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28/07/2017
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Isis Baião

A história de Stella

Stella acaba de fazer… é melhor não tocar neste assunto, ela não gosta. Na verdade, Stella só fez aniversário, com número no bolo como de praxe, nos verdes anos. Quando a fruta tornou-se Madura, começou a achar que Nelson Rodrigues tinha razão: mulher que confessa a idade, é capaz de qualquer coisa… Fosse ou não, passou a acreditar na máxima.

O certo é que ela deve ter mais do que parece… Bonita, elegante, altiva, forte personalidade, mas gosta de cultivar um ar lânguido pra lembrar “Blanche Dubois”. Aliás, ela é cheia de contrastes. Aprendeu piano classico e a falar francês, como as moças de alta estirpe de sua época, mas tem um pé no bas fond e adora tango.

Stella descende de uma família tradicional do Rio de Janeiro. Sua mãe, Nanette, era francesa e dizem que começou a vida como dançarina de um famoso cabaré em Buenos Aires, onde a conheceu João Henrique – jovem oficial do Exército brasileiro, descendente do Barão de Mauá, dizem!. E, apesar dos protestos da família, com ela se casou. Nanette, bela e sedutora, brilhou nos salões da Capital Federal, exacerbando os ciúmes do marido, irascível e brigão. Falavam as más línguas que Nanette corneava o marido, porém, os mais íntimos do casal, juravam que tal suspeita não passava de preconceito, uma referência ao seu suposto passado de cabaré. E que, na verdade, Nanette era uma esposa dedicada, mãe atenta, e o casal vivia como pombinhos, pois, em casa, a mulher neutralizava o mau gênio do marido às vezes com doçura, outras gritando mais alto do que ele. A única frustração do casal era não ter um filho varão – ao parir Stella, Nanette quase morreu e passou por uma cirurgia que lhe tirou a chance de ter outro filho. Inconformado, João Henrique projetou na filha o seu desejo de um filho homem: costumava chamar Stella de “filho”, ensinou-lhe equitação, esgrima, tiro ao alvo, embora apoiasse Nanette na cruzada de fazer da única filha uma grande dama, destinada a casar-se com algum jovem rico de família abrasonada.

Stella saiu a cara da mãe. Quando criança, tinha jeito de garoto, pois procurava imitar o pai, a quem adorava, mas ousava desafiar sempre que as vontades de um e de outro não coincidiam. Chegada a adolescência, as orientações maternas e os olhares cobiçosos dos homens começaram a fazê-la assumir as posturas do “eterno feminino”. Isto perturbou muito o Coronel João Henrique, que, ameaçado de perder a filha para um pretendente, passou de aliado a pai severo. Assim, Stella, que na infância achava Nanette absolutamente dispensável, agora aliava-se à mãe. Mas jamais perdeu as maneiras destemidas e o temperamento voluntarioso, que, mesclados ao que aprendeu com a mãe, davam-lhe uma aparência meio andrógina, raríssima na época. À beleza juntou-se, então, um charme muito pessoal, irresistível.

Aos 18 anos, concluído o curso normal e o conservatório de piano, estava na hora de pensar em casamento, segundo a mãe. Os pretendentes eram muitos, manifestos em serenatas quase diárias, que tiravam o já debilitado humor do Coronel. Nanette tinha o seu predileto, um jovem médico, de rica e tradicional família paulista. Stella chegou a dar-lhe alguma esperança, mas terminou concordando com o pai, para quem o rapaz era um bunda mole. Passou a rir-se do coitado, como de tantos outros, cujos defeitos eram logo descobertos e ridicularizados. A verdade é que Stella queria mesmo era divertir-se e, apesar das admoestações da mãe para que escolhesse um marido enquanto a messe era farta, não conseguia levar a sério a ideia de casamento. Isto agradava ao Coronel, para maior desespero de Nanette.

Aos 20 anos, Stella continuava solteira e estava decidida a ser atriz. Disto o Coronel não gostou e aliou-se à mulher na guerra doméstica contra o teatro. Mas Stella meteu-se com um grupo de teatro e começou a namorar um ator, para maior desgosto dos pais. “Um ator, um vagabundo. Vocês vão viver de que, menina?”, gritava Nanette, com o seu sotaque francês. Stella ria-se de tão absurda pergunta. Estava apaixonada. Vinicius, o ator, tinha 26 anos e era o galã do grupo. Demasiado bonito e delicado pra ser homem, segundo o Coronel, Vinicius parecia gostar mesmo de mulher e estava visivelmente apaixonado por Stella. Fugiram e casaram-se.

