também não causa nenhum impacto no psiquismo do terapeuta, apesar da pena que sente da moça, tão necessitada de uma terapia, porém impossibilitada de sustentá-la no desemprego.

A terceira a desertar, logo em seguida, já grila o terapeuta. Uma escritora, que lhe contava estórias divertidíssimas, enquanto ele tentava arrumar-lhe a cabeça para que ela se permitisse o sucesso. Esta perda doía-lhe. Através dessa cliente, ele se sentia colaborando com a cultura. Mas já não se sobrevive de cultura neste país, afirmou-lhe a escritora, fechando as contas.

Contudo, não é só esta recente perda que o perturba. Algo está batendo mal no seu astral, parecendo mesmo anunciar um longo período de azar. A este pensamente, o terapeuta bate três vezes na escrivaninha de jacarandá e corre a consultar o seu astrólogo, que lhe fala na passagem de Urano e Plutão, significativa de mudanças drásticas. O terapeuta procura alguns colegas e constata que eles também estão sendo atingidos pelas intempéries planetárias.

Mas, ao sair o sétimo cliente (sete, número cabalístico!), o terapeuta volta a sentir aquele frio na espinha. Consulta sua cliente preferencial, a Imperatriz, que, diante do relato, sente um arrepio generalizado e manda chamar o pai-de-santo do palácio. O pai-de-santo, em transe, constata que a quinta ex-mulher do terapeuta mandou fazer um “trabalho” pesadíssimo contra ele. E indica-lhe os antídotos para o mal: “trabalhos” em casa, no terreiro e na rua. Feito tudo isso, a urucubaca voltar-se-á contra a agressora.

De fato, a agressora sofre um atropelamento, porém os clientes do terapeuta continuam saindo e todos pelo mesmo reles motivo, que a Imperatriz não consegue entender: falta de grana. Afinal, pelos informes do palácio, as condições de vida no país estão melhorando consideravelmente.

Só o terapeuta mingua, parece. Em reconhecimento aos bons serviços prestados (o terapeuta curou-a de uma anorexia), a Imperatriz agora tem sessões diárias. Mas não consegue preencher o vazio deixado pelos outros clientes. Dir-se-ia que a Imperatriz não é tão boa doadora de vida quanto os mortais comuns, que lhe confidenciavam tantas e tão diversas complicações existenciais. Os problemas da Imperatriz, sabe-os de cor: uma falta de apetite intermitente (na verdade, provocada pelas sucessivas dietas no passado, quando disputava a mão do Imperador); a mania de comprar objetos inúteis, que já enchem três aposentos do palácio; um vazio na cabeça, responsável pela maioria das bobagens que declara à imprensa; o pânico de sequestro (até justificável); uma certa tendência à histeria; e uma compulsão pra viver na periferia do real. E aqui vale acrescentar que, embora nunca tenha ouvido falar em Maria Antonieta, muito menos na sua célebre pergunta (“se o povo não tem pão, por que não come brioches?”), a Imperatriz faz perguntas e observações de semelhante teor. E o que é pior: a cliente preferencial jamais apresentou qualquer melhora. Isto arrasa o terapeuta.

Mas não é somente o terapeuta da Imperatriz que está à beira do suicídio. Outros também o estão. A coisa parece síndrome ou praga. Alguma maldição abateu-se sobre os profissionais da terapia, sem escolher correntes. Ao tomar conhecimento disso, o nosso personagem propõe aos colegas uma saída genial: abrir os consultórios, fazer terapia de graça, clamar generosamente “venham a nós os necessitados”.

Os “necessitados”, porém, não aparecem. Será que um milagre dos céus ou alguma combinação astral acabou com a neurose na terra? O que é feito do complexo de Édipo – os filhos já não estão nem aí para as suas mamães? Onde, aqueles deliciosos maluquinhos, que se acreditam em busca do prazer, enquanto tornam a própria vida e a dos outros um inferno? E os empanicados, os histéricos, os sadomasoquistas, os necrófilos? As mulheres já não sofrem de frigidez, já não têm culpas? Como é possível viver sem culpas? Freud morreu? Que absurdo!

