Revestrés

20/02/2018
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B-R-O-BRÓ

Mais um texto clichê sobre maternidade

por Dani Marques

 

Eu não queria que esse fosse mais um texto clichê sobre a maternidade, daqueles que te esfregam na cara aquela perna não depilada, a unha cheia de cutícula sem previsão de retorno à manicure (ainda bem que não tenho essa vaidade), mas de uma certa forma ele vai ser clichê, não sei como.

A maternidade carrega consigo muitos significados, e aquele que mais pesa, é o de que ser mãe é a coisa mais romântica que já se viu. Logo porque a maternidade é a nota fiscal de que a mulher cumpriu sua obrigação social enquanto mulher, e a partir de agora nenhuma cobrança mais recairá sobre ela, (antigamente isso vinha atrelado a um casamento bem sucedido, mas isso é outro papo), o que é bem enganoso. No mais, somos levadas a crer que criar um filho é viver num mundo onde as nuvens são de algodão doce, com um céu lilás de bolinhas amarelas.

Quando você se torna mãe, ninguém te fala que ao tentar arrumar um novo emprego, é do interesse do empregador saber quem vai ficar com sua cria. Não sei o que isso tem a ver com a minha capacidade, ou não, de assumir um cargo, ou um projeto. Mas a pergunta foi feita. Um dia desafiei os homens da minha timeline a me dizerem qual deles já tinham passado por esse questionamento. Quantos responderam? Nenhum. Sabe por quê? Eles não passam por isso.

Ninguém também te fala da p* da solidão materna. Esse é ainda é um lance meio complicado de entender. Você deve tá se perguntando “mas, ué?! você tem sua cria, logo nunca mais estará sozinha!”. Ledo engano, caro leitor (sempre quis dizer isso, me achei até escritora agora). Filhos são para o mundo. Repita comigo: filhos são para o mundo. Não exija essa obrigação deles. Aliás, de ninguém (fica a dica de autoconhecimento e exercício de amor próprio). É um estar sozinho mesmo que rodeado de muita gente, e até dos filhos, é ser incompreendida, e julgada, na luta diária. Eu vou te dar um exemplo: vai num pronto-socorro infantil,

veja quantas estão ali sozinhas com seus filhos, veja quantas queriam estar acompanhadas nesse martírio, e não tinha ninguém que quisesse acompanhá-las. Outra: sabe quando põem a culpa na mãe sobre má educação filhos? Isso também é solidão materna, porque a obrigação disso recai unicamente sobre nós, é como se o mundo nos dissesse que estamos sozinhas nessa, afinal, quem pariu Mateus que o embale. Solidão é o lugar-comum de toda mãe.

E pra fechar, ninguém te diz que ser mãe, é ser excluída. Sim, não basta ser o que sociedade exige pra toda mulher, mas a partir do momento que você se torna, você é excluída. Não é exagero. Vai ser mãe no meio acadêmico e me diz. Vai ser mãe-solo no meio acadêmico e me diz. (Foi repetido de propósito, apesar de que muitas mães que vivem o casamento, ou tem algum companheirx, são tão sozinhas na empreitada quanto as que são solo). Afinal, quem vai querer trabalhar com quem tem horários corridos, loucos (às vezes nem temos horários), que mal consegue se organizar, com quem abandona tudo quando o filho tá doente? Quando somos privadas de frequentarmos certos lugares por causas de nossas crianças? Isso é apenas um dos exemplos de quando e quanto nós, mães, somos excluídas. Existem muitas outras situações…

Ser mãe é muita coisa, mas não é esse romantismo todo que dizem por aí. É padecer, sim! Só que não é no paraíso, porque esse mundo, tá cada dia mais um inferno. É você procurar todo dia aquele seu eu do passado, e ter o desafio de conciliá-lo com o novo ser, a mãe. É resistir, quando o corpo pede pra desistir.

Parir é um ato político, e romantizar, passa muito longe disso.

 

Considerações sobre a escrita

Por Laís Romero

 

Por muito tempo achei que escrever fosse um terrível mistério carregado pelos sérios poetas, uma dor ou um segredo, algo crônico e edificante e que nunca cessaria de sangrar. O tempo não passou tanto assim e me desvencilhei da aura mística do escritor, fui adentrando nos espaços de criação, abrindo as portas dos coletivos de escritores, tocando na realidade do ‘sentar e escrever’. Foi difícil. É difícil.

