Revestrés

20/02/2018
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Blog da Redação

Bastidores, curiosidades e coisas legais

Sem malandragem, não há salvação

Por Samária Andrade

Ouço o barulho na porta e vejo o rapaz muito magro que chega falando, como se a conversa entre nós já existisse. Uma fala mansa, quase tímida, ainda que decidida, aconselha: “As palavras não são inúteis. Tem que bater na máquina como se fosse com a ponta da cabeça, sabe?” Ignorando meu estado entre a surpresa e a letargia, ele segue: “Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela”. Quase num suspiro, conclui com uma voz que vai baixando: “Poetar é simples, difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa”.

Acende um cigarro e sopra a fumaça, acompanhando o desenho no ar. Depois pergunta se vi a coluna de música que ele escrevia no Jornal dos Sports – a pergunta era retórica – e passa a conjecturar sobre o que chama as “complicações do oficio de colunista”: “ter de enfrentar a cara feia do responsável pela divulgação da gravadora que nos manda os discos esperando que elogiemos a todos, incondicionalmente”. Está quase zangado: “Não será possível imaginar o que faríamos da reputação que tentamos conseguir, depois de premiarmos com três ricas estrelinhas o último lançamento – digamos – de Carlos Alberto, que canta chorando alguns boleros horríveis… impossível!”. Referia-se ao cantor do casting da CBS que, nos anos 60, ficou conhecido como “O rei do bolero”. Penso que até hoje há problemas idênticos. Me arrisco a balançar a cabeça afirmativamente, enquanto ele já completa: “Mas nem por isso ninguém está autorizado a supor que faremos desta coluna o cantinho da pichação, hein?”.

Eu puxo um bloco de anotação e caneta para, quem sabe, registrar algo. Ele percebe: “Documente isso, amizade. Não estamos do lado de fora, e do lado de fora é a mesma transa: underground, subterrânea etc”.  O rapaz se aproxima e joga um pequeno pacote sobre a mesa. É o jornal Gramma. Bate com a ponta dos dedos sobre o jornal mimeografado e diz: “isso aqui é uma espécie de milagre – logo no Piauí, numa terra onde não acontece nada, onde nunca passou um filme de Godard e onde cabeludo não entra na escola nem nas casas das famílias”. Faz novo suspiro: “Tristeresina, eu volto enquanto saio”.

No instante seguinte, volta a buscar ânimo e fala como se convencesse a si próprio: “Não está na hora de transar derrotas. Eu digo na porra da Geleia: ocupar espaço, amigo. Estou sabendo, como você, que não está podendo haver jornalismo no Brasil e que – já que não deixam- o jeito é tentar. Eu acredito firme que sem malandragem, não há salvação”. Ele sorri com o canto do lábio: “Os ingênuos abrem a boca e se declaram movimentados. Mas quem se movimenta no vácuo?”.

Pergunto como ele acompanha o que anda acontecendo. Ele responde sarcástico: “Eu ando por debaixo da avenida, muito antes do metrô”. Se encaminha então para a porta enquanto diz: “É pelas brechas: é por elas, amigo”.

Com medo de perder a oportunidade, me apresso e sugiro que façamos uma entrevista. Ele se nega e argumenta: “a melhor sensação é a de reconquistar inteiramente o anonimato no contato com meus pares de hospício. Posso gritar ‘meu nome é Torquato Neto’, do outro lado uma voz sem dentes dirá ‘meu nome é Vitalino’”. Não insisto. Não há como não reconhecer coerência.

Antes de sair, ele enrijece o corpo e imposta a voz: “Eu sou como eu sou...”. Me olha, convidando a participar. Eu continuo, compenetrada: “Pronome pessoal intransferível…”. Ele então gargalha, como se eu houvesse caído na armadilha: “Vocês não se cansam de repetir esse poema? Eu escrevi tanta coisa”. Faz um gesto gentil de despedida e pede que eu não esqueça o principal: “Você pode sofrer, mas não pode deixar de prestar atenção”.

A porta bate com força e eu já não sei se dormia ou se posso acordar. Sobre a mesa, um bilhete em letras minúsculas: “não se aborreça por tanto silêncio daqui. eu te amo”.