Maldita saúde mental!, explode o terapeuta, suando sua solidão à janela do consultório em um 8º andar. A rua está febril, parece uma grande feira. Os transeuntes correm, em direções diversas, alguns deles em nenhuma direção. Param nas centenas de barracas dos camelôs. As lojas e restaurantes fecharam. Tudo se compra, se come, na rua. Dorme-se também na rua, transformada em um gigantesco dormitório. Pessoas bem vestidas, com cara de quem passou por universidade, compõem a malta e não parecem incomodadas pela situação ou por ela esmagadas. Dir-se-ia que extrapolaram e pairam agora, estranhamente, sobre a realidade. Súbito, surge um homem, de Bíblia na mão, ameaçando a todos os impuros com o fogo do inferno. E logo aparece um outro pregador, bradando que a besta do Apocalípse já mostra suas garras e que todos se penitenciem, pois é chegado o final dos tempos. A multidão se divide entre um e outro.

O terapeuta sorri, um sorriso de quem entendeu tudo. Aperta o nó da gravata e fecha o consultório.

Na rua surge, então, um terceiro pregador. Este, pós-apocalíptico, diz-se o enviado do Senhor para guiar o povo à terra prometida, onde só há alegria e riqueza, uma grande Miami. A multidão o aclama, em uníssono. Ele anda e a multidão o segue, ávida por suas palavras. E enquanto a multidão o segue e deposita o dízimo na sua capanga, o coração do (ex) terapeuta enche-se de bem-aventurança. Já não lhe faltarão clientes.

Agora, quem se sente miseravelmente só é a Imperatriz. Inconformada com a deserção do ingrato terapeuta, a Imperatriz manda colocar água e flores perfumadas na sua banheira de hidromassagem e se suicida com uma overdose de cocaína, aspirada nas pétalas de uma rosa chá.

 

A história de Stella

Stella acaba de fazer… é melhor não tocar neste assunto, ela não gosta. Na verdade, Stella só fez aniversário, com número no bolo como de praxe, nos verdes anos. Quando a fruta tornou-se Madura, começou a achar que Nelson Rodrigues tinha razão: mulher que confessa a idade, é capaz de qualquer coisa… Fosse ou não, passou a acreditar na máxima.

O certo é que ela deve ter mais do que parece… Bonita, elegante, altiva, forte personalidade, mas gosta de cultivar um ar lânguido pra lembrar “Blanche Dubois”. Aliás, ela é cheia de contrastes. Aprendeu piano classico e a falar francês, como as moças de alta estirpe de sua época, mas tem um pé no bas fond e adora tango.

Stella descende de uma família tradicional do Rio de Janeiro. Sua mãe, Nanette, era francesa e dizem que começou a vida como dançarina de um famoso cabaré em Buenos Aires, onde a conheceu João Henrique – jovem oficial do Exército brasileiro, descendente do Barão de Mauá, dizem!. E, apesar dos protestos da família, com ela se casou. Nanette, bela e sedutora, brilhou nos salões da Capital Federal, exacerbando os ciúmes do marido, irascível e brigão. Falavam as más línguas que Nanette corneava o marido, porém, os mais íntimos do casal, juravam que tal suspeita não passava de preconceito, uma referência ao seu suposto passado de cabaré. E que, na verdade, Nanette era uma esposa dedicada, mãe atenta, e o casal vivia como pombinhos, pois, em casa, a mulher neutralizava o mau gênio do marido às vezes com doçura, outras gritando mais alto do que ele. A única frustração do casal era não ter um filho varão – ao parir Stella, Nanette quase morreu e passou por uma cirurgia que lhe tirou a chance de ter outro filho. Inconformado, João Henrique projetou na filha o seu desejo de um filho homem: costumava chamar Stella de “filho”, ensinou-lhe equitação, esgrima, tiro ao alvo, embora apoiasse Nanette na cruzada de fazer da única filha uma grande dama, destinada a casar-se com algum jovem rico de família abrasonada.