Ainda me falta perceber uma rotina, atar vida prática e massacrante com o desejo de trabalhar com as palavras; tão somente com as palavras. Não estamos numa seara fértil o suficiente para o tal, digo isto em uma perspectiva financeira, obviamente. Me fechando na fala feminina, percebo que ainda estou presa ao perfil de responsável pelas demandas afetivas da casa, ainda sou o foco da criação do meu filho, esmagada por uma culpa improdutiva e paralisante. Fui plantada em solo deficiente, ainda procuro com afinco a fertilidade para o florescimento.

Escrever, pelo que atravesso diariamente, tem mais relação com o vácuo. A promessa e o desejo de sentar diante de uma folha em branco e fluir, tal qual se debruçam os escritores no cinema: numa escrivaninha charmosa e antiga, pilhas de papel num lixeiro de metal, um gato, álcool, chá ou café, quem sabe cigarros e sempre à noite. Não. Muito mais tempo passo sem conseguir dizer palavra, aquela sensação esmagadora de incompetência como se todo o meu ar não fosse suficiente para um grito. Inflado o peito parto para as tentativas de falar, enumerar, descrever, construir um parágrafo ou verso, escolher as melhores palavras, revisar e revisar e revisar. Sentir por fim que não alcancei o que desejava, que meu domínio é somente o desejo, que as palavras continuam a fugir ou simplesmente não existem dentro de mim; manejo um verdadeiro vocabulário das ausências.

Neste avesso revejo conceitos e percebo que escrever é um interminável cansaço, uma frustração que vai se estampando em nosso rosto. A satisfação diante da escrita sempre me foi suspeita, e raramente encontrei trabalhos de força e fôlego aliados a histórias de felicidade e fluidez na escrita. Aquele mistério que ronda os artistas da palavra é apenas a incapacidade de lidar com a linguagem. Não uma incapacidade por incompetência, mas um atravessamento pelo desespero de não ter alcançado aquilo que desenhava dentro de si. As demandas da língua, as portas fechadas quando se quer falar, a falta de fôlego para alcançar a manhã gloriosa de uma lauda que sintetize as histórias por contar. O silêncio que pesa o ar durante as horas da madrugada diz muito mais de nós. Os sons do dia amanhecendo já aciona as engrenagens que fenecem o desejo de grafar.

Perdidas as aparências, percebo que a matéria de que trata a escrita é muito maior que a vontade de escrever. Todo o farfalhar de páginas perdidas e o egoísmo do escritor sombrio não passam de medo e frustração, recorrentes companheiros de quem, como eu, se exige uma produção minimamente correspondente aos anseios que sobem à garganta. Quando escolhi escrever este texto me impus prazo, leituras, horas a fio escrevendo e apagando um parágrafo que nunca adentrou nesta leitura que você faz agora. Te aproximo do processo pois, ou você é escritor e quer saber de que trata este banal relato, ou por acaso me conhece e quer saber como lido com as palavras em um espaço de visibilidade. Se leu até aqui, parabenizo a insistência.

Em resumo, por fim, não mais tendo detalhes a desfiar, talvez eu receba a alcunha de romântica, adepta de um pessimismo infantil e um repertório fraco. Não interessa muito. Os que escrevem e andam tortuosos sabem da demanda dantesca. Navegar no Styx requer uma certa dedicação. Talvez silêncio.

 

Teresina & Paris

por Nayara Barros

 

Caminhando pelo centro da cidade, pude rever o último escombro construído com esmero pelo abandono do teresinense em relação ao seu patrimônio físico e histórico. Curiosamente, a indignação e a raiva que eu costumo sentir quando vejo essas belas casas de um tempo remoto sendo substituídas por construções pragmáticas – como algum estacionamento, ou mais uma farmácia -, essas emoções foram paulatinamente suplantadas por uma deliciosa satisfação de quem confirma uma teoria omitida de qualquer discussão pública e que, por isso, posso garantir o sucesso absoluto dela.

O fato é que, diante dos tapumes que tentavam encobrir a falsa vergonha da demolição, tive um forte indício de que ali, naqueles escombros, residia a principal prova do nosso espírito forte. Explico um pouco melhor, antes que me acusem de não me importar mais com o desmoronar da nossa memória. Lendo Gertrude Stein, na “Autobiografia de Alice B. Toklas”, numa Paris do início do século XX, fui surpreendida com uma observação da autora, quanto à facilidade com que a Cidade Luz se livrava de seus prédios históricos e que isso acontecia com certa regularidade, porque o espírito dos franceses, esse sim, era perene e robusto, logo, podiam dar-se ao luxo de desfazerem-se dessas futilidades históricas e abraçar o novo. O novo! O espírito sobrevivia a todas essas ruínas, as de agora e as futuras.

