Revestrés

24/11/2017
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B-R-O-BRÓ

Um dia sem uma poesia já me parece um dia perdido

Amilton Cavalcante

Filosofia

 

Um dia sem uma poesia já me parece um dia perdido, parece que estou tentando explicar o mundo pela poesia, talvez partindo dela para este fim, talvez vivendo nela para suportar o fato de nunca tê-lo alcançado, talvez nem isto nem aquilo; que parece agora que quero fugir da ideia, que me passou pela mente e arrastou alguma coisa com ela, que todo poeta é um músico frustrado e todo músico alcançou seus maiores anseios poéticos. Mas por que fazemos isto ou por que falamos assim? Para ser mais direto: temos a propensão de pensarmos que um poema em que se tira a sua musicalidade, caso ele tenha tido alguma, ainda que, possivelmente, menos ou não agradável mais aos ouvidos, continua a ser poesia, e uma música em que se tira sua poética, continua a ser música, ainda que, possivelmente, não nos agrade mais; por que a música mesma não seria ainda, poesia? Temos propensão a elogiar uma coisa como poética, à medida que ela nos impacta de forma eloquente e metafórica, que somos impressionados pela sua forma de se insinuar aos nossos sentidos e instigar nossa reflexão, dizemos que certa imagem de um desenho animado é poética, que uma fotografia é poética, que uma cena de movimento e fala de atores é poética, que certas palavras são poéticas…, mas por que mesmo as imagens, a fotografia, a cena, as palavras não são mesmo “Poesia”?… Por que é acessório e não essencial? Por que é adjetivo e não substantivo? Supondo-se que, em geral, adjetivamos uma coisa para descrevê-la ou rodear outra de descrições, e substantivamos para dizer o que ela é. A “poética” é uma forma de elogio comumente em uso, mas poesia mesmo, o que pensamos que seja? E esta é a questão mais difícil em que agora nos pomos, a verdade é, me parece, que vemos o fazer poético tal como olhamos o poeta, com a pretensão que ele seja como queremos vê-lo; pois bem, o poeta é para nós um tipo de escritor, que se faz a partir de versos escritos, e assim parece que o restringimos a arte da escrita, talvez estejamos excluindo boa parte do seu fazer, para ajustá-lo a um modo corrente de pensamento, com o qual nos sentimos mais cômodos e confortados, por estarmos acostumados a pensar desta forma, mas e o poeta mesmo, o que é para nós? Se é que podemos responder, quando não sabemos ao certo nem o que nós mesmos somos para nós, mas e se formos poetas? O poeta é o que somos ou é o título de uma função que exercemos? Podemos mesmo separar assim a função social que exercemos daquilo que particularmente consideramos que somos? É muito complicado, mas podemos começar por aqui: a identificação, é marca concreta da poesia, nos identificamos com a poesia, seja que a consideremos escrita, imagem, música, atuação etc., por que nos identificamos com algum ponto da vida de quem a escreveu? Neste caso identificamos vida e escrita num só ato ou a escrita como ato concreto de vida, um especial, que ajuda a manter seu criador em pé, com mais firmeza em suas fases e experiências vividas, que o faz mesmo com que ele pareça gravar momentos passageiros de sua vida em marcas que se estendem no tempo, para nós e para a consciência de seus criadores, com aparência de eternidade; assim, podemos dizer que o vemos como alguém sincero quando fala de si mesmo, quando fala na sua forma própria de se expressar, a sinceridade passou então, a ser marca do poeta moderno, quanto ao seu modo de vida e suas ideias, e sinceridade é marca de ser próprio e original, como achamos que deve ser uma figura da qual achamos que deve apresentar um certo tipo de vida excêntrico, diferente, de algum jeito, da maioria, assim é que achamos que conseguimos ser, também, nós mesmos, pessoas mais originais, pois passamos a nos conhecer melhor, eles sabem as melhores palavras para nos descrever, nos sentimos melhores com nós mesmos através da associação que fazemos com as palavras e modos de vida e sentimentos dos criadores de formas próprias de dizer,  dizer-se, pois eles são “especiais”, e acima de tudo, e isto vale para a maioria, são uma boa forma de distração, e mesmo este tempo distrativo que passamos conosco e suas palavras, serve para que nos sintamos mais em nós com nossa interioridade, o que também nos faz sentir que melhor nos conhecemos, passando a nos aceitar, conviver com a coisa que chamamos de “nós-mesmos”, simplesmente nos inspiramos a ser; devemos ver isto melhor, mais de perto ainda, mas também e antes de tudo, a distância, imaginemos que um poeta veja um estranho ou estranha na rua, e sinta por esta pessoa um certo desejo íntimo, o mesmo poderia valer para amigos com os quais conversamos, o mais sincero não seria ir até esta pessoa qualquer e dizermos