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28/07/2017
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B-R-O-BRÓ

Cabrobó: o lugar, uma lógica e vários sentidos

texto de José Elielton de Sousa

(Filosofia/UFPI)

 

Há muitas narrativas sobre como nós, os piauienses, nos tornamos o que somos. Uma delas remete a um povo primitivo e selvagem que foi “descoberto” pelos europeus “civilizados”, graças aos quais passamos a fazer parte da história e da cultura humana – leia-se, do colonizador! E mais interessante do que isso é o fato de que a primeira “instituição” formal dessa “cultura civilizada” a ser instalada em nosso território foi uma fazenda de gado. Isso mesmo que você leu! Não foi um quartel, uma igreja ou uma escola, mas uma fazenda de gado – a Fazendo Cabrobó, que deu origem ao núcleo populacional da Vila da Mocha, primeira capital do Piauí, hoje cidade de Oeiras.

A fazenda – o lugar, os objetos e riquezas, o poder – é uma concessão pública para fins privados, governada por um donatário vitalício, que a conduz “com rédeas curtas”, numa relação de assenhoramento através da força, que de tão brutal, muitas vezes a diferença entre pessoas e animais desaparece. É quando o chicote domestica o animal humano, o cabresto e as rédeas do seu senhor o disciplinam e a morte matada está sempre próxima. E isso obviamente não mudará na casa-grande e muito menos no armazém.

E é justamente com base nessa lógica da criação de bovinos que, em grande medida, se organiza e se consolida as instituições sociais piauienses, suas relações de poder e até mesmo nossa cidadania. Essa colonização explícita dos corpos, seu disciplinamento, torna-os meros animais de rebanho mansos e servis, presas fáceis para aqueles que sempre nos expropriaram e violentaram. Acostumados a empunhar o chicote, o coronelado transforma privilégio em direito, resistência em crime e dignidade em mordomia. Daí nosso provincianismo, nosso saudosismo de uma época que nunca nos pertenceu, nossa cidadania quase sempre passiva e acanhada, muitas vezes complacente com essa lógica de rebanho.

Mas nem todas as possibilidades estão esgotadas nessa narrativa. É preciso aprofundá-la para superá-la, para vislumbrar outras redescrições. Uma fazenda não se reduz ao seu dono, por exemplo. Muito pelo contrário, ele é o menos necessário dos seus elementos constituintes. Sua materialidade é propriamente o gado, a rês, expressão bruta de força, beleza e resistência. Bicho brabo, traz no corpo sua potencialidade, instinto que não se deixa domesticar e mesmo quando abatido, cai berrando. Quando não, se encanta, vira lenda, festividade, folclore e subverte a ordem das coisas – nem todo gado, apesar de certa tendência gregária, pode ser domesticado.

E quando o animal se torna um com o humano, numa metamorfose em que o último se veste com o primeiro, a materialidade ganha sentido. O vaqueiro sob ordens do patrão é algoz e manada, mas livre da coerção, é quem sabe lidar com o animal, chamá-lo pelo nome. Ele também sabe do tempo da natureza e seus ciclos, das fontes e dos pastos, das veredas e armadilhas, da vida e da morte – ele é uno com o lugar e o animal: a eles pertence e deles “descende”. Quando ciente disso, torna-se aquilo que é: cuidador de rebanhos.

É, parece que a fazenda diz muito sobre nós! Mas para aceitar essa provocação, entretanto, faz-se necessário aquilo que Nietzsche chamou de qualidades bovinas: a arte de ruminar.

 

Leitmotiv: a filosofia sob os meus pés

Por Nayara Barros – professora de Filosofia

 

Borges disse que é impossível ler, senão reler. O escritor argentino teve um período relativamente curto para reler, se admitíssemos que só se lê com os olhos: ficou cego aos 55 anos, tendo vivido até os 89. Ampliando um pouco a sua afirmação, posso reforçá-la dizendo que sim reler é um exercício fundamental, mesmo que sem os olhos. Borges relia com a memória e com o restante do corpo em ação no mundo, tendo viajado bastante. Eu, por acaso, releio também a partir dos pés. Pelo menos é o que andei concluindo desse meu percurso de 32 anos andando pelas ruas da cidade de Teresina, no Piauí.

Não tenho carro. Uso, mas não gosto do transporte público da cidade, que serve alegremente de carrasco da população, especialmente em tempos de b-r- ó -bró. Maltrata e mal conduz onde precisamos ir. Contudo, esse ensaio não é sobre transporte público, apesar dele ter sido peça fundamental da minha constante releitura sobre a cidade de Teresina.