Stella saiu a cara da mãe. Quando criança, tinha jeito de garoto, pois procurava imitar o pai, a quem adorava, mas ousava desafiar sempre que as vontades de um e de outro não coincidiam. Chegada a adolescência, as orientações maternas e os olhares cobiçosos dos homens começaram a fazê-la assumir as posturas do “eterno feminino”. Isto perturbou muito o Coronel João Henrique, que, ameaçado de perder a filha para um pretendente, passou de aliado a pai severo. Assim, Stella, que na infância achava Nanette absolutamente dispensável, agora aliava-se à mãe. Mas jamais perdeu as maneiras destemidas e o temperamento voluntarioso, que, mesclados ao que aprendeu com a mãe, davam-lhe uma aparência meio andrógina, raríssima na época. À beleza juntou-se, então, um charme muito pessoal, irresistível.

Aos 18 anos, concluído o curso normal e o conservatório de piano, estava na hora de pensar em casamento, segundo a mãe. Os pretendentes eram muitos, manifestos em serenatas quase diárias, que tiravam o já debilitado humor do Coronel. Nanette tinha o seu predileto, um jovem médico, de rica e tradicional família paulista. Stella chegou a dar-lhe alguma esperança, mas terminou concordando com o pai, para quem o rapaz era um bunda mole. Passou a rir-se do coitado, como de tantos outros, cujos defeitos eram logo descobertos e ridicularizados. A verdade é que Stella queria mesmo era divertir-se e, apesar das admoestações da mãe para que escolhesse um marido enquanto a messe era farta, não conseguia levar a sério a ideia de casamento. Isto agradava ao Coronel, para maior desespero de Nanette.

Aos 20 anos, Stella continuava solteira e estava decidida a ser atriz. Disto o Coronel não gostou e aliou-se à mulher na guerra doméstica contra o teatro. Mas Stella meteu-se com um grupo de teatro e começou a namorar um ator, para maior desgosto dos pais. “Um ator, um vagabundo. Vocês vão viver de que, menina?”, gritava Nanette, com o seu sotaque francês. Stella ria-se de tão absurda pergunta. Estava apaixonada. Vinicius, o ator, tinha 26 anos e era o galã do grupo. Demasiado bonito e delicado pra ser homem, segundo o Coronel, Vinicius parecia gostar mesmo de mulher e estava visivelmente apaixonado por Stella. Fugiram e casaram-se.

Stella entrou para o grupo de teatro, fazendo par romântico com o marido. Formaram um casal de lindos canastrões, que faziam enorme sucesso. Dois anos depois de casados, Stella engravidou e durante os últimos meses de gravidez afastou-se do teatro. Por manobra do destino, neste momento entrou para o grupo um belo mancebo de 18 anos, que atendia pela alcunha de Baby. Não durou muito e logo começaram os boatos de que Vinicius e Baby estavam de caso. Stella imprensou Vinicius e teve a confirmação. O casamento rompeu-se, na vida e no palco. Profundamente magoada, Stella saiu do grupo de teatro, resolvida a deixar o palco. Lúcida, avaliou: não será uma grande perda para o teatro. Os amigos protestaram, mas ela foi irredutível.

O desenlace não surpreendeu o Coronel João Henrique, para quem aquele rapaz era um tanto estranho. Apoiou a filha, inclusive financeiramente até que esta arranjasse um trabalho. Logo Stella estava dando aulas de francês, com as quais conseguiu garantir o sustento seu e do filho, Alfredo.

Stella teve muitos namorados, mas não quis mais se casar. Dizia, com um sorriso irônico, que a casa era pequena demais para três. Na verdade, resolvera não dividir mais a sua vida com ninguém. Adorava viajar e reservava todas as suas economias para as viagens. Quando Alfredinho era ainda muito pequeno, ficava com os avós. Depois, passou a viajar com a mãe, que, eventualmente se fazia acompanhar por um namorado. Amava o filho, mas não era escrava do amor materno. Ensinava o filho a ser também independente, porém nisso, não teve muito sucesso, pois Alfredinho era absolutamente fixado em Stella.