o que sentimos e queremos? Para que enfeitar com eloquências e palavreados românticos, sensuais, desesperados, furiosos ou rebeldes? Por que diríamos que um poeta, ou qualquer artista que seja, é sincero, se o que ele faz é justamente o contrário e parece representar o cume exemplar daqueles que disfarçam seus impulsos mais básicos? (“baixos”?). Parece-me que o poeta é sincero, mas de uma outra forma, a sua ‘sinceridade’ é diferente do que comumente chamamos de sinceridade, ela não é tão prática e nem guarda em si tantos valores, não basta apenas dizer o que se sente e o que se quer, é preciso algo mais, ela quer mostrar algo mais, e ao mesmo tempo, é menos que apenas conseguir o que se deseja de imediato, ela é insinuação, sinceramente insinuante, e claro, possui o que toda e qualquer tipo de sinceridade possui, isto que nem sempre se percebe, pois toda sinceridade tem um q de desprezo, tem que ser acompanhada por isto para ser o que é, isto é, o que é para nós, e se reforçam em proporções incalculáveis de acordo com cada indivíduo a medida que este se utiliza de sua sinceridade, já que ela é e tem determinado valor para nós, ela é algo para nós que pode não ter sido em outros tempos, sobre determinados conjuntos de circunstâncias, valores e modos de pensar diversos, ela é algo como que uma rejeição, um pôr-se de pé firme ou uma confirmação de seja lá o que for, ante um conjunto de relações, condições e interrogações do que encaramos com um sentimento de exterioridade, num mundo onde o não-ser, a mentira e a exigência de ser si mesmo e verdadeiro nos acomete o tempo todo, numa forma de combate ou suporte ou impulso, ou seja, coisas que valoramos ou entendemos como seus contrários estão impulsionando-nos à sinceridade o tempo inteiro, como problemas dos quais a fazemos de solução, na tensão de contrários unidos no desprezo, e talvez em outras coisas mais, tudo isto, antes e durante a formação daquilo que consideramos que ela é, a sinceridade propriamente dita, formada, em formação; qual seria, porém, as relações que chegaram a forma-se e que explicariam o porquê de fazermos disso um valor ou uma propriedade poética, ou do poeta? Interessante questão, mas isto é muito exaustivo para o que se propôs aqui; e ainda temos outra questão em cheque, igualmente insolúvel, se a poesia enfeita a realidade com uma áurea de eloquência imagética e sonora, como poderíamos ver através dela uma vida mais nítida?… A verdade é que não sabemos de nada sobre o que falamos, apenas estamos a falar, não em sua profundidade pelo menos, não sabemos o que queremos dizer por sinceridade, poesia, Arte, sobre ser alguma coisa, sobre dizer a verdade, e isto vale não só para a poesia, pude constatar isto em todas as ideias atuais em uso, as que pude analisar até agora, pelo menos, que ainda são poucas, mas de certa relevância, se aprofundadas todas caem em contradições, em significações que se anulam, e todos os discursos, escritos, formas de pensamento a que os feitos de grandes homens nos legaram são obras inacabadas, e se alguém já pensou encontrar a verdade última é porque não viveu o bastante para sentir a própria incompletude, não é sincero, capaz ou não teve tempo o bastante para expressá-la, guardou para si ou expressou só em sua particularidade, por algum motivo ou valor qualquer; continuamos recortando o mundo e o vendo em fragmentos, e pior ainda, a maioria está vendo apenas pela ótica dos fragmentos recortados dos fragmentos maiores de recortes de vida e mundo daqueles poucos que foram capazes de olhar a distância, estendendo-se a escala todos nós somos cegos para um ponto de vista mais largo, e não tem como mudar isso, estenderam suas vozes ao mundo, com palavras tão firmes, mas poucos foram capazes de não intercalar os limites de suas certezas, duvido sinceramente que alguém hoje ainda afirme uma certeza de verdade absoluta e não seja corroído no seu interior pela incerteza arraigada a todo sintoma de certeza final, que em verdade, se pudéssemos nos adentrar pelos fenômenos da consciência e da estrutura do mundo a que temos acesso, veríamos que a incerteza está presente em uma parte muito maior do todo, ela é o que poderíamos chamar de a condição e o condicionante de alguma certeza que adquirimos e/ou afirmamos, ela é mais presente em nossa constituição natural que a própria certeza, quase somos naturalmente incertos do que somos, não vos enganeis ó intimidades que me leem, é um erro sentir que isto é próprio apenas de vocês, mas não é errado sentir que a forma como qualquer um pode sentir isso é própria e único em cada um, em modo e intensidade… A poesia tem um caso especial com o incerto, para nosso ponto de vista, grande parte dela expressa mesmo isso em suas formas, a certeza de não poder dizer diretamente o que é, o duro e