Revestrés

23/09/2017
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Blog da Redação

Bastidores, curiosidades e coisas legais

O que aprendo sobre Jornalismo (e algo mais) indo a um Congresso de Sociologia

Por Samária Andrade

As mais sólidas bases (isso ainda existe?) dos estudos teóricos de Comunicação vêm da área de Sociologia. Sempre foi assim. E, algumas vezes, a gente ficou até com ciuminho dos sociólogos: essa gente que parece entender mais do nosso campo que nós mesmos, ora, ora.

Mas trago verdades (impressões?): ou a gente estuda o campo a sério ou já foi. Talvez nós saibamos operacionalizar mais os recursos (eles talvez nem estejam interessados nisso – a maioria, pelo menos), mas eles estão afiadíssimos, “pensando” a “nossa” área (se é que existe o “nossa”). Mas o interesse aqui não é discutir inter ou multidisciplinaridade. É, para além disso, partilhar com vocês alguns pontos, com o sério risco de cometer equívocos. Mas daí a gente pensa juntos, né?

– Até onde nós vamos manter os ritos, quando o país e as instituições se desmancham na nossa cara? Na noite de abertura do Congresso de Sociologia, o cerimonial convidou a todos para ficarem de pé e ouvirem o hino nacional, enquanto os telões exibiam imagens de um país que vai pra frente. Que anacronismo é esse?! Todos de pé, ninguém cantava. Minto: alguns até botaram mão no peito (eu é que preferia não ter visto). A mesa, de sociólogos renomados, visivelmente constrangida, salvou a todos do vexame quando a professora Lourdes Bandeira, chefe do departamento de Sociologia da UnB, lembrou que a Sociologia deve assumir posições e não pode ignorar a conjuntura nacional. Wellington Almeida, diretor-presidente da FAPDF, citou Florestan Fernandes “neste momento em que a força das ideias está dando lugar às ideias da força”. Foram aplaudidos, embora merecessem ser mais aplaudidos.

– Sabe aquele povo que diz que acabaram direita e esquerda (geralmente gente de direita)? Pois é, eles não foram ao Congresso de Sociologia. Lá eles estão falando adoidado em direita e esquerda e suas diferenças complexificadas pelos contextos: as direitas, as esquerdas.

– O neoliberalismo e os conservadorismos estão tirando o sono desse povo. E acho bom prestar atenção a isso, mesmo que você não estude Economia Política da Comunicação.

– Sabe Junho de 2013? Não é simples de entender como você, que já definiu tudo, pensa que é. Há grupos de pesquisadores debruçados sobre esse movimento e suas contradições, inclusive sobre o papel da comunicação nisso tudo.

– Sabe aqueles programas de TV ou meios de comunicação que você descreveu, anotou, fez tabelas, mediu, metrificou e acha que arrasou na pesquisa? Eles vão lhe perguntar: é só isso que você tem a dizer?

– Ou nós, comunicadores, vamos ao Congresso de Sociologia ou não vamos entender mais nada. Aliás, eram poucos os comunicadores por lá. Mas tinha gente do direito, arquitetura, administração, ciências políticas, economia…

– Pergunto-me se parte dos estudos dos comunicadores está aprisionando os veículos de comunicação e/ou os movimentos sociais somente como “objetos” de estudo (essa busca-armadilha da ciência pelo objeto) centrados em si mesmos? Assim escapamos dos cruzamentos que, muitas vezes, não temos capacidade de compreender e adotamos uma visão normativa, limitada e limitante.

– Parte dos sociólogos fala como se estivesse lendo o livro “a representação do eu… blá blá blá”; mas eles são legais, recebem bem e são irônicos: criaram a expressão “pênis acadêmico” para se referir àqueles colegas que se orgulham do tamanho do Lattes e o comparam aos de outros colegas. Aposto que todo mundo conhece alguém assim na academia, né?

– Por fim: esqueça aqueles congressos onde o pessoal não lê o seu artigo. Eles vão ler e vão fazer boas críticas e trazer contribuições e sugerir leituras e fazer perguntas as vezes difíceis. Se isso acontecer, faça como eles: responda alguma coisa que termine com “eu não sei se lhe respondi, mas a gente pode continuar essa conversa mais tarde”.

Sobre jornalismo e água na peneira

Por Samária Andrade

Gosto do que nem todos gostam, como o menino que carregava água na peneira, do Manoel de Barros. Assim foi que no Jornalismo calhou de eu gostar de pauta e edição de texto. Essas coisas que tão ali quase invisíveis, que parecem não contar, não fazer parte do que realmente importa, mas que são tão definidoras!