Vejam só! Paris! Quem diria que o teresinense encontraria um povo irmão na prática de seu desdém histórico na Paris de 1920. É até de se orgulhar!

Um dia sem uma poesia já me parece um dia perdido

Amilton Cavalcante

Filosofia

 

Um dia sem uma poesia já me parece um dia perdido, parece que estou tentando explicar o mundo pela poesia, talvez partindo dela para este fim, talvez vivendo nela para suportar o fato de nunca tê-lo alcançado, talvez nem isto nem aquilo; que parece agora que quero fugir da ideia, que me passou pela mente e arrastou alguma coisa com ela, que todo poeta é um músico frustrado e todo músico alcançou seus maiores anseios poéticos. Mas por que fazemos isto ou por que falamos assim? Para ser mais direto: temos a propensão de pensarmos que um poema em que se tira a sua musicalidade, caso ele tenha tido alguma, ainda que, possivelmente, menos ou não agradável mais aos ouvidos, continua a ser poesia, e uma música em que se tira sua poética, continua a ser música, ainda que, possivelmente, não nos agrade mais; por que a música mesma não seria ainda, poesia? Temos propensão a elogiar uma coisa como poética, à medida que ela nos impacta de forma eloquente e metafórica, que somos impressionados pela sua forma de se insinuar aos nossos sentidos e instigar nossa reflexão, dizemos que certa imagem de um desenho animado é poética, que uma fotografia é poética, que uma cena de movimento e fala de atores é poética, que certas palavras são poéticas…, mas por que mesmo as imagens, a fotografia, a cena, as palavras não são mesmo “Poesia”?… Por que é acessório e não essencial? Por que é adjetivo e não substantivo? Supondo-se que, em geral, adjetivamos uma coisa para descrevê-la ou rodear outra de descrições, e substantivamos para dizer o que ela é. A “poética” é uma forma de elogio comumente em uso, mas poesia mesmo, o que pensamos que seja? E esta é a questão mais difícil em que agora nos pomos, a verdade é, me parece, que vemos o fazer poético tal como olhamos o poeta, com a pretensão que ele seja como queremos vê-lo; pois bem, o poeta é para nós um tipo de escritor, que se faz a partir de versos escritos, e assim parece que o restringimos a arte da escrita, talvez estejamos excluindo boa parte do seu fazer, para ajustá-lo a um modo corrente de pensamento, com o qual nos sentimos mais cômodos e confortados, por estarmos acostumados a pensar desta forma, mas e o poeta mesmo, o que é para nós? Se é que podemos responder, quando não sabemos ao certo nem o que nós mesmos somos para nós, mas e se formos poetas? O poeta é o que somos ou é o título de uma função que exercemos? Podemos mesmo separar assim a função social que exercemos daquilo que particularmente consideramos que somos? É muito complicado, mas podemos começar por aqui: a identificação, é marca concreta da poesia, nos identificamos com a poesia, seja que a consideremos escrita, imagem, música, atuação etc., por que nos identificamos com algum ponto da vida de quem a escreveu? Neste caso identificamos vida e escrita num só ato ou a escrita como ato concreto de vida, um especial, que ajuda a manter seu criador em pé, com mais firmeza em suas fases e experiências vividas, que o faz mesmo com que ele pareça gravar momentos passageiros de sua vida em marcas que se estendem no tempo, para nós e para a consciência de seus criadores, com aparência de eternidade; assim, podemos dizer que o vemos como alguém sincero quando fala de si mesmo, quando fala na sua forma própria de se expressar, a sinceridade passou então, a ser marca do poeta moderno, quanto ao seu modo de vida e suas ideias, e sinceridade é marca de ser próprio e original, como achamos que deve ser uma figura da qual achamos que deve apresentar um certo tipo de vida excêntrico, diferente, de algum jeito, da maioria, assim é que achamos que conseguimos ser, também, nós mesmos, pessoas mais originais, pois passamos a nos conhecer melhor, eles sabem as melhores palavras para nos descrever, nos sentimos melhores com nós mesmos através da associação que fazemos com as palavras e modos de vida e sentimentos dos criadores de formas próprias de dizer,  dizer-se, pois eles são “especiais”, e acima de tudo, e isto vale para a maioria, são uma boa forma de distração, e mesmo este tempo distrativo que passamos conosco e suas palavras, serve para que nos sintamos mais em nós com nossa interioridade, o que também nos faz sentir que melhor nos conhecemos, passando a nos aceitar, conviver com a coisa que chamamos de “nós-mesmos”, simplesmente nos inspiramos a ser; devemos ver isto melhor, mais de perto ainda, mas também e antes de tudo, a distância, imaginemos que um poeta veja um estranho ou estranha na rua, e sinta por esta pessoa um certo desejo íntimo, o mesmo poderia valer para amigos com os quais conversamos, o mais sincero não