o seco, por assim dizer, dizer poeticamente, são encharcadas de vapores perfumados, eloquência barata, rica, erudita, simplicidades igualmente variadas e por ai vai…, parece assim que o incerto é afirmado em uma certeza insinuada, insinuante, e assim não se perde o que diz o grande filosofo Heráclito: “O senhor, de quem é o oráculo de Delfos, não diz nem oculta, mas dá sinais”, pois “Natureza ama esconder-se”, a realidade neste sentido é como uma dama, doce e perigosa, mas também, bruta e acolhedora, num jogo de sedução para aqueles que querem conhecer sua nudez mais íntima nesta festa coberta de escuridão em que entramos sem qualquer convite, ela conquista e quer ser cativada, sempre está como é, neste “é” está implicado também a sua parte de não-ser onde não nos adentraremos para não cair na disputa de uma questão milenar, mas nós a cobrimos com nossas palavras e sentidos, única forma de despertarmos em nós o desejo de querer desvesti-la, no caso do poeta, achamos que ela deve ter o vestido apropriado ao próprio ser que ela é, ele é nosso sinal para ela, e ele deve, tal como ela, mostrar e ocultar, pois um sinal é ainda, a um só tempo, dizer e ocultar, enquanto o que oculta não diz e o que diz não oculta… Mas será que não é justamente isso que estamos tentando fazer aqui, insinuar tantas dúvidas, ou afirmá-las, para dizer uma certeza, ou afirmá-la, uma certeza de uma verdade? A resposta é: sim e não; claro que já tenho algo em mente ao iniciar esta reflexão, mas ainda algo bem vago, que se quer sei se chegarei a um objetivo certo qualquer que seja ele, tal como a filosofia de Heráclito este aforismo é puro movimento, que quer e intenciona pôr em movimento os sentimentos e pensamentos daqueles que o recebem, que não sabe por onde ainda vai passar e nem anseia por uma parada final… Pois bem, voltemos ao início da questão, poderíamos afirmar que a poesia é um modo de expressar a realidade que percebemos, expressa indiretamente o que sentimos diretamente, melhor dizendo, e se o pensamento corrente tiver sua certeza confirmada aqui, ela afirma este indiretamente, já que se costuma pensar nas diversas formas de linguagem como intermediárias entre nós e o mundo, se assim for, todas são, de certa forma, indiretas com relação a realidade percebida que se quer que seja novamente percebida ao modo próprio de quem a percebe, mas como ficaria isto quando adjetivamos o fazer da poesia? Quando dizemos que uma música é poética, por exemplo, como pode um modo de expressão expressar outro modo de expressão? A partir desta última questão poderíamos multiplicar indefinidamente as questões que surgiriam como problemas ligados a ela, mas não faremos isto aqui, pois que aqui objetivamos, agora temos ciência, mais o incerto que a certeza. Se Heráclito era filosofo, poeta ou o que quer que seja, parecia fazer pouca diferença para o mesmo, mas parece fazer muita diferença para nós, se aqui fazemos poesia, filosofia, ou qualquer outra forma de arte, ou reflexão solta, faz pouca diferença para o presente autor, na medida que o que faz já é, sendo de alguma forma satisfatório, mas faz diferença na medida que é uma das questões que lhe dá matéria de reflexão e uma certa medida de incomodo motivador e que, ocasionalmente, pode ser algo reconhecido como modo de um fazer que será, portanto, nomeado de alguma forma. Parece-me que, enquanto aa nível de expressão, temos a tendência de considerar a linguagem como mediadora entre nós e o mundo, a exceção de uma forma vulgar e outra científica de ver, pouco ou nada refletida neste ponto, pois não possuem a expressão mesma como problema de trato, por outro lado, a nível de conhecimento e percepção de mundo, tendemos a considerar a linguagem como reflexo do próprio mundo que vivemos e expressamos, isto porque a estrutura própria de nosso modo de pensar, platônico e racional em sua origem, exige uma definição fixa, a sobreposição da certeza sobre a incerteza, e os repartimentos classificatórios das especializações modernas não nos permitem, ou dificultam, a diluição e transposição de barreiras, queremos uma definição fixa e completa de algo, sem muita mistura de outros ramos de pretensos conhecimento e visões de mundo, com isto, não percebemos as contradições a que caímos quando fazemos e expressamos algo, grande parte do problema que aqui tratamos se deve ao fato de estarmos inserido nesta estrutura de expressão, que delineia os contornos de nosso pensar. Contradizendo esta estrutura de pensamento, não chegamos a nenhuma solução última, embora tenhamos alcançado nosso objetivo calcado na fluidez da incerteza, não podemos ir adiante, pois de agora em diante seria necessário que tivéssemos ao menos uma ideia mais ou menos firme de qual seria a natureza da existência e o modo que nos convém expressá-la…

