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28/07/2017
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André Gonçalves

Farinhada

andrepiaui

Autobiografia não autorizada de Maria Quem

Minha mãe, que chamava Edilene e era puta, chegou na Passarinha aos quinze. Olho roxo, trouxa nas costas, sandália havaiana e arrastando um farrapo que, dizia Meire Elen, a dona da Passarinha, era o que sobrava da vida dela. Um farrapo cor de rosa, manchado de azul e com cheiro de naftalina. Meu avô, pai da minha mãe, era crente da boca pra fora e filho da puta igualzinho ao meu pai da boca pra dentro. Ele descobriu que ela perdeu o cabaço e meteu a mão na cara dela, o pé na bunda dela e a boca no mundo, gritando da janela pro bairro inteiro ouvir “essa cadela é uma ímpia e só faço a vontade do Senhor: se queres cair na vida, que a vida caia sobre Vós”. Meu avô, pai da minha mãe, inventava coisas e dizia que elas estavam na Bíblia, só que ninguém nunca achava. E era tão filho da puta, tem dias que penso até que mais filho da puta que meu pai, que quem contou pra ele que minha mãe tinha perdido o cabaço foi a Gorete. Gorete era casada com o Gonçalo do Peixe, mas tinha um caso com meu avô, o pai da minha mãe. E quem comeu minha mãe foi o marido dela, o Gonçalo, e ela, pra se vingar, contou pra ele, meu avô, que primeiro quis matar o Gonçalo mas lembrou que o Gonçalo já tinha puxado cana por ter matado um outro amante da Gorete e preferiu descontar na minha mãe. Meu avô, além de crente da boca pra fora e filho da puta da boca pra dentro, era covarde. Mas minha mãe não. Minha mãe tinha coragem. E se era pra sair pra vida, ela saiu. Minha mãe, que chamava Edilene e era puta, chegou na Passarinha. Aos quinze. Olho roxo. Trouxa nas costas. Sandália havaiana. E arrastando um farrapo. Que, pensando bem, Meire Elen tinha razão: o farrapo era o que sobrava da vida dela. Um farrapo cor de rosa, manchado de azul e com cheiro de naftalina.

Carta para Helena

villeimaginaire

 

Senhora Helena.

Antes de qualquer coisa, peço desculpas pela demora em respondê-la. Há tempos não peço desculpas por nada nem a ninguém, nem dou explicações sobre o que quer que seja a quem quer que seja. Não percebo porque alguém haveria de se interessar e já não disponho mais de pudores que me provoquem a necessidade de me desculpar por algo que tenha feito, dito, pensado ou desejado. Mas aqui, senhora Helena, abro uma exceção, e exceções também são coisas que não costumo abrir, salvo em condições extremas. Como essa, ao me corresponder com a senhora.

Há pessoas que pensam, provavelmente, que sou amargo. Que sou estranho. Que sou arrogante. As pessoas pensam o que querem, senhora Helena. Não me importo com elas. Sinceramente, não faço a mínima sobre o que passa na cabeça de qualquer pessoa desse mundo. Todos pensam muito sobre tudo, o que significa que não pensam nada sobre nada. A única pessoa a quem eu daria explicações, pediria desculpas ou coisa que o valha seria Beatriz. Mas me senti aqui tocado pela sua carta, veja só, a segunda que recebo da senhora em tão pouco tempo. Há anos não recebia nada, como já disse, e pela segunda vez recebi seu envelope verde, o que provocou em mim uma reação bastante curiosa. E é a essa reação que se deve minha demora em respondê-la.

Ao receber seu envelope verde, senhora Helena, não senti medo. Não, desta vez não senti nenhum medo. Ao contrário, senti vontade de cantar. A senhora canta, senhora Helena? Eu não canto. Nunca. Sou incapaz de emitir um arrulho sequer, ou mesmo um som gutural, ou mesmo de movimentar os lábios para qualquer lado com a pretensão de que deles saia uma melodia. Uma vez minha mãe fez uma competição em casa, senhora Helena. Éramos cinco irmãos, eu o mais velho, depois duas meninas, depois outros dois meninos. A competição consistia em cada um cantar a melodia que mais lhe agradasse e, pelo voto direto de todos, o que melhor desempenhasse a função de rouxinol-mirim ganharia um mês de sorvetes e uma semana sem fazer as lições de casa, que seriam realizadas por minha mãe. Evidente que meu pai não imaginava nada disso. Na minha vez de cantar, senhora Helena, emudeci. Minha boca ficou presa na forma de um “o”, e era impossível movimentá-la. Passei três dias assim, senhora Helena. Uma paralisia, que gerou muitas visitas médicas, cerca de duas mil injeções de um líquido amarelo em minhas nádegas e o pânico eterno de cantar. Esse pânico ainda se tornou maior e se transformou em vergonha já que meus irmãos, depois do fatídico, para mim, concurso caseiro, formaram um grupo vocal, agraciado em Viena como a maior revelação da música erudita na Europa. Desde então, não canto.