seria ir até esta pessoa qualquer e dizermos o que sentimos e queremos? Para que enfeitar com eloquências e palavreados românticos, sensuais, desesperados, furiosos ou rebeldes? Por que diríamos que um poeta, ou qualquer artista que seja, é sincero, se o que ele faz é justamente o contrário e parece representar o cume exemplar daqueles que disfarçam seus impulsos mais básicos? (“baixos”?). Parece-me que o poeta é sincero, mas de uma outra forma, a sua ‘sinceridade’ é diferente do que comumente chamamos de sinceridade, ela não é tão prática e nem guarda em si tantos valores, não basta apenas dizer o que se sente e o que se quer, é preciso algo mais, ela quer mostrar algo mais, e ao mesmo tempo, é menos que apenas conseguir o que se deseja de imediato, ela é insinuação, sinceramente insinuante, e claro, possui o que toda e qualquer tipo de sinceridade possui, isto que nem sempre se percebe, pois toda sinceridade tem um q de desprezo, tem que ser acompanhada por isto para ser o que é, isto é, o que é para nós, e se reforçam em proporções incalculáveis de acordo com cada indivíduo a medida que este se utiliza de sua sinceridade, já que ela é e tem determinado valor para nós, ela é algo para nós que pode não ter sido em outros tempos, sobre determinados conjuntos de circunstâncias, valores e modos de pensar diversos, ela é algo como que uma rejeição, um pôr-se de pé firme ou uma confirmação de seja lá o que for, ante um conjunto de relações, condições e interrogações do que encaramos com um sentimento de exterioridade, num mundo onde o não-ser, a mentira e a exigência de ser si mesmo e verdadeiro nos acomete o tempo todo, numa forma de combate ou suporte ou impulso, ou seja, coisas que valoramos ou entendemos como seus contrários estão impulsionando-nos à sinceridade o tempo inteiro, como problemas dos quais a fazemos de solução, na tensão de contrários unidos no desprezo, e talvez em outras coisas mais, tudo isto, antes e durante a formação daquilo que consideramos que ela é, a sinceridade propriamente dita, formada, em formação; qual seria, porém, as relações que chegaram a forma-se e que explicariam o porquê de fazermos disso um valor ou uma propriedade poética, ou do poeta? Interessante questão, mas isto é muito exaustivo para o que se propôs aqui; e ainda temos outra questão em cheque, igualmente insolúvel, se a poesia enfeita a realidade com uma áurea de eloquência imagética e sonora, como poderíamos ver através dela uma vida mais nítida?… A verdade é que não sabemos de nada sobre o que falamos, apenas estamos a falar, não em sua profundidade pelo menos, não sabemos o que queremos dizer por sinceridade, poesia, Arte, sobre ser alguma coisa, sobre dizer a verdade, e isto vale não só para a poesia, pude constatar isto em todas as ideias atuais em uso, as que pude analisar até agora, pelo menos, que ainda são poucas, mas de certa relevância, se aprofundadas todas caem em contradições, em significações que se anulam, e todos os discursos, escritos, formas de pensamento a que os feitos de grandes homens nos legaram são obras inacabadas, e se alguém já pensou encontrar a verdade última é porque não viveu o bastante para sentir a própria incompletude, não é sincero, capaz ou não teve tempo o bastante para expressá-la, guardou para si ou expressou só em sua particularidade, por algum motivo ou valor qualquer; continuamos recortando o mundo e o vendo em fragmentos, e pior ainda, a maioria está vendo apenas pela ótica dos fragmentos recortados dos fragmentos maiores de recortes de vida e mundo daqueles poucos que foram capazes de olhar a distância, estendendo-se a escala todos nós somos cegos para um ponto de vista mais largo, e não tem como mudar isso, estenderam suas vozes ao mundo, com palavras tão firmes, mas poucos foram capazes de não intercalar os limites de suas certezas, duvido sinceramente que alguém hoje ainda afirme uma certeza de verdade absoluta e não seja corroído no seu interior pela incerteza arraigada a todo sintoma de certeza final, que em verdade, se pudéssemos nos adentrar pelos fenômenos da consciência e da estrutura do mundo a que temos acesso, veríamos que a incerteza está presente em uma parte muito maior do todo, ela é o que poderíamos chamar de a condição e o condicionante de alguma certeza que adquirimos e/ou afirmamos, ela é mais presente em nossa constituição natural que a própria certeza, quase somos naturalmente incertos do que somos, não vos enganeis ó intimidades que me leem, é um erro sentir que isto é próprio apenas de vocês, mas não é errado sentir que a forma como qualquer um pode sentir isso é própria e único em cada um, em modo e intensidade… A poesia tem um caso especial com o incerto, para nosso ponto de vista, grande parte dela expressa mesmo isso em suas formas, a certeza de não poder dizer diretamente