Stella entrou para o grupo de teatro, fazendo par romântico com o marido. Formaram um casal de lindos canastrões, que faziam enorme sucesso. Dois anos depois de casados, Stella engravidou e durante os últimos meses de gravidez afastou-se do teatro. Por manobra do destino, neste momento entrou para o grupo um belo mancebo de 18 anos, que atendia pela alcunha de Baby. Não durou muito e logo começaram os boatos de que Vinicius e Baby estavam de caso. Stella imprensou Vinicius e teve a confirmação. O casamento rompeu-se, na vida e no palco. Profundamente magoada, Stella saiu do grupo de teatro, resolvida a deixar o palco. Lúcida, avaliou: não será uma grande perda para o teatro. Os amigos protestaram, mas ela foi irredutível.

O desenlace não surpreendeu o Coronel João Henrique, para quem aquele rapaz era um tanto estranho. Apoiou a filha, inclusive financeiramente até que esta arranjasse um trabalho. Logo Stella estava dando aulas de francês, com as quais conseguiu garantir o sustento seu e do filho, Alfredo.

Stella teve muitos namorados, mas não quis mais se casar. Dizia, com um sorriso irônico, que a casa era pequena demais para três. Na verdade, resolvera não dividir mais a sua vida com ninguém. Adorava viajar e reservava todas as suas economias para as viagens. Quando Alfredinho era ainda muito pequeno, ficava com os avós. Depois, passou a viajar com a mãe, que, eventualmente se fazia acompanhar por um namorado. Amava o filho, mas não era escrava do amor materno. Ensinava o filho a ser também independente, porém nisso, não teve muito sucesso, pois Alfredinho era absolutamente fixado em Stella.

Com o coração na estrada – (3 – final)

Belém é uma cidade cheia de cheiros de muitas essências. Sobre as ruas, mangueiras centenárias se abraçam, formando túneis imensos. Há uma sensualidade contagiante no ar.

Durante meses, Dalila ocupa-se quase exclusivamente do cerco a Suiá. Segue-a dia e noite, escreve-lhe e lhe telefona diariamente. A princípio, a disc-jockey a trata como uma simples fã, mas passa a esperar com ansiedade as cartas e telefonemas. A certa altura, começa a pedir que a outra se identifique. Em vez disso, Dalila corta o contato por uma semana. Suiá torna-se super irritada, supondo-se numa crise de TPM… E quando a outra retorna o contato, a disc-jockey propõe de imediato um encontro.

Finalmente, estão as duas mulheres frente a frente, à luz mortiça da mesa de um restaurante. Olham-se e têm ambas a mesma sensação: conhecem-se, embora jamais se tenham encontrado antes daquela troca de olhares através da vitrine da loja de chocolates. Mas a conversa corre fragmentada,  como se disfarçasse o desejo de uma aproximação maior. Há um estranhamento a perpassar frases inacabadas. Nenhuma delas percebe o que está acontecendo.

Mas alguém parece perceber. Na mesa do canto esquerda, na penumbra de um abajur lilás, uma velha senhora observa atentamente as duas mulheres. Súbito, no lugar de Dalila e Suiá, ela vê um casal: a mulher é, sem dúvida, a disc-jockey, embora em trajes de uma época passada, mas na cadeira de Dalila, está um homem.  Há entre eles um clima de intensa paixão.

Imagens de presente e passado se alternam aos olhos da velha senhora, tal qual um filme. Das duas mulheres conversando corta para aquele homem beijando a boca de Suiá e, em seguida, para outra mulher que, enlouquecida, descarrega a pistola sobre o casal. Suiá cai aos prantos sobre o amante agonizante.

As duas mulheres pagam a conta. Parecem íntimas e extremamente felizes. Saem do restaurante.

Através da vidraça, a velha vê Suiá e o homem a se distanciarem, abraçados.