Com o coração na estrada – (3 – final)

Belém é uma cidade cheia de cheiros de muitas essências. Sobre as ruas, mangueiras centenárias se abraçam, formando túneis imensos. Há uma sensualidade contagiante no ar.

Durante meses, Dalila ocupa-se quase exclusivamente do cerco a Suiá. Segue-a dia e noite, escreve-lhe e lhe telefona diariamente. A princípio, a disc-jockey a trata como uma simples fã, mas passa a esperar com ansiedade as cartas e telefonemas. A certa altura, começa a pedir que a outra se identifique. Em vez disso, Dalila corta o contato por uma semana. Suiá torna-se super irritada, supondo-se numa crise de TPM… E quando a outra retorna o contato, a disc-jockey propõe de imediato um encontro.

Finalmente, estão as duas mulheres frente a frente, à luz mortiça da mesa de um restaurante. Olham-se e têm ambas a mesma sensação: conhecem-se, embora jamais se tenham encontrado antes daquela troca de olhares através da vitrine da loja de chocolates. Mas a conversa corre fragmentada,  como se disfarçasse o desejo de uma aproximação maior. Há um estranhamento a perpassar frases inacabadas. Nenhuma delas percebe o que está acontecendo.

Mas alguém parece perceber. Na mesa do canto esquerda, na penumbra de um abajur lilás, uma velha senhora observa atentamente as duas mulheres. Súbito, no lugar de Dalila e Suiá, ela vê um casal: a mulher é, sem dúvida, a disc-jockey, embora em trajes de uma época passada, mas na cadeira de Dalila, está um homem.  Há entre eles um clima de intensa paixão.

Imagens de presente e passado se alternam aos olhos da velha senhora, tal qual um filme. Das duas mulheres conversando corta para aquele homem beijando a boca de Suiá e, em seguida, para outra mulher que, enlouquecida, descarrega a pistola sobre o casal. Suiá cai aos prantos sobre o amante agonizante.

As duas mulheres pagam a conta. Parecem íntimas e extremamente felizes. Saem do restaurante.

Através da vidraça, a velha vê Suiá e o homem a se distanciarem, abraçados.

Com o coração na estrada (2)

(continuação)

“Pra você, caminhoneiro, aí solitário na boleia do seu caminhão, o silêncio da noite trazendo lembranças da mulher que o olhou naquela parada para o café com coca-cola, este bolero…”, diz a locutora de voz acariciante. Naquela hora, o rádio de todos os caminhões está ligado no programa “Com o Coração na Estrada”. Só Dalila não sabe se gosta ou odeia aquele programa. Gosta, sim, das músicas, mas a voz da locutora a perturba. Liga e desliga o rádio, como se sentisse atração e repulsa. O velho Soares já nem se irrita mais com este capricho da filha, limita-se a fazer um muchocho e a perguntar: “por que você não muda de estação?” Ela não sabe, nunca soube. É sempre assim, como se aquela voz lhe trouxesse um pressentimento. Bom?, ruim? Não sabe. Algo como um chamado.
Dalila despertou de um cochilo ao sentir que o caminhão saía, de repente, da estrada. Assustada, voou no volante e bateu no corpo inerte do pai. Estava morto o velho Soares.
À frente da frota, vão agora Dalila e seu filho de 5 anos, Aruan (registrado Aruan de Dalila), que em tupi significa mel. Inteligente, engraçado, meigo, Aruan é realmente mel. Tem com a mãe uma ligação semelhante a que Dalila teve com o velho Soares. Faz-se acompanhar de um papagaio, que só fala de inteligível “meu bem”.
Aruan é um apaixonado pelo rádio, especialmente pela locutora de voz acariciante. Briga com a mãe cada vez que ela tenta desligar o rádio na hora do programa “Com o Coração na Estrada”. Afirma conhecer a locutora e a descreve com as características da mãe.
Sempre que chegam a Belém, Dalila e Aruan vão a uma loja de chocolates. Numa das vezes, no momento em que compram chocolates, Dalila é atraída pelo olhar de uma mulher que está do outro lado da vitrine. Ao virar-se para pagar a conta, a mulher desaparece. Ela corre para a porta da loja, vê a mulher de costas, distanciando-se. Tenta segui-la, mas perde-a no meio dos transeuntes. De agora em diante, aquele rosto voltará à sua mente de maneira perturbadora.
Um acidente que danificou seriamente um caminhão e a ameaça de falência, levam a família Soares à decisão de vender a frota. Inconformada, Dalila resolve mudar-se para Belém. À tristeza da perda de sua frota mistura-se a excitação de uma esperança: descobrir aquela mulher. Porquê, para quê, ela não sabe. É como se fosse algo inevitável, coisa do destino, que não se fez esperar: ainda na viagem de Altamira para Belém, Aruan vê, numa revista, a reportagem sobre uma disc-jockey, que ele alegremente identifica como sendo “aquela locutora”. E assim, Dalila tem diante de si a foto da mulher que procura. Não havia dúvida, era ela, a locutora, que não era só uma locutora, mas uma famosa disc-jockey da capital. Suiá, chamava-se, casada com um dos donos da emissora, mãe de três filhos lindos, dizia a reportagem.