o que é, o duro e o seco, por assim dizer, dizer poeticamente, são encharcadas de vapores perfumados, eloquência barata, rica, erudita, simplicidades igualmente variadas e por ai vai…, parece assim que o incerto é afirmado em uma certeza insinuada, insinuante, e assim não se perde o que diz o grande filosofo Heráclito: “O senhor, de quem é o oráculo de Delfos, não diz nem oculta, mas dá sinais”, pois “Natureza ama esconder-se”, a realidade neste sentido é como uma dama, doce e perigosa, mas também, bruta e acolhedora, num jogo de sedução para aqueles que querem conhecer sua nudez mais íntima nesta festa coberta de escuridão em que entramos sem qualquer convite, ela conquista e quer ser cativada, sempre está como é, neste “é” está implicado também a sua parte de não-ser onde não nos adentraremos para não cair na disputa de uma questão milenar, mas nós a cobrimos com nossas palavras e sentidos, única forma de despertarmos em nós o desejo de querer desvesti-la, no caso do poeta, achamos que ela deve ter o vestido apropriado ao próprio ser que ela é, ele é nosso sinal para ela, e ele deve, tal como ela, mostrar e ocultar, pois um sinal é ainda, a um só tempo, dizer e ocultar, enquanto o que oculta não diz e o que diz não oculta… Mas será que não é justamente isso que estamos tentando fazer aqui, insinuar tantas dúvidas, ou afirmá-las, para dizer uma certeza, ou afirmá-la, uma certeza de uma verdade? A resposta é: sim e não; claro que já tenho algo em mente ao iniciar esta reflexão, mas ainda algo bem vago, que se quer sei se chegarei a um objetivo certo qualquer que seja ele, tal como a filosofia de Heráclito este aforismo é puro movimento, que quer e intenciona pôr em movimento os sentimentos e pensamentos daqueles que o recebem, que não sabe por onde ainda vai passar e nem anseia por uma parada final… Pois bem, voltemos ao início da questão, poderíamos afirmar que a poesia é um modo de expressar a realidade que percebemos, expressa indiretamente o que sentimos diretamente, melhor dizendo, e se o pensamento corrente tiver sua certeza confirmada aqui, ela afirma este indiretamente, já que se costuma pensar nas diversas formas de linguagem como intermediárias entre nós e o mundo, se assim for, todas são, de certa forma, indiretas com relação a realidade percebida que se quer que seja novamente percebida ao modo próprio de quem a percebe, mas como ficaria isto quando adjetivamos o fazer da poesia? Quando dizemos que uma música é poética, por exemplo, como pode um modo de expressão expressar outro modo de expressão? A partir desta última questão poderíamos multiplicar indefinidamente as questões que surgiriam como problemas ligados a ela, mas não faremos isto aqui, pois que aqui objetivamos, agora temos ciência, mais o incerto que a certeza. Se Heráclito era filosofo, poeta ou o que quer que seja, parecia fazer pouca diferença para o mesmo, mas parece fazer muita diferença para nós, se aqui fazemos poesia, filosofia, ou qualquer outra forma de arte, ou reflexão solta, faz pouca diferença para o presente autor, na medida que o que faz já é, sendo de alguma forma satisfatório, mas faz diferença na medida que é uma das questões que lhe dá matéria de reflexão e uma certa medida de incomodo motivador e que, ocasionalmente, pode ser algo reconhecido como modo de um fazer que será, portanto, nomeado de alguma forma. Parece-me que, enquanto aa nível de expressão, temos a tendência de considerar a linguagem como mediadora entre nós e o mundo, a exceção de uma forma vulgar e outra científica de ver, pouco ou nada refletida neste ponto, pois não possuem a expressão mesma como problema de trato, por outro lado, a nível de conhecimento e percepção de mundo, tendemos a considerar a linguagem como reflexo do próprio mundo que vivemos e expressamos, isto porque a estrutura própria de nosso modo de pensar, platônico e racional em sua origem, exige uma definição fixa, a sobreposição da certeza sobre a incerteza, e os repartimentos classificatórios das especializações modernas não nos permitem, ou dificultam, a diluição e transposição de barreiras, queremos uma definição fixa e completa de algo, sem muita mistura de outros ramos de pretensos conhecimento e visões de mundo, com isto, não percebemos as contradições a que caímos quando fazemos e expressamos algo, grande parte do problema que aqui tratamos se deve ao fato de estarmos inserido nesta estrutura de expressão, que delineia os contornos de nosso pensar. Contradizendo esta estrutura de pensamento, não chegamos a nenhuma solução última, embora tenhamos alcançado nosso objetivo calcado na fluidez da incerteza, não podemos ir adiante, pois de agora em diante seria necessário que tivéssemos ao menos uma ideia mais ou menos firme de qual seria a natureza da existência e o modo que nos convém expressá-la…