Mas nunca vos esqueçam daquilo que foi dito com toda a propriedade e razão: que os poetas, eles “mentem demais”…

Senhoras, nossas| Nossa voz | vozes, caminhos e projetos educativos

Teresa Pessoa
Universidade de Coimbra/Portugal

 

O que somos ou em quem nos tornámos, seria diferente se não tivéssemos encontrado ou reparado nas janelas, se não tivéssemos tido a disponibilidade e a curiosidade necessária para nos debruçarmos, escutarmos e olharmos o outro ou outros que, naturalmente, passavam e com quem partilhámos caminhos ou conversas, constituintes de potencialidades que, mais tarde, tornámos em significado ou ideais ou na possibilidade, do(s) mesmo(s), para outros.

Desde muito cedo, tanto quanto aonde a memória nos pode levar, que tivemos necessidade de procurar as coisas para as entendermos ou de construir os nossos próprios caminhos, conhecimentos ou compreensões relativas às mesmas, fossem estas a simples planta, o desenvolvimento de uma rã (quantos girinos não vimos!), um eclipse ou o necessário afecto que nos aproximasse de um livro ou do outro.

Nunca mais nos iremos esquecer de um desenho da Nossa Senhora que fizemos, com todo o carinho e convicção, numa prova da 3ª ou 4ª classe, ainda hoje o consigo desenhar

 

…. , mas não foi aceite porque “A Nossa Senhora não era assim!”.

Segundo a professora, a Nossa Senhora não tinha sardas, não tinha puxinhos, não tinha umas pestanas assim tão grandes, não tinha bochechas e não tinha uma boca assim tão bonita! Tivemos que fazer outra Nossa Senhora, aquela, a da professora, e ainda hoje não percebemos porque é que não gostaram ou aceitaram a nossa Nossa Senhora!

Se a professora, naquela altura, tivesse ouvido a nossa voz e aceitado como válido o conhecimento que mostrámos acerca da imagem da Nossa Senhora, não teria sido necessário ter percorrido tantos caminhos para que hoje pudéssemos afirmar, com confiança, a outros, que a Nossa Senhora poderia ser assim, também!