Com o Coração na Estrada (1)

A maioria destas “acontecências” se passam a meio caminho entre Altamira e a capital do Pará, onde se estende a Transamazônica, com sua pista estreita, barrenta, pontes precárias que as chuvas desmontam, despenhadeiros.

Em Altamira, o velho Soares é proprietário de uma frota de caminhões de transporte. Homem feliz, bonachão, fiel à esposa, com quem tem três filhos: dois varões e Dalila, a primogênita e predileta do pai. Em um mundo de machos, foi Dalila que o velho Soares escolheu para acompanhá-lo nas longas e acidentadas viagens pela Transamazônica. Com o pai, ela aprendeu a dirigir e a caçar. Aos 17 anos, já pilotava os caminhões de carga e, armada de uma bereta, desafiava os motoristas da frota na caça para o almoço à beira da estrada. Botas de cano longo, enfiava-se no mato com o bando de homens e, para orgulho do velho, era quase sempre quem trazia as melhores caças.

Dalila tornou-se uma espécie de talismã da frota. Os motoristas acreditavam que os acidentes só ocorriam quando a moça não estava ao lado do velho Soares na liderança da frota. Superstição, talvez, mas o certo é que havia algo misterioso na figura ambígua de Dalila, que manejava uma arma com a mesma simplicidade com que embalava uma criança: bonita, corpo ágil e esbelto, maneiras delicadas, jeito doce mas extremamente decidido de olhar, um quê de profundezas de rio mesclado a uma energia de fogo. Em Dalila, o masculino e o feminino conviviam numa perfeita harmonia.

Mas o curioso é que, com ela, as coisas pareciam acontecer sem aviso prévio. Certa noite, sentiu-se mal subitamente no meio da estrada e, para espanto de todos, pariu um bebê. Naquele mundo de homens, ninguém percebera o estado da moça, até porque nem mesmo o pai jamais soubera de qualquer envolvimento da filha com algum homem. No momento do parto, vida e morte se aproximam, quando Dalila tem uma visão do amante sendo assassinado.

Alguns meses depois, ela confia o filho aos cuidados da mãe e volta ao trabalho. A ausência do talismã deixara a frota a mercê dos acidentes.

Naqueles poucos meses, o velho Soares perdeu dois caminhões, sendo que um deles rolou o despenhadeiro, inutilizando a carga e matando o motorista.

Novamente lado a lado na solidão da estrada, o velho Soares só então toma conhecimento da história de amor entre a filha e um homem que passou por

Altamira e alí foi assassinado, ninguém sabe porquê. Esta história folhetinesca, narrada por Dalila, deixa no ar uma indagação: realidade ou ficção? Sem dúvida, existe uma criança, fruto desse romance, mas foi assim mesmo que as coisas aconteceram? Ou Dalila quer esconder, com uma fantasia, os verdadeiros fatos?

Continua na próxima semana

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