Com o coração na estrada (2)

(continuação)

“Pra você, caminhoneiro, aí solitário na boleia do seu caminhão, o silêncio da noite trazendo lembranças da mulher que o olhou naquela parada para o café com coca-cola, este bolero…”, diz a locutora de voz acariciante. Naquela hora, o rádio de todos os caminhões está ligado no programa “Com o Coração na Estrada”. Só Dalila não sabe se gosta ou odeia aquele programa. Gosta, sim, das músicas, mas a voz da locutora a perturba. Liga e desliga o rádio, como se sentisse atração e repulsa. O velho Soares já nem se irrita mais com este capricho da filha, limita-se a fazer um muchocho e a perguntar: “por que você não muda de estação?” Ela não sabe, nunca soube. É sempre assim, como se aquela voz lhe trouxesse um pressentimento. Bom?, ruim? Não sabe. Algo como um chamado.
Dalila despertou de um cochilo ao sentir que o caminhão saía, de repente, da estrada. Assustada, voou no volante e bateu no corpo inerte do pai. Estava morto o velho Soares.
À frente da frota, vão agora Dalila e seu filho de 5 anos, Aruan (registrado Aruan de Dalila), que em tupi significa mel. Inteligente, engraçado, meigo, Aruan é realmente mel. Tem com a mãe uma ligação semelhante a que Dalila teve com o velho Soares. Faz-se acompanhar de um papagaio, que só fala de inteligível “meu bem”.
Aruan é um apaixonado pelo rádio, especialmente pela locutora de voz acariciante. Briga com a mãe cada vez que ela tenta desligar o rádio na hora do programa “Com o Coração na Estrada”. Afirma conhecer a locutora e a descreve com as características da mãe.
Sempre que chegam a Belém, Dalila e Aruan vão a uma loja de chocolates. Numa das vezes, no momento em que compram chocolates, Dalila é atraída pelo olhar de uma mulher que está do outro lado da vitrine. Ao virar-se para pagar a conta, a mulher desaparece. Ela corre para a porta da loja, vê a mulher de costas, distanciando-se. Tenta segui-la, mas perde-a no meio dos transeuntes. De agora em diante, aquele rosto voltará à sua mente de maneira perturbadora.
Um acidente que danificou seriamente um caminhão e a ameaça de falência, levam a família Soares à decisão de vender a frota. Inconformada, Dalila resolve mudar-se para Belém. À tristeza da perda de sua frota mistura-se a excitação de uma esperança: descobrir aquela mulher. Porquê, para quê, ela não sabe. É como se fosse algo inevitável, coisa do destino, que não se fez esperar: ainda na viagem de Altamira para Belém, Aruan vê, numa revista, a reportagem sobre uma disc-jockey, que ele alegremente identifica como sendo “aquela locutora”. E assim, Dalila tem diante de si a foto da mulher que procura. Não havia dúvida, era ela, a locutora, que não era só uma locutora, mas uma famosa disc-jockey da capital. Suiá, chamava-se, casada com um dos donos da emissora, mãe de três filhos lindos, dizia a reportagem.

Com o Coração na Estrada (1)

A maioria destas “acontecências” se passam a meio caminho entre Altamira e a capital do Pará, onde se estende a Transamazônica, com sua pista estreita, barrenta, pontes precárias que as chuvas desmontam, despenhadeiros.

Em Altamira, o velho Soares é proprietário de uma frota de caminhões de transporte. Homem feliz, bonachão, fiel à esposa, com quem tem três filhos: dois varões e Dalila, a primogênita e predileta do pai. Em um mundo de machos, foi Dalila que o velho Soares escolheu para acompanhá-lo nas longas e acidentadas viagens pela Transamazônica. Com o pai, ela aprendeu a dirigir e a caçar. Aos 17 anos, já pilotava os caminhões de carga e, armada de uma bereta, desafiava os motoristas da frota na caça para o almoço à beira da estrada. Botas de cano longo, enfiava-se no mato com o bando de homens e, para orgulho do velho, era quase sempre quem trazia as melhores caças.

Dalila tornou-se uma espécie de talismã da frota. Os motoristas acreditavam que os acidentes só ocorriam quando a moça não estava ao lado do velho Soares na liderança da frota. Superstição, talvez, mas o certo é que havia algo misterioso na figura ambígua de Dalila, que manejava uma arma com a mesma simplicidade com que embalava uma criança: bonita, corpo ágil e esbelto, maneiras delicadas, jeito doce mas extremamente decidido de olhar, um quê de profundezas de rio mesclado a uma energia de fogo. Em Dalila, o masculino e o feminino conviviam numa perfeita harmonia.

Mas o curioso é que, com ela, as coisas pareciam acontecer sem aviso prévio. Certa noite, sentiu-se mal subitamente no meio da estrada e, para espanto de todos, pariu um bebê. Naquele mundo de homens, ninguém percebera o estado da moça, até porque nem mesmo o pai jamais soubera de qualquer envolvimento da filha com algum homem. No momento do parto, vida e morte se aproximam, quando Dalila tem uma visão do amante sendo assassinado.