Em meio ao chacoalhar do ônibus, em caminhos ordinariamente repetitivos desde os tempos de escola, os meus pés conduziram o meu olhar à medida que o tempo passava. Se quando eu era criança, acompanhada da minha mãe e dos meus irmãos, importava ver da janela as fontes da Frei Serafim e o rio Parnaíba, quando adolesci pude refazer esses caminhos sozinha e começar a expandir minhas sensações e pensamento sobre a cidade, ponto de partida para o mundo que eu conhecia pelos livros que estudava.

Eu fui uma criança e uma adolescente tímida, o que eu suspeito que tornou a experiência de solitude enriquecida (talvez em alguns pontos hipertrofiada) naquele meu caminhar um tanto quanto forçado. Caminhava da escola, no bairro ilhotas, até a parada de ônibus na Frei Serafim, ou suspirava chateada por ter que caminhar mais um pouco de lá até próximo da igreja São Benedito, porque havia perdido o ônibus- na tentativa de alcançar um outro.

No final da adolescência, fui presenteada com mais uma expansão do meu mundo geograficamente vivido: a zona leste e um outro lado da zona norte- o que eu não morava. O Universidade Circular me propiciou um outro tipo de vivência da cidade. Ele me (re)apresentou a pobreza da região mais tradicional da cidade, Poti, São Joaquim, Matadouro e Pirajá, simultaneamente ao isolamento da região mais nobre, a até então quase desconhecida: Ininga, Jóquei, Fátima. Foram anos experenciando com quem eu observava, a dinâmica da cidade e do mundo, a partir dos usuários dos ônibus e dos moradores dos bairros da cidade. Desde então meus pés procuraram sempre esmiuçar cada vez mais o que o percurso do ônibus me sinalizava.

E sempre foi incrível me permitir ser atravessada com o que lia nos livros e o que via do meu mundo. Muitas vezes coincidia, outras vezes me deixava com uma certa suspeita, que mais adiante se apresentava como um nó que, caso eu conseguisse desatar, desdobrava inúmeros caminhos outros, que eu ainda não havia pisado.

Em todos esses anos de deslocamento por exigência da vida, eu jamais fiz o mesmo caminho nessa cidade. Ela me perturbou a existência desde muito nova e me provocou a partir de suas dicotomias, tão óbvias para quem lhe sente sob os pés: seca e chuva, miséria e ostentação, amor e ódio, amizade sincera e bajulação, exploração e resistência, violência e acolhimento, espiritualidade e manipulação, criação e morte. Em todos esses anos, Teresina foi o meu grande tema de pensamento. Ela capturou meu corpo em percursos aparentemente repetitivos, mas que, de fato, são meu ponto de partida para começar a perceber e apontar o que surge do meio dos escombros do fantasma do século passado, cuja poeira termina de baixar. Se leio europeus, estadunidenses e mesmo brasileiros como exigência do doutorado que faço, é do chão de Teresina que meus questionamentos se alimentam. Essa terra dura e de excelentes exemplares de gentes difíceis e de gentes queridas, uma pura potência que se revela quando se tem a paciência de passar muitas e muitas vezes pelo mesmo caminho. As reflexões sobre o Mundo que trarei, fazendo companhia aos parceiros de coluna B-R-Ó-BRÓ, terão como pano de fundo o meu telurismo irremediável, meu leitmotiv. A cidade de Teresina e o estado do Piauí me parecem ser os melhores antídotos para um saber que costuma ser acusado de se refugiar em uma torre de marfim ou de se perder no meio das nuvens.

B-R-O-BRÓ: filosofia e um monte de coisas

As diversas manifestações do pensamento humano, sejam elas expressas através das mais variadas formas de linguagem escrita ou oral, ou ainda através de artefatos ou objetos simbólicos, trazem consigo as marcas de seu tempo, as características do lugar em que foram gestadas e as particularidades de quem as vivencia.

Longe de ser um problema, é justamente isso que faz com que o pensamento não se descole da realidade, se perdendo num emaranhado abstrato de teorias e fórmulas que nada dizem sobre o que nos cercam. Num mundo em que determinados padrões hegemônicos tendem a ser impor globalmente, qualquer reflexão que se pretenda crítica não pode prescindir dessa condição, sob pena de tornar-se insignificante e sem sentido.

Assim, quando utilizamos o termo B-R-O-BRÓ não estamos nos referindo somente ao apelido popular para um fenômeno climático de uma determinada época do ano numa região geográfica específica, no caso, a cidade nordestina de Teresina, capital do Piauí. Estamos chamando atenção para um signo que pode nos permitir adentrar um conjunto de conteúdos cujo significado caracteriza o modo de ser, pensar e agir de sujeitos historicamente situados, através de processos materiais, políticos e culturais cotidianos, “os produtos dialéticos de um mundo global em movimento” e um monte de outras coisas ainda por se manifestar.

É a isso que este espaço se destina.

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