Mas nunca vos esqueçam daquilo que foi dito com toda a propriedade e razão: que os poetas, eles “mentem demais”…

Senhoras, nossas| Nossa voz | vozes, caminhos e projetos educativos

Teresa Pessoa
Universidade de Coimbra/Portugal

 

O que somos ou em quem nos tornámos, seria diferente se não tivéssemos encontrado ou reparado nas janelas, se não tivéssemos tido a disponibilidade e a curiosidade necessária para nos debruçarmos, escutarmos e olharmos o outro ou outros que, naturalmente, passavam e com quem partilhámos caminhos ou conversas, constituintes de potencialidades que, mais tarde, tornámos em significado ou ideais ou na possibilidade, do(s) mesmo(s), para outros.

Desde muito cedo, tanto quanto aonde a memória nos pode levar, que tivemos necessidade de procurar as coisas para as entendermos ou de construir os nossos próprios caminhos, conhecimentos ou compreensões relativas às mesmas, fossem estas a simples planta, o desenvolvimento de uma rã (quantos girinos não vimos!), um eclipse ou o necessário afecto que nos aproximasse de um livro ou do outro.

Nunca mais nos iremos esquecer de um desenho da Nossa Senhora que fizemos, com todo o carinho e convicção, numa prova da 3ª ou 4ª classe, ainda hoje o consigo desenhar

 

…. , mas não foi aceite porque “A Nossa Senhora não era assim!”.

Segundo a professora, a Nossa Senhora não tinha sardas, não tinha puxinhos, não tinha umas pestanas assim tão grandes, não tinha bochechas e não tinha uma boca assim tão bonita! Tivemos que fazer outra Nossa Senhora, aquela, a da professora, e ainda hoje não percebemos porque é que não gostaram ou aceitaram a nossa Nossa Senhora!

Se a professora, naquela altura, tivesse ouvido a nossa voz e aceitado como válido o conhecimento que mostrámos acerca da imagem da Nossa Senhora, não teria sido necessário ter percorrido tantos caminhos para que hoje pudéssemos afirmar, com confiança, a outros, que a Nossa Senhora poderia ser assim, também!

A valorização da voz das coisas e das nossas próprias vozes, naturalmente, aproximou-nos da ideia de que o conhecimento implicará um sujeito que conhece. Este tem sido o argumento partilhado pelas diversas epistemologias construtivistas. Na medida deste valor atribuído à experiência, o conhecimento acontece e torna-se acessível ao sujeito, que conhece, através de um processo de construção de representações diversas sobre a mesma em que o sujeito estará, assim, implicado.

 

o que sou.”

Uma outra atitude possível da professora perante a nossa imagem da Nossa Senhora, teria sido ouvir a nossa voz, teria sido valorizá-la, como nós e, a partir daí, ter ajudado ou facilitado o desenvolvimento de representações, outras e diversas, num processo, partilhado e aceite ou valorizado, de desenvolvimento ou construção do conhecimento.

 

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