A valorização da voz das coisas e das nossas próprias vozes, naturalmente, aproximou-nos da ideia de que o conhecimento implicará um sujeito que conhece. Este tem sido o argumento partilhado pelas diversas epistemologias construtivistas. Na medida deste valor atribuído à experiência, o conhecimento acontece e torna-se acessível ao sujeito, que conhece, através de um processo de construção de representações diversas sobre a mesma em que o sujeito estará, assim, implicado.

 

o que sou.”

Uma outra atitude possível da professora perante a nossa imagem da Nossa Senhora, teria sido ouvir a nossa voz, teria sido valorizá-la, como nós e, a partir daí, ter ajudado ou facilitado o desenvolvimento de representações, outras e diversas, num processo, partilhado e aceite ou valorizado, de desenvolvimento ou construção do conhecimento.

 

Narrativa de Vida: autopoiesis e reinvenção de si

Georgina Quaresma Lustosa
Professora de Filosofia/Educação/CEAD/UFPI

 

Narrar nossas histórias de vida é um exercício autopoiético de fazer-se/refazer-se num permanente devir. É um processo complexo e difícil de ser expressado de forma que atenda a abrangência que a temática exige. As palavras tendem a negar o conhecimento construído ao longo do percurso do vivido, pois as narrativas de vida são sempre relatadas por meio de expressões carregadas de significados subjetivos. E a dificuldade advém pelas nuances que os significados subjetivos apresentam ao conhecimento do ser enquanto condição humana. Vou buscar em Guimarães Rosa que afirma “(…) contar é dificultoso. Não pelos anos que já passaram. Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares”.

Para escrever um pouquinho de minha história precisei remexer muito minhas memórias, não somente “pelos anos que já se passaram”, mas pelo balancê que a vida dá e as coisas se remexem e mudam de lugares. A história de vida das pessoas não é uma história que possa ser narrada de forma retilínea. Não é um caminho predeterminado, seguro e traçado por vias previamente escolhidas. Os caminhos são percorridos e vividos cotidianamente. Hoje, quando sento para tentar reconstruir um pouco da experiência com minhas primeiras leituras penso: quantos caminhos percorridos? Quantas bifurcações encontradas? Tantos desafios enfrentados? Quantas pedras no caminho? E, aí, lembro dos versos da canção: “Meu caminho é de pedra/Como posso sonhar…”

Mas sonhei, e como sonhei! Continuo a sonhar. Encontrei pedras, mas encontrei flores, encontrei também sorrisos. Ah, como os encontrei! Encontrei sorriso, afeto, aperto de mãos, olhares, abraços. Por tudo isso trago uma bagagem de vida carregada de tristeza, alegria, esperança e muitos sonhos. Nasci e vivi toda minha infância em um sítio dos meus país no interior do Piauí. Lá fui alfabetizada e tive a primeira noção e o primeiro sentimento do prazer da leitura. Mas, queria abrir parênteses para narrar o meu primeiro sentimento de leitura antes de ser alfabetizada. Meu pai tinha como rotina juntar as pessoas, moradores e vizinhos, à noite, depois do jantar, para ouvir leituras da literatura de cordel, vinha todos ouvir as estórias contadas. Quem fazia essas leituras era minha irmã mais velha que já sabia ler (foi ela quem me alfabetizou).

E eu sentia uma tremenda inveja de minha irmã, fazendo aquelas leituras à luz de lamparina, em tons dramáticos ou não conforme os rumos da estória, e aquelas pessoas todas envolvidas com a dramaticidade da narrativa, todas atentamente escutando e muito curiosas para saber o final do romance. Muitas vezes, não terminava a leitura na mesma noite, porque todos precisavam acordar cedo para a lida diária. Mas no dia seguinte, à mesma hora, todos estavam sentados ao redor da mesa grande para escutar atentamente a continuação da estória anterior, ou o início de outro romance. Não me lembro aonde meu pai conseguia aqueles cordéis, penso hoje, que eles cultivavam um sistema de trocas dos livrinhos.