Alguns meses depois, ela confia o filho aos cuidados da mãe e volta ao trabalho. A ausência do talismã deixara a frota a mercê dos acidentes.

Naqueles poucos meses, o velho Soares perdeu dois caminhões, sendo que um deles rolou o despenhadeiro, inutilizando a carga e matando o motorista.

Novamente lado a lado na solidão da estrada, o velho Soares só então toma conhecimento da história de amor entre a filha e um homem que passou por

Altamira e alí foi assassinado, ninguém sabe porquê. Esta história folhetinesca, narrada por Dalila, deixa no ar uma indagação: realidade ou ficção? Sem dúvida, existe uma criança, fruto desse romance, mas foi assim mesmo que as coisas aconteceram? Ou Dalila quer esconder, com uma fantasia, os verdadeiros fatos?

Continua na próxima semana

O Retorno (uma história de outros tempos)

 

“Por favor, não desligue”, suplica a voz do outro lado da linha. Uma voz de mulher, remotamente conhecida. Ao apelo, segue-se a identificação, Vânia de Albuquerque, e frases entrecortadas pelo choro, pedidos de perdão em formas diversas. Há 30 anos que Telma não ouvia aquela voz. Chora também. Sim, perdoa. Doeu, mas faz tanto tempo! Esqueceu. Não, não tem mágoa e poderão encontrar-se daí a pouco. Desliga. Tremem-lhe as mãos. Como num filme, vêm-lhe imagens nítidas de um passado longínquo:

Um pequeno talho no indicador e os dedos se juntam. Pronto, está feito o pacto de sangue. Serão amigas para sempre.

Eram da mesma idade, embora Telma parecesse mais velha, pois, aos 10 anos, já tinha uma desenvoltura que lhe fazia passar por uma adolescente.

Aos 15 anos, cursavam juntas o Normal. A saída do colégio era sempre uma festa. Os garotos passeavam de bicicleta na calçada, esperando as meninas. Vânia e Telma também tinham bicicletas, mas seus namorados nunca estavam na calçada, à vista das freiras que espionavam do 2º andar. Luis e Fernando as esperavam a algumas quadras do colégio. Vânia namorava Fernando, que tinha namorado Telma. Gostavam de trocar entre si os namorados. Ciúmes, só tinham uma da outra.

Vânia tentou convencer Telma a fazer Pedagogia, mas Telma estava decidida a ser atriz. Choraram abraçadas e depois riram muito. Não havia motivo para tanto drama. Iam separar apenas as escolas e as salas de aula.

Mal entrou para a Curso de Teatro, Telma já estava nos palcos. Tinha talento e sorte. Um diretor de cinema do Rio, que filmava na região, convidou-a para um pequeno papel. Os jornais estamparam sua foto beijando um astro nacional. Glória, que logo se torna escândalo na sociedade local, ainda provinciana. Os pais de Vânia, de tradicional família de fazendeiros, pressionam a filha para que se afaste de Telma. Vânia reage: jamais deixará a amiga, com quem fez um pacto de sangue. Mas logo entrará em cena o tenente Virgílio Andrade para mudar o rumo da história.

Telma volta correndo de um Festival de Teatro no Sul para assistir ao casamento de Vânia e Virgílio. Mas recebe um telefonema lacônico da amiga, pedindo-lhe que não vá ao casamento e que nunca mais a procure…

Segue-se a vida. Telma casa-se com um músico do Rio e começa a fazer carreira nos palcos cariocas. Vânia cria filhos, enquanto Virgílio se diverte nos bordéis da cidade. Nas longas noites de insonia, Vânia procura em jornais e revistas da metrópole notícias da amiga. Recorta todas, mesmo as mais tolas.

A vida de Vânia é agora um inferno. Virgílio tornou-se violento, espanca-a frequentemente. Ela quer a separação, mas o marido ameaça matá-la. Numa das surras, porém, ele quase a mata. Ela deduz que será melhor morrer em liberdade e foge de casa com os filhos. Seus pais contratam um segurança para defendê-la do marido enfurecido. Neste exato momento, Telma de Aquino

chega à terra natal, liderando o elenco de um espetáculo em tournée pelas capitais do Nordeste.

E aqui retomamos o início desta estória, quando a atriz recebe o telefonema da amiga. Suas lembranças são interrompidas pela chegada de um grupo de jornalistas e câmeras de TV.

Enquanto isso, Virgílio sequestra Vânia. Ela se joga do carro em movimento e morre. Virgílio foge.

Quando está de saída para ir ao encontro da amiga, Telma recebe a notícia de que Vânia está morta.

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