Sua carta, então, me deu vontade cantar. Sentei na escada do meu edifício, senhora Helena, respirei fundo e, sem me dar conta do que fazia, era Charles Aznavour e cantava Que C´est Triste Venise. Cantei, senhora Helena! E os vizinhos abriram as portas, e mesmo assim eu não me sentia intimidado, e todos olhavam admirados, não sei se por alguma eventual qualidade musical ou pelo estranho fato de alguém como eu, segurando um envelope verde, cantar Que C´est Triste Venise, sentado na escada. Ao fim, senhora Helena, aplaudiam. Aplaudiam-me com fervor. E ouvi alguém gritar “bravo”, e alguém me jogou flores do último andar. Eu era Aznavour, senhora Helena. Eu cantei. E foi sua carta que me fez cantar. Mas fiquei sem entender porque Que C´est triste Venise. Nunca fui a Veneza. Mas subi, senhora Helena, em meio aos abraços efusivos dos vizinhos, e li sua carta, e agradeço por querer me ajudar a encontrar Beatriz. Não creio que isso seja possível. Reencontrar Beatriz. Mas decidi algo. Vou a Veneza, senhora Helena.

Há anos não saio deste cubículo em que vivo, nem desta cidade. Vou tomar um trem, porque não tenho pressa, as pessoas sempre têm muita pressa e eu não tenho nenhuma. Não admito viagens por avião. Toda viagem deveria ser por terra, para que se perceba o deslocamento do tempo. Enfim, vou a Veneza.

Se me permitir, enviarei nova carta. Não sei se lhe incomodarei.

Ia falando tanto de mim que quase me esqueço de algo que realmente me causou surpresa, até estranhamento. Senhora Helena, eu lhe afirmo que nunca, jamais, enviei uma carta sequer em envelope cor de vinho. Não sou afeito a esses caprichos, senhora Helena. Meus envelopes, digo novamente, são como eu: sem cor. São sempre brancos. Completamente brancos. Não creio que seja daltônica. Mas nunca utilizei envelopes cor de vinho. Não compreendo. Não compreendo porque me dizes que os meus envelopes são cor de vinho.

Outra coisa: surpreende-me também a qualidade de sua escrita em francês. Pude deduzir que é brasileira, mas que lindo seu modo de escrever em francês. Nem Blanchot o faria tão bem. Já viveu em França?

Um abraço,

H.

 

O maior jogo de vôlei de todos os milênios

(texto publicado na minha coluna Farinhada, no jornal O Dia, em março/2006 – de volta porque o site do Mr. Zuckerberg fez com que eu e Ibinha voltássemos a nos falar mais de 30 anos depois dos fatos narrados fidedignamente – e com testemunhas!)