É bom lembrar que nós, crianças da casa, também sentávamos para ouvir as estórias, mas, algumas eram censuradas pelo meu pai, que nos mandava dormir. Imagino que fossem algumas estórias carregadas de violência ou de muitos amores. Também lembro pouco da presença de minha mãe sentada em volta da mesa, ela estava sempre envolvida com os meus irmãos (muitas crianças para cuidar). Enfim, este foi o meu primeiro sentimento de leitura, um sentimento invejoso, queria logo aprender a ler para ser importante naquela sala de leitura como minha irmã.

Aprendi a ler com muita dificuldade, naquela época não tinham métodos que facilitassem a alfabetização da criança. Mesmo lendo nunca substitui minha irmã nas leituras noturna do grupo do meu pai. Isso nunca aconteceu porque minha irmã tinha toda uma metodologia de fazer as leituras dando os tons que a dramaticidade exigia, então o seu posto já estava garantido. Comecei a ler tudo que encontrava inclusive os cordéis censurados pelo meu pai. Lia-os às escondidas.

Tenho saudade da minha infância e meninice, quando lia pelo prazer de ler, lia o que ia encontrando pela frente (o acesso era muito pouco), sem nenhuma exigência didática e metodológica, quando era a curiosidade que me impulsionava para o mundo fascinante da leitura.

Havia uma pichação no muro: reflexões no meio do sol quente

por André Henrique M. V. de Oliveira

(Professor de filosofia/IFPI e fã de Bob Dylan)

 

É possível conhecer alguma coisa sem que se tenha um cérebro? Para os “enativistas” a resposta é “sim”.  De imediato, é provável que isso nos soe absurdo, ou no mínimo estranho. Então uma planta sabe? Os primeiros coacervados sabiam?

Refutar a ideia de que é plausível comparar um computador à mente humana: eis um dos propósitos dessa teoria. Na perspectiva enativista, um computador não é comparável à mente de um ser vivo pela mesma razão que o pé de jambo sabe, e que “a ciência da abelha e da aranha muita gente desconhece”: a característica essencial dos seres vivos, com sistema nervoso ou sem, é que eles são capazes de atribuir significado ao mundo.

O que é atribuir significado, senão o saber diferenciar, distinguir? No nosso caso, que talvez não seja o da aranha e o do pé de jambo, essa capacidade de diferenciar vem acompanhada do pensamento, e para isso precisamos de um cérebro. Mas, no fundo, a atitude de um ser humano de buscar alimento é semelhante à de uma planta crescer buscando luz: ambas resultam da atribuição de significado, do saber, do sapere, do saborear o mundo.

Dar significado à alguma coisa quer dizer conferir-lhe importância. O que tem significado para mim é o que é importante para mim. Como nascemos sem nada, ou quase nada, passamos a buscar aquilo que nos parece importante; aquilo que nos falta. Sim. É a falta que nos põe em movimento. E essa falta varia justamente segundo a importância que damos às coisas. “A gente não quer só comida: a gente quer comida, diversão e arte”, diz a canção. Por isso, ser capaz de se importar é algo humano, demasiado humano.

Na banalização se torna difícil distinguirmos o que é essencial, isto é, o que realmente falta, do que é supérfluo. De minha parte, tendo a pensar que o essencial passa pelo básico, em sentido biológico mesmo: comer, beber, dormir, procriar (não necessariamente nesta sequência). E em época de banalização de tudo (a nossa), come-se de tudo, bebe-se de tudo, dorme-se menos e procria-se menos. Haverá um desequilíbrio?

A resposta, se é que ela existe, deve estar no saber o que importa. Diferenciar é dar importância, e isso só se pode fazer enquanto vivo, pois na morte não há importância: ela é a indiferença absoluta. Quando tudo: coisas, fatos, pessoas, relacionamentos, tendem a se banalizar, a perder a importância, a morte adentra à vida.

Importar-se com as coisas, com as pessoas, com o mundo é conseguir pequenas vitórias sobre a invencível morte. No muro que dá para ver da minha janela há uma pichação: “Bom dia, amor”.