* Todos os trechos em italic são de autoria de Torquato Neto, pertencendo a colunas de jornal, cartas ou diários.

 

Quem não arrisca não pode berrar

Por André Gonçalves

Durante mais de dois meses, todos da Revestrés mergulhamos no mundo torquatiano. A equipe inteira andava com poemas e livros de e sobre Torquato; nos carros, as músicas eram todas de Torquato, nas mais diversas vozes que o cantam e espalham e berram. Conversamos com muitas pessoas que com ele fizeram parceria, amizade e farras, e também com quem estuda seu legado. E, em todos os encontros para pauta, café ou discussões, parece que Torquato estava ali, sentado, olhando para nós, fumando um cigarro.  

Mergulhamos no acervo guardado com o maior cuidado pelo primo de Torquato, George Mendes, que teve a paciência de nos receber por lá uma, duas, três, cinquenta e sete vezes ou mais. Vimos todas as fotos. Lemos o que foi possível. Escutamos o que o tempo nos permitiu. Arriscamos. 

Certamente, essa edição especial de Revestrés não estará à altura do que ele produziu. Mas é uma edição, digamos, honesta, que busca levar, a quem não conhece, uma parte da obra de Torquato Neto, o nosso Anjo Torto do Piauí, e uma noção de seu tamanho e importância na cultura brasileira. Para quem já conhecia um pouco ou bastante as letras, os poemas, os textos, os filmes de Torquato, esperamos trazer alguma novidade, algum olhar de revestrés por entre brechas e caminhos até então não descobertos ou pouco explorados. É o risco. Nos colocamos a perigo. 

O fato é que desfolhamos fibra por fibra os nossos corações para dar conta de tentar colocar nas páginas da revista a multiplicidade da alma desse menino que saiu do Piauí para o mundo e, em um inacreditável prazo de apenas dez anos, criou uma obra que, quase 50 anos após sua partida, é moderna, atual, e que cada vez que é “remexida” por alguém se renova e mostra uma força comovente. Torquato, ele mesmo, parece ser uma rua que não tem mais fim. 

O que saiu foi essa edição que você tem em mãos. Um pouco documento, um pouco homenagem, muito de orgulho e uma das edições mais prazerosas e difíceis que já fizemos. Difícil segurar a onda de colocá-lo como mito, coisa de que, certamente, ele não iria gostar. Uma delícia descobrir as ironias e a vida de Torquato cruzando as entrelinhas de sua poesia. Um privilégio compartilhar sua visão de mundo com você.  

Esperamos que a Revestrés Especial Torquato Neto seja para você uma porta de acesso ao universo torquatiano, o cara que veio desafinar o coro dos contentes e, um dia, disse “chega!”, indo embora muito cedo.  

Let´s play that. Na medida do impossível, entregamos a você essa edição. Ou, a carne seca é servida.  

 

Ignácio de Loyola Brandão: “O Piauí tem sua revista”

Excepcionalmente esse Blog da Redação traz uma carta.

Não é todo dia que chega a qualquer redação do Brasil uma carta de Ignácio de Loyola Brandão. Aqui, chegou. E a gente mostra pra você.

 

O Piauí tem sua revista

 

Ignácio de Loyola Brandão

 

“Porque eu vou confessar para vocês: eu não superei coisa nenhuma! Até hoje me enche o saco cadeira de rodas, correr para ir ao banheiro, chegar a uma cidade e minha cadeira de rodas estar quebrada.” Sincero, desabusado, de saco cheio,  franco, na contramão do politicamente correto. Marcelo Rubens Paiva deu a REVESTRÉS uma das mais belas entrevistas que ouvi dele. Desabafo puro, real.  Vamos por partes. Depois de fazer revistas por mais de 50 anos (Claudia, Setenta, Planeta Lui, Ciencia & Vida, Vogue, Homem Vogue, entre outras), quero dizer com alegria que o Piauí tem sua revista e não é a revista Piaui, é a REVESTRÉS  ( o logotipo é difícil de reproduzir em um computador normal: estão ficando antigas estas máquinas modernas; como girar as letras?).

Vai aqui quem desconhece a história da imprensa em meu estado adotivo. Digo meu estado porque sou Cidadão Piauiense há muitos anos.