Semana passada contei aqui algumas peripécias do meu passado. Parece que fez sucesso. Recebi vários e-mails: um com alguém dizendo não acreditar que eu já fui cabeludo, outro pedindo que eu suba novamente aos palcos pra desbancar Mick Jagger, outro criticando porque chamei nosso astronauta de tomate espacial. Pelo visto, falar sobre a gente dá ibope, mesmo. Bem, depois desse sucesso, resolvi escancarar e contar mais alguma coisa lá de trás da minha vida. E, olha, essa eu contei pra pouquíssimas pessoas. Que não acreditaram em uma só palavra, o que me fez resguardar ainda mais esse pedacinho heróico de minha existência. Mas aí vai.
Eu já joguei vôlei. Certo, sou um tampinha, mas joguei, numa época em que minha altura ainda era compatível com os demais da minha idade. Fui descoberto, e isso é um orgulho que trago comigo, pelo professor Adolfo Guilherme, que, bem antes de me descobrir, chegou a ser treinador da Seleção Brasileira Feminina. Jogando uma pelada nas quadras do Minas Tênis, em BH, seu Adolfo me viu, me chamou num canto e disparou: “Menino, você leva jeito. Quer treinar comigo”? Eu tinha 13, 14 anos. E foi aí mais de um ano com “seu” Adolfo, divertidíssimo, treinando e sonhando em crescer mais alguns centímetros e ser um novo William. Mas, peraí, essa não é a estória, é a introdução. Feita, aí vai o “causo”.
Então, jogava vôlei. Mas acabou que fui morar no Rio de Janeiro. E fiz dupla de vôlei de praia com um amigo, o Ibinha. O Ibinha tinha um nome pomposo, aristocrático: Eduardo João Henrique Haas Gonçalves Júnior. Mas era duro, ferrado como eu, e combinava mais com Ibinha, mesmo. Era meu amigo, colega de escola e dupla na praia. Inseparáveis. Éramos da mesma turma na oitava série. E, um dia, se na praia não ganhávamos de ninguém, tivemos nosso nome inscrito na galeria dos heróis mundiais do esporte, apesar de ninguém saber disso.
Nossa turma, a 802, chegou à final do torneio de vôlei da escola contra a 801. Eu de levantador, o Ibinha na entrada e o Zé Ricardo, que na época treinava no Fluminense, na saída de rede. Dos outros, confesso, não lembro. Mas o trio era quase imbatível. Só que, sabe-se lá porque, no dia da final nosso time não foi. Fomos só eu e Ibinha. Os dois e mais a torcida, o outro time, a diretoria da escola e meio mundo. Mas cadê o time? Íamos perder por WO. Mas, conversando com o professor de educação física e, no caso, juiz do jogo, ele permitiu que entrássemos em quadra, eu e Ibinha. Perder por WO era muito feio. Claro que todo mundo previa um massacre, mas entramos em quadra aplaudidíssimos pela iniciativa. Até que, dentro da quadra, eu e Ibinha começamos a dar um show. Ninguém acreditava. Eu e ele, sem reservas, sem mais ninguém, começamos perdendo o jogo, mas equilibramos ainda no primeiro set, que ganhamos de virada. A torcida, em êxtase, começou a gritar nosso nome. A 801 mudou o time todo, entrou gente, saiu gente, e eu e Ibinha firmes, gigantes (eu nem tanto, mas entenda meu entusiasmo). A cada lance, um joelho esfolado, uma cabeça dolorida, mas ponto para a dupla da 802. Nós, claro. Que, acredite você ou não, ganhamos a partida. Eu e Ibinha derrotamos um time inteiro, com seis titulares e seis reservas. É verdade! Olha, to dizendo! Tenho centenas de testemunhas!
Tá bem, tá bem… Não precisa acreditar. Ninguém acredita mesmo. Mas vou procurar o Ibinha pela net e trago ele aqui pra você ver. Pode esperar.

Das histórias

Toda família tem histórias, e são essas histórias, reais ou inventadas ou imaginárias ou bem sólidas que, juntas, fazem a história de uma família. A minha, como todas, tem muitas, em especial as histórias de viagens do tataravô do meu bisavô, que em tempos bastante remotos rodou o mundo, Ásia, Europa, Oceania, passou ainda pela África e conheceu as Américas como ninguém mais e que, dizia ele, andou por tantos lugares que descobriu que os continentes são oito, os mares dezesseis e oceanos são nove. Essas afirmações contrariam as noções e afirmações da ciência contemporânea mas, enfim, são falas do tataravô do meu bisavô e isso basta para que as tomemos como a mais pura e cristalina verdade, já que era homem honrado e não mentia, exceto quando dormia e falava enquanto sonhava, mas aí não sei se seria possível que se afirmasse que mentia, já que sonhava, e sonhos são sempre o que existe de mais real e verdadeiro.

Então o tataravô do meu bisavô, ao retornar para casa numa viagem de volta que levou cerca de três anos após nove meses desbravando a região da Rondívia, chegou a Thang Long, hoje Hanoi, capital do Vietnam. Era uma manhã com garoa e, mineiramente acocorado às margens do rio Vermelho, o tataravô de meu bisavô tomava tranquilamente seu phò com pedaços de frango, coisa que muito lhe apetecia. Ao terminar, levantou-se e, ao procurar a sombra de uma árvore para descansar, percebeu uma pequena aglomeração. Chegando perto viu que as pessoas cercavam uma moça que rodopiava. Rodopiava. Rodopiava. O vestido azul em redemoinho, pedaços de céu orbitando em torno da moça que, alheia a tudo, rodopiava. Rodopiava. Rodopiava. Rodopiava. O tataravô do meu bisavô dominava como poucos a língua vietnamita e perguntou por que a moça rodopiava. Uma senhora explicou que a moça era uma vendedora de rodopios e cobrava o que hoje seria equivalente a dois dongs por rodopio e, como isso era bastante barato no mercado nacional de rodopios, as pessoas estavam pagando para vê-la rodopiar. E ela rodopiava. Rodopiava. Rodopiava. Rodopiava.