O Caneleiro e a Palavra

por José Vanderlei Carneiro (Filosofia/UFPI)

Este é um texto já escrito, como tantos outros. O que muda é somente a árvore, a leitura e o leitor. Começo, pois, pedindo desculpa aos senhores, pois com a idade avançada, o velho já não tem mais as condições necessárias de demarcar a fronteira entre a ficção e a realidade. Sua memória se alimenta de seus fragmentos infantis, uma mistura de lucidez e fantasia. Assim como encontrei no livro que “a vida da gente vai em erros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia de ser como sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho”. Mas posso lhes assegurar que tudo que contarei, aqui, é verdade.

Não sou o velho profeta do filósofo contemporâneo, pois não vou à igreja e não tenho a lanterna, além de não ser um homem de pronúncia. Fico aqui debaixo do caneleiro escutando estórias e vendo o mundo passar. Este caneleiro é como o sertão do Guimarães, está em todo lugar. Podemos encontrá-lo próximo de tudo que existe: da igreja, do quartel, da universidade, da praça, da farmácia, da feira de roupas e de perfumes, do mercado, da rua asfaltada, da fazenda, do cabaré, do hospital ou do hospício.

Este lugar tem muitas serventias. O senhor que estuda, sabe, as coisas inúteis moram no silêncio de Deus. O caneleiro, este mesmo, serve como sombra para a pessoa fatigada respirar, para o bacana seu carro estacionar, para a moça se maquiar, para o homem almoçar, para a louca delirar, para o estudante se enganar, para o boêmio descansar, para o pássaro cantar, para o justo ordenar e para o guarda dormir. Enfim, como diz Drummond: “eta vida besta!”

Uma vez, estava aqui, como todos os dias úteis e inúteis da semana, no meu lugar de trabalho, com o cajado na mão, chega um doutor e me faz uma pergunta: – Senhor! O senhor acredita que toda palavra proferida é verdade? Respondi: – não sei. Eu não opero por meio da crença, pois já tive acesso a alguma leitura e minha consciência não tem tempo para alienação. Ela se nutre de suspeita. Tenho a desconfiança por princípio. Mas chega meu amigo Zé Grosso, homem que sabe muitas coisas, e diz: – não. Toda palavra dita não é verdade, a verdade está no uso que fazemos dela. E eu, indaguei: – como assim? A verdade para os senhores do saber é objeto de negociação, como as vestes do judeu que foi dividida em pedaços entre os operadores da lei. Fiquei pensando. A pergunta do doutor tem propósito de verdade, mas a minha resposta também. A intervenção do Zé só poderia ser a expressão da pragmática cultural. E, desse modo, então, o caneleiro se torna uma metáfora das nossas narrativas cotidianas.

Falando nisso, estamos vivendo tempos estranhos. Escutei aqui o homem culto comungando da mesma opinião do iletrado. Deve existir uma escola com o poder de formar homens e mulheres com leituras comuns sobre acontecimentos comuns. O caneleiro é, pois, o lugar da catarse moral, pois há um vazio que se alastra sobre vários problemas da convivência humana: justiça, economia, política, gênero, configuração social e educação, ou seja, tudo tem a mesma semelhança e intensidade, uma estilizada banalidade do bem coletivo.  São todos justos, honestos e verdadeiros com eles mesmos. Ou como dizia uma amiga mineira: “cada qual com seu cada qual”. Pois orientam suas obrigações e deveres públicos em torno do filho, da sogra, da amante, da mulher, do pai, do neto, da igreja, do bairrismo e dos amigos. Todos, menos eu, porque sou estrangeiro e velho.

Vocês leitores já devem estar concluindo, que este texto, de fato, deve ter sido escrito por um velho, por tornar o caneleiro numa espécie de pharmakon filosófico, descrevendo doenças da alma como se fosse o cotidiano da vida; receitando veneno para curar o ódio, pois quanto mais se aproxima da morte, mais necessitamos de amor. E disso sentimos falta, mas é falta que alimenta o desejo de viver.  Adélia Prado meditava na sua tarefa de provocadora do saber: “não quero a faca nem o queijo quero a fome. Afinar o espírito é, em última instância, ouvir os gemidos do mundo e produzir fome de conhecimento.  Portanto, continuo minha sina de escutador, com o cajado na mão, expondo como justeza da memória a infelicidade e como memória feliz o esquecimento. Então, e a Palavra? Continua.

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