REVESTRÉS, revista boa para banca em Teresina, por todo Nordeste, no Rio e São Paulo ou o que chamam Sul. Brasileira, sendo piauiense. Escrita sem provincianismo, assim como dona de um design limpo, enxuto, direto. Bem impressa e cheirosa.  Para mim, cheiro é fundamental em revista e em livro. A entrevista de abertura é um arraso. Marcelo Rubens Paiva não tem papas na língua, e define bem o brasileiro, como também desmistifica essa história de superação. Nunca tinha lido ou ouvido dizer o que ele disse sobre sua própria situação. Sincero, aberto, verdadeiro,  odiando a palavra superação que vem sendo usada até para quem quebra um dedo. Esta revista deveria ser distribuída para todo o Brasil, para psicólogos, terapeutas, neuros, fisioterapeutas  e também para os que vivem da “exploração” do tema superação.

Vou em frente, conheço Sulica e  as festas nas ilhas de areia do Rio Parnaíba, onde estive durante uma festa literária,  percorro o rio,  sei as tentativas de reocupação. Vejo as lembranças de Ai que Vida, um filme piauiense (é isso mesmo) de maior sucesso que completa dez anos. Atravesso as manifestações de muros, os desenhos, grafites, frases, siglas cifradas. E me vêm à memória o tempo em que vivi em Berlim, onde havia o chamado maior painel de grafites do mundo, a maior demonstração de arte urbana do planeta: O Muro, die Mauer, The Wall (Pink Floyd): o célebre Muro com 165 quilômetros de arte. Arte permitida apenas do lado ocidental. O comunismo odiava os grafites, assim como o prefeito de São Paulo, João Doria.

Mas há matérias que me encantam, porque são aquelas que mostram o Brasil em sua pureza e resistência. Aquelas coisas que quando viajo adoro conhecer, frequentar, ver, estar. Se anos atrás conheci o suco do Abrãao, que  ficou na alma, agora quero ir  ao Bar e Mercearia São Francisco, na verdade o bar do Zé de Melo. Um destes recantos especiais, típicos,  cheios de vida, espírito. O homem está num dos metros quadrados mais valorizados da cidade e  aos 85 anos recusa propostas milionárias do setor imobiliário. Não arreda pé. Essa gente é que mantém a alma, não deixa o dinheiro arruinar tudo, como diz o Caetano em uma canção. Zé de Melo, onde se compra de caderneta, assim como aqui em São Paulo em Pinheiros, compro de caderneta no empório da chinesa Claudia.

Uma delicia percorrer REVESTRÉS com sua cor local, a ficção, as entrevistas. Devia ser entregue no aeroporto a quem desce para ficar uns dias, distribuída nos hotéis, bares, restaurantes. Acho que falta uma culinária piauiense, devia ter em todo número. E aí chegando, dia desses, quero ir direto à Kina Kana, pedir um pastel e uma garapa (como se dizia no interior de São Paulo, onde nasci). Importante, assim como vinícolas tem suas videiras próprias, a  Kina Kana tem seu canavial em Demerval Lobão. Tudo autêntico. Este é o Brasil distante de Temer, das politicalhas. E nunca esqueço os primeiros números de REVESTRÉS que Wellington me enviava para ler, dar palpite, talvez colaborar. Colaborei e me orgulho disso. Está valendo a pena.

Faça silêncios

Por Samária Andrade

Com a palavra escreve-se a matéria, a poesia, a pesquisa, o romance, o desabafo. A palavra informa – dizem os que esperam pouco da palavra. Ela também fere, envenena. Ela também salva. Ela está pesada, carregada de outras palavras. Ela está vazia, oca de sentidos. Ela está em todo lugar. “Há demasiado palavrório e não se dá valor ao que se abusa” – disse Frei Betto.

A arrogância de quem escreve é pensar que escolhe as palavras. Algumas se convocam. Outras, como gente, quando juntas, se deformam e se tornam dementes. Ou ganham potência. Outras ainda dizem o interdito e vão significar mesmo o contrário da aparente concretude do escrito. A palavra não se submete.

Mas como continua sendo difícil escrever se o mundo está cheio de palavras?

A ausência não é de palavras, meus caros. O abismo se apresenta ao se tentar juntar uma e outra. O deserto está nos silêncios. Aquela fenda de onde você só sai agarrado a outra palavra.

O que aprendo sobre Jornalismo (e algo mais) indo a um Congresso de Sociologia

Por Samária Andrade

As mais sólidas bases (isso ainda existe?) dos estudos teóricos de Comunicação vêm da área de Sociologia. Sempre foi assim. E, algumas vezes, a gente ficou até com ciuminho dos sociólogos: essa gente que parece entender mais do nosso campo que nós mesmos, ora, ora.

Mas trago verdades (impressões?): ou a gente estuda o campo a sério ou já foi. Talvez nós saibamos operacionalizar mais os recursos (eles talvez nem estejam interessados nisso – a maioria, pelo menos), mas eles estão afiadíssimos, “pensando” a “nossa” área (se é que existe o “nossa”). Mas o interesse aqui não é discutir inter ou multidisciplinaridade. É, para além disso, partilhar com vocês alguns pontos, com o sério risco de cometer equívocos. Mas daí a gente pensa juntos, né?

– Até onde nós vamos manter os ritos, quando o país e as instituições se desmancham na nossa cara? Na noite de abertura do Congresso de Sociologia, o cerimonial convidou a todos para ficarem de pé e ouvirem o hino nacional, enquanto os telões exibiam imagens de um país que vai pra frente. Que anacronismo é esse?! Todos de pé, ninguém cantava. Minto: alguns até botaram mão no peito (eu é que preferia não ter visto). A mesa, de sociólogos renomados, visivelmente constrangida, salvou a todos do vexame quando a professora Lourdes Bandeira, chefe do departamento de Sociologia da UnB, lembrou que a Sociologia deve assumir posições e não pode ignorar a conjuntura nacional. Wellington Almeida, diretor-presidente da FAPDF, citou Florestan Fernandes “neste momento em que a força das ideias está dando lugar às ideias da força”. Foram aplaudidos, embora merecessem ser mais aplaudidos.

– Sabe aquele povo que diz que acabaram direita e esquerda (geralmente gente de direita)? Pois é, eles não foram ao Congresso de Sociologia. Lá eles estão falando adoidado em direita e esquerda e suas diferenças complexificadas pelos contextos: as direitas, as esquerdas.

– O neoliberalismo e os conservadorismos estão tirando o sono desse povo. E acho bom prestar atenção a isso, mesmo que você não estude Economia Política da Comunicação.

– Sabe Junho de 2013? Não é simples de entender como você, que já definiu tudo, pensa que é. Há grupos de pesquisadores debruçados sobre esse movimento e suas contradições, inclusive sobre o papel da comunicação nisso tudo.

– Sabe aqueles programas de TV ou meios de comunicação que você descreveu, anotou, fez tabelas, mediu, metrificou e acha que arrasou na pesquisa? Eles vão lhe perguntar: é só isso que você tem a dizer?

– Ou nós, comunicadores, vamos ao Congresso de Sociologia ou não vamos entender mais nada. Aliás, eram poucos os comunicadores por lá. Mas tinha gente do direito, arquitetura, administração, ciências políticas, economia…

– Pergunto-me se parte dos estudos dos comunicadores está aprisionando os veículos de comunicação e/ou os movimentos sociais somente como “objetos” de estudo (essa busca-armadilha da ciência pelo objeto) centrados em si mesmos? Assim escapamos dos cruzamentos que, muitas vezes, não temos capacidade de compreender e adotamos uma visão normativa, limitada e limitante.

– Parte dos sociólogos fala como se estivesse lendo o livro “a representação do eu… blá blá blá”; mas eles são legais, recebem bem e são irônicos: criaram a expressão “pênis acadêmico” para se referir àqueles colegas que se orgulham do tamanho do Lattes e o comparam aos de outros colegas. Aposto que todo mundo conhece alguém assim na academia, né?

– Por fim: esqueça aqueles congressos onde o pessoal não lê o seu artigo. Eles vão ler e vão fazer boas críticas e trazer contribuições e sugerir leituras e fazer perguntas as vezes difíceis. Se isso acontecer, faça como eles: responda alguma coisa que termine com “eu não sei se lhe respondi, mas a gente pode continuar essa conversa mais tarde”.

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