Meia hora ficou o tataravô de meu bisavô observando os rodopios da jovem que vestia céu, e a cada rodopio ele tentava olhar nos olhos dela mas ela rodopiava de olhos fechados. O tataravô de meu bisavô conseguiu perceber que a moça que rodopiava rodopiava com um breve sorriso no rosto, além dos olhos fechados. Até que a moça que rodopiava começou a rodopiar um pouco mais lentamente, um pouco mais lentamente, u m  p o u c o   m a i s   l e n t a m e n t e,  u    m     p    o   u    c    o       m    a    i   s      l    e    n    t    a    m   e    n    t    e. Até que parou. O tataravô do meu bisavô finalmente conseguiu olhar nos olhos da moça que rodopiava. Ela tinha os olhos agora abertos mas olhava para algum lugar que não existia. As pessoas iam se afastando lentamente, até que ficaram apenas a moça que rodopiava e o tataravô do meu bisavô. Contava o tataravô do meu bisavô que a moça que rodopiava passou ainda algo próximo a duas horas olhando para algum lugar que não existia, e durante esse tempo ele ficou ali, em frente a ela, que não o via.

Até que em algum momento a moça que rodopiava e olhava para algum lugar que não existia percebeu que o tataravô do meu bisavô estava ali, olhando para ela. Ele contava que ela abriu um sorriso um pouco maior, moveu a cabeça como se lhe agradecesse por algo, recolheu algumas moedas que estavam pelo chão, segurou a barra do vestido de céu à altura dos joelhos e saiu, caminhando tão levemente que mais flutuava que caminhava.

E o tataravô do meu bisavô contava que sentiu uma vontade grande de rodopiar também, e ali, no mesmo lugar, começou a fazer como a moça que rodopiava, e fez isso primeiramente bem devagar, depois um pouco mais rápido, e cada vez mais rápido. E rodopiava. Rodopiava. Rodopiava.  Rodopiou por vinte horas sem parar, e depois desse tempo foi reduzindo a velocidade nos rodopios, rodopiando um pouco mais lentamente, um pouco mais lentamente, u m  p o u c o   m a i s   l e n t a m e n t e,  u    m     p    o   u    c    o       m    a    i   s      l    e    n    t    a    m   e    n    t    e. Até que parou. O tataravô do meu bisavô rodopiou tanto que o chão em que pisava foi cedendo aos poucos, e ao fim de seus rodopios ele estava três metros abaixo. O tataravô do meu bisavô contou então que durante quase duas horas ele não conseguia deixar de olhar para algum lugar que não existia, e que era um lugar bem bonito e azul. E que ao fim desse tempo, após algum esforço para sair do buraco onde havia se metido rodopiando, percebeu que era noite. E que, apesar de sentir algo que nunca havia sentido antes e, segundo ele, nunca mais deixou de sentir depois, retomou o caminho na estrada que, três anos depois, o levaria de volta para casa. Não era mais o mesmo.

Toda família tem histórias, reais ou inventadas, e essa é mais uma das histórias que o tataravô do meu bisavô contava de suas vivências pelo mundo e seus quem sabe oito continentes. São histórias como essa que fazem a história de minha família, e atravessam os séculos. E, mais que histórias, são nossas melhores verdades, as verdades mais sólidas, as que são suporte e norte das almas dos que me são próximos.

Autobiografia não autorizada de Maria Quem

(Tiro 1)

Meu nome é Maria. Maria Antônia Almeida de Bragança Fernandes Oliveira Melo Da Silva e Silva. Isso, Silva duas vezes. Silva é nome de pobre. Vai ver é por isso que eu tenho dois Silvas. Nasci pobre. Muito pobre. Silva de pai e Silva de mãe. O resto, Antônia de Almeida de Bragança Fernandes Oliveira Melo, não é de ninguém. Minha mãe que inventou pro meu nome ficar grande. Mas meu nome não tem nenhum dábliu ou ípsilone. João, Maria, José, Pedro, sempre foi nome de pobre. Mas rico hoje em dia chama os filhos de João ou de Maria pra parecer humilde. Eles enchem o peito e falam cheios de orgulho: viu como somos humildes? Quanto mais simples, mais rico. Quanto mais enrolado, como Westerson, Winston Allyson, Eulanajra, Margilaine, Westinghouse, mais pobre. Mas Silva não, é mesmo sobrenome de pobre. Meu nome é Maria. E eu tenho dois Silva.

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