Quantas pesquisas acadêmicas você já viu sobre pauta e edição de texto? São poucas. Menos ainda as glórias. Quem você já viu ser premiado por aquela pauta incrível? Ou pela edição supimpa? Entre o público, quem comenta: você viu aquela edição de texto?! E entre os aspirantes a jornalista, quem bate no peito e diz: meu sonho é ser pauteiro!

Editores de texto raramente assinam. Nos impressos há quem duvide da existência dessas criaturas. Mas não se engane: como a água que a peneira não segura, a edição do texto derrama-se no meio da matéria, respira nas entrelinhas. Olhe direito e tente vê-la. Não no cheio, mas nos vazios, que são maiores que os cheios, como acreditava o menino da peneira.

E quem vai querer ser pauteiro se nem a pauta lhe pertence? Ela é uma bola quicando, crescendo, tomando forma, desde o momento em que sai da cabeça de quem primeiro pensou a pauta. E o que importa isso? “Quem-fez –isso-fui-eu” não é preocupação de pauteiro. Ele quer ver é o movimento da pauta, quer passá-la de mão em mão, discuti-la, questioná-la, pô-la em dúvida, vê-la macro para depois sabê-la dividida em micro universos: que angulação, que dados, que fontes? O pauteiro quer mesmo é que a pauta se lhe perca, até parecer que sempre esteve ali, num canto da redação, até explodir na mesa, cheia da vontade de existir.

Quando essas coisas quase invisíveis, que parecem não contar, quase despropósitos, coincidem num repórter, que felicidade! Pobre do jornalista que vê o mundo e não consegue pensá-lo em forma de pautas. Triste do repórter que pensa que jornalismo é transcrição de falas e, perdendo a chance de ser gente, contenta-se em fazer-se gravador.

Por que você quer fugir? Porque o mundo é grande

Por Samária Andrade

A resposta do título acima, aparentemente banal, é das coisas mais profundas. Entre tantas riquezas, ela aparece na peça “Aldeotas”, com Gero Camilo e Victor Mendes (texto do próprio Gero Camilo) , que encerrou a Semana Nacional do Teatro em Teresina na última segunda (27 de março).

Talvez porque o mundo seja grande (e limitada a nossa capacidade de interpretá-lo), passe quase despercebida a passagem de um ator da dimensão de Gero Camilo por Teresina com essa peça. Talvez porque o mundo seja grande (e os grandes meios de comunicação continuem importantes em dizê-lo: “isso faz parte, isso não faz”), muitos dos que foram, foram porque já viram o nome do ator na TV, onde quase sempre está em papeis diminutos. Talvez porque o mundo seja grande (e plural e potente e subversivo), tem gente muito boa produzindo insistentemente em todos os cantos do Brasil, mesmo que essa não seja a manchete, a casa cheia, o sucesso de público.

gero camilo

Foto: Karina Ades/Divulgação

Porque o mundo é grande, o pequeno Gero quase não cabe no teatro: encheu tudo com sua voz e seu corpo. Sem parafernálias, levou-nos à infância, ao açude, a dançar na tertúlia, a olhar a pequena cidade lá do aaaaalto do mirante, a sentir medo, a nos reconhecer e sorrir de nós mesmos. Rodeados de formigas, fomos até o centro do mundo.

Certamente porque o mundo é grande, imenso, não vai ser possível fazer jornalismo sem ir ao teatro. Sem ir ao cinema, ao espetáculo, à palestra, ao livro, ao forró, ao mercado, ao bairro mais distante do seu, à casa dos avós, ao açude, à tertúlia, à esquina. Porque, se a gente não se abrir para o mundo, vai continuar a andar só até o muro das nossas certezas. O mundo é grande. E não vai dar para entendê-lo com aquelas regrinhas que a gente decorou e repete e pensa que sabe. E pode ser que ninguém nunca lhe fale isso, e que você nunca perceba, e continue com suas regras, e classifique as pessoas, e já “saiba” das coisas antes de apurar a pauta, antes de tentar conhecer o outro. Como também pode ser que, mesmo diante do outro, você não o veja, você não tenha instrumentos para avaliar, não saiba onde colocá-lo, como dizê-lo, porque você não se permitiu, antes, encher-se das experiências da vida, porque, lembra, você já sabia, né? Aí você perde o mundo grande e o jornalismo perde e perdemos todos nós.

Se o jornalismo lhe exige uma técnica, exige ainda mais entender que o mundo é grande. Essa é a regra primeira. Vá se encher de vida, de gente, de cultura, antes de apurar, entrevistar, redigir – que este fica pequeno sem aquele.

“Onde você esteve?”, pergunta o garoto da peça a seu amigo. “Estive fora. Ou melhor, dentro”, responde o outro, mantendo segredo de que esteve no centro da terra. Precisamos estar fora, o mais longe que pudermos de nós, porque só saindo do nosso umbigo vamos poder encontrar lá dentro, quem sabe, alguém que possa reconhecer o outro. E cheio de você, sem o outro, pode até ser poesia, um bom texto, um desabafo, reclamação, opinião, mas não é jornalismo o que você faz. O mundo é grande.

PS: Por justiça a quem organizou e patrocinou a bonita Semana Nacional do Teatro, que trouxe espetáculos gratuitos que não chegariam até nossos palcos, seguem os créditos: o projeto teve o patrocínio do Sesi e apoio cultural  do Governo do Estado, por meio da Secretaria Estadual de Cultura – Secult e do Complexo Cultural Clube dos Diários\Theatro 4 de Setembro. Realização: Navilouca Produções e Eventos.

Eu podia ser a Rita Lee

Por Samária Andrade

Acabei de ler a autobiografia da Rita Lee e fiquei convencida disto. Se você duvida de mim, vejamos as incríveis semelhanças:

RITA LEE BOOKS B

– Ambas estudamos Comunicação, gostamos de escrever e duvidamos de nossa voz para cantar (se não fosse o pessoal lá de casa reclamar que eu desafino, acho que eu até teria insistido mais).

– Temos duas irmãs, com as quais vivemos as mais loucas aventuras da infância. O que lembramos da escola nessa fase é muito menos de sala de aula, e muito mais do corredor, da rua, da praça e de lugares por onde a casa nem sabia que andávamos (Tenho também um irmão e, olha aí, nesse ponto levo até vantagem em relação a Rita).

– Admitimos até hoje uma vontade de viver numa comunidade meio hippie, embora desconfiemos seriamente se essa é uma boa ideia.

– Adoramos ouvir rádio.

– Crescemos num casarão antigo e tão grande (ou eu achava) que tinha quartos desocupados onde vivemos outras mil aventuras com a molecada da vizinhança. É para lá que iam os amigos, os primos, os bichos, todo mundo. Quando nos juntávamos aos outros meninos da rua ficávamos tão terríveis que percebemos: passamos a deixar de ser convidados para as festinhas, embora mantivéssemos a carinha de anjo para nossos pais.

– Nossas mães, minha e de Rita, passavam horas na máquina Singer.

– Criamos muitos animais, especialmente gatos. E os gatos da vizinhança adoravam ir pra nossa casa.

– Tivemos que tomar Biotônico Fontoura pra ver se engordávamos mais um pouco. Menino gordinho era mais bonito e orgulhava mais os pais. Nós duas preferíamos o Biotônico ao Óleo de Fígado de Bacalhau – a outra opção.

– Usamos muita roupa herdada dos maiores.

– Minha irmã mais velha, como a de Rita, na adolescência se apaixonava pelos meninos gays e sofria.

– Rita, em São Paulo, eu, no interior do Piauí, usamos um creme para os cabelos, feito por nós mesmas e amigas, à base de cebola e folha de babosa. Um horror! Mas acreditávamos que íamos sair daquela mais bonitas.

– Quando criança, teve uma fase que a menina que fazia mais sucesso era aquela que morria cedo. Assim, a gente queria morrer para ser cultuada, num marketing tipo “morra e vire santinha”.

– Começamos a tocar violão no início da adolescência. A única diferença é que ela continuou.

– Tínhamos exatamente as mesmas musiquinhas de cantar repetidamente em coro com as amigas. Na nossa preferida a expressão mais sutil era “bosta pura”. Nos sentíamos as delinquentes por entoar aquilo nas reuniões de família.

Para eu ser a Rita Lee só faltaram alguns detalhes como: ter gravado discos de sucesso internacional e feito shows no Olympia, em Paris; ter roubado a cobra do Alice Cooper nos bastidores do show; ter visto Mick Jagger de queixo caído enquanto eu arrasava no palco; ter sabido do príncipe Charles cantando “Lança Perfume” com um sotaque britânico que deixou a música engraçadíssima; ser tirada da prisão por Elis Regina; ter usado ácido até me falarem que eu estava chata (essa parte eu dispensaria, o que já diminui a quantidade de coisas que eu precisava ter feito).

Como entre o sul do país e o Piauí havia uma distância maior em épocas pré-internet e eu vivi alguns acontecimentos que me tornariam Rita Lee com certo delay, pode ser que ainda tenha chances disso acontecer, né?

Isso tudo para concluir: a) a sua vida (pelo menos uma parte dela) pode ser muito mais parecida do que você imagina com a vida de qualquer pessoa que esteja por aí, nesse enorme Brasil; b) a nossa história é, em grande parte, uma história social e não apenas nossa; e c) ter uma vida até banal não significa que você não possa virar uma estrela algum dia (mas pode ser que esse nem seja o seu desejo, nem o desejo de quem virou estrela).

Aí, se um dia eu virar a Rita Lee, reescrevo a nossa autobiografia diminuindo a quantidade de vezes que ela usou a palavra “fofo” (desculpa, jornalista lê editando) e adorando ter escrito coisas como “não me venha cobrar que eu seja o que você imagina que eu deveria continuar sendo”.

Jornalismo e a hiprocrisia necessária

Por Samária Andrade

Nós dissemos que essa coluna iria falar de bastidores da produção de jornalismo (do nosso jornalismo na Revestrés, pelo menos). E aí que ontem eu quase não durmo me perguntando: até onde se vai para que se fale, mas não se fale a ponto de perder o encanto? Para que se diga, mas não se perca a aura? Para que se partilhe, mas isso não lhe torne frágil, vulnerável? Até onde se pode revelar? Essa pergunta vale para se pensar do jornalismo às relações de trabalho e amorosas, bem como todas as instituições nesse momento de falência da representatividade.

Há quem defenda: para que se mantenha o “funcionamento das instituições” é preciso que muita coisa nunca seja revelada, que permaneça oculta, que possa ser negada. Por isso a política é feita na base do on stage/backstage.

Eugéne Enriquez diz que sem ilusão, sem crença, sem idealização, sem disfarces, sem hipocrisia, a vida social (e a vida psíquica, consequentemente) seria impossível.

Imagine você um mundo entregue à transparência, onde cada qual saberia o que o outro pensa em seu foro interior. Onde você soubesse o que seu entrevistado pensa, enquanto lhe responde outra coisa. O entrevistado soubesse o que passa em sua cabeça, enquanto anota o que ele diz. Você soubesse o que seus alunos pensam, enquanto você acha que está dando uma aula de arrasar. Seus alunos soubessem o que está registrado em seu pensamento quando você escreve “precisa revisar”. A gente soubesse o que passa na cabeça das pessoas que assistem a missa, que participam da reunião, que escutam o promotor dando entrevista, que fingem que acreditam. Seria suportável esse mundo se todos nós estivéssemos, juntos, nos bastidores?

É provável que estejamos longe de saber o impacto real, sobre o mundo, das revelações de Snowden e Assange, quando a crise é mais política que econômica. É possível que ainda não compreendamos o que acontece de fato quando Mídia Ninja e Jornalistas Livres acusam: “assim não é jornalismo”, ou assumem: “a mídia corporativa não é neutra, nem nós”.

Nem tudo o que você descobre sobre alguém precisa ser dito, precisa virar matéria – nos disse, do alto de sua experiência, Zuenir Ventura, em entrevista para Revestrés. E agora, com esses tempos em que se corre para a internet e se publica?

Se não existe sociedade sem idealização das instituições, como defende Enriquez, o que acontece quando não mais idealizamos a política, a justiça, o jornalismo?

A Sociologia Clínica trabalha o conceito “conhecimento equivocado”. E se o que andamos aprendendo ou repetindo ou respeitando sobre as instituições são “conhecimentos equivocados”? Talvez tenha chegado a hora de remexer nesses conhecimentos. Para fazer isso teremos que chegar nos bastidores de nossas atividades.

O que nos aparece institucionalizado quer manter a aparência de que é soberano, intocável, de que controla o jogo. Para isso conta com a nossa crença. Ou pelo menos, com nosso silêncio. Por ironia, as instituições aparentemente mais sólidas são igualmente frágeis, muitas vezes até mais frágeis: pela incapacidade de estarem dispostas a ver o que já se anuncia.

Para Nietzsche, o desconhecimento acaba por levar ao abismo aqueles que pensam que melhor controlam uma situação.

Se revelar os bastidores pode nos encher de dúvidas, por outro lado não há morte mais segura do que querer preservar algo que já não se controla. E um corpo social – seja o político, a justiça, a família, o jornalismo – não pode fugir das perguntas. Deve procurar respostas aos questionamentos, sob pena de desaparecer. O que você verbaliza publicamente não consegue sufocar o que recalca. O que você não fala